Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

A não comparência anunciada de Messi

Como se esperava, o argentino não se apresentou no regresso ao trabalho do clube, apesar de, diz a imprensa espanhola, querer resolver a sua saída a bem, sem conflitos. Mas, este domingo, a liga espanhola emitiu um comunicado para, na prática, se colocar do lado do Barcelona, dizendo que o contrato entre o jogador e o clube ainda está em vigor e a cláusula de rescisão de 700 milhões terá de ser paga para Lionel Messi sair do clube

Diogo Pombo

PAU BARRENA/Getty

Partilhar

Tem os pés brancos e inchados, os ténis que calça inflacionados em tamanho são, parecem nuvens coladas ao alcatrão e lá ficaram, durante as horas em que ele, miúdo ainda sem toque dado à campainha da adolescência, esperou pela não comparência anunciada, espreitando para todos os carros, vasculhando janelas dentro pela pessoa que se julgava abarcar tudo no Barcelona para todo o sempre, mas que teve a sua dose e está a tentar dosear as dores da separação, esta a mais drástica depois da dolorosa decisão inicial.

De Lionel Messi disse-se que não iria aparecer, este domingo, para realizar exames médicos no dia do regresso da equipa aos trabalhos. E de Lionel Messi apenas se viu o nome, o apelido e o número estampados nas costas da camisola do desalentado miúdo, plantado à porta das instalações do clube, a ver passar jogadores sem que passasse o melhor deles todos.

O argentino cumpriu com os rumores, não apareceu, a dor assentou arraiais na alma do rapaz e vai mobilar-se por cada linha escrita sobre o contrato, as cláusulas e as interpretações divergentes que cabem na disputa entre o jogador que foi mais do que um clube e o clube que será menos do que é sem ele.

Messi e quem o aconselha crê que a cláusula, inserida aquando da última renovação, lhe permitia rescindir unilateralmente o contrato (que durava até ao verão de 2021) ao final desta época, era válida até agosto terminar, por ser factualmente quando a temporada acabou, e não até ao fim de junho, como estaria preto no branco do contrato, porque a pandemia baralhou os prazos e prolongou as competições. O Barcelona acredita que não, que datas são datas, e o que está escrito contratualmente ainda é válido e, portanto, o jogador apenas sairá caso alguém pague os €700 milhões de outra cláusula, a de rescisão.

E no meio destas visões opostas intrometeu-se, também esta domingo, a La Liga, que fora o futebol também gere direitos televisivos, publicidade e marketing, sinónimos de dinheiro e dos euros e das audiências e do interesse que, necessariamente, não serão os mesmos caso de Espanha saia o futebolista mais mediático, reconhecido e talentoso do país.

Por isso, via comunicado, a entidade tomou uma posição e escolheu o seu lado.

Agora ladeia o Barcelona, pois escreveu que o contrato entre o clube e o argentino "encontra-se atualmente em vigor" e conta "com uma cláusula de rescisão" aplicável caso Lionel Messi decida pelo "fim antecipado e unilateral" do vínculo. É contratualês para o seguinte: a La Liga não vai, do seu lado, aprovar o fim do contrato entre o Barcelona e o jogador se o jogador não pagar a astronómica quantia (em Espanha, são os futebolistas quem, formalmente, têm de depositar os valores das cláusulas).

Tem escrito o El País e outros meios que Lionel Messi, indo já sair a mal, quer evitar sair a péssimo e gerar conflitos legais com o Barcelona. Mas é a colisão para a qual se parecem estar a encaminhar, não no cruzamento onde o miúdo assentou a sua tristeza e esperou, carro a carro, para ver se o argentino que tinha no dorso não dava mais uma prova de estar, mesmo, a virar as costas ao único clube da sua vida adulta.