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Thiago Alcântara deixou o Bayern e a pausa chegou ao Liverpool

Pelo jogador que é, pelo tipo de jogo que fomenta e pela forma como se dá com a bola, pagar €30 milhões por Thiago Alcântara é uma pechincha que o Liverpool acabou de assegurar. O médio espanhol chega ao campeão inglês para ser a respiração controlada na equipa que existe para ser vertical e contra-pressionante a todo o momento

Diogo Pombo

Michael Regan - UEFA

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Vimo-lo por Lisboa, a saltitar relvados fora com o seu caminhar de pequenos passos, dos que elevam mais o corpo do que propriamente o projetam numa direção, de peito feito e tronco retilíneo e cabeça levantada em consonância, algures nela mantém a funcionar o sonar mental que uma catrefada de frequências acústicas deve emitir por segundo; porque ele, um pequeno corpo humano, fez-se uma enormidade de futebolista com os anos e parece sempre saber onde estão, de onde vêm e quando chegarão perto todos os pés e pernas que estão no campo.

Pela Liga dos Campeões que se desenrascou em Lisboa andou a versão mais abominável para os adversários de Thiago Alcântara, a meter o pé e as ideias em toda a bola e jogada do Bayern de Munique, a surpreender companhias indesejadas com receções orientadas ao primeiro toque, para o lado aberto ou fechado do seu corpo, a quebrar o ímpeto de quem o pressionava com os seus abranda-arranca nas conduções de bola, a sempre se virar para o campo defendido pelos outros para, ó não para esses outros, ficar de frente para o jogo.

Um jogo que, tendo Thiago em campo, fica dele, torna-se sua posse, porque o espanhol é o tipo de centrocampista em quem o jogo de uma equipa se tem, forçosamente, de centrar, para assim ir parar aos sítios certos, com a velocidade de bola certa, com o número de passes necessários. Parece exagerado monopolizar importâncias num só tipo quando são 11 que jogam de cada lado, mas, aos 29 anos, Thiago Alcântara é bem capaz de ser, de momento, o melhor médio centro no futebol.

E o Liverpool acabou de o contratar por €30 milhões ao atual campeão europeu, uma pechincha monumental que, mesmo podendo ir-se buscar as dúvidas às traições que o corpo lhe costuma pregar - nas últimas três épocas, perdeu 19, 7 e 9 jogos devido a lesões -, é quase inatacável pelo sentido que faz na teoria.

O campeão inglês, após 30 anos de espera, é uma equipa que Jürgen Klopp maquinou para ser muito forte a jogar de uma certa forma, com certas coisas que hoje lhe associamos, primeiro que tudo.

É muito vertical na forma de procurar espaços; sempre procura os três perigosos estarolas da frente, onde Salah e Mané dão o melhor de si se lançados na profundidade e Firmino se procurado para combinar, entre linhas; é muito pressionante na saída de bola adversária e ainda mais quando perde a bola no campo dos outros, onde aciona a contra-pressão para recuperar a posse com o melhor do onde (perto da baliza contrária) e do quando (com o adversário a organizar-se para atacar).

Esta máquina de verticalidade, pressão e galopante no sobe e desce em campo, porém, começou a ser esperada por quem a defronta, por muito que difícil seja de contrariar, e o Liverpool, sobretudo na temporada que passou, foi enfrentando cada vez mais equipas que esperavam, juntavam-se à sua área, encurtavam o espaço entre a última linha e a baliza e tentavam condicionar o uso do que eles têm de melhor.

M. Donato/Getty

O Liverpool tentou, e muitas vezes conseguiu, ter um lado B que soubesse gerir a bola com calma, atrair pressão aqui e soltá-la para acolá, esticar as duas motas humanas que tem nas laterais para provocar dúvidas em equipas aglomeradas em bloco na sua área e puxar pelos médios para acelerarem passes no centro do campo. Mas não tinha Thiago Alcântara.

Agora terá um médio que faz vida da resistência à pressão, a ser um daqueles médios que uma hora e meia passa e quem andou a pressioná-lo fica com a sensação de nunca se ter aproximado verdadeiramente dele, tal a rapidez de pensamento e de execução que lhe saem do corpo.

Thiago é um passador de bola curta e longa como o Liverpool não tinha e pouca gente tem, um driblador em modo-receção e ao primeiro toque que bate logo uma adversário pressionante como sete épocas em Munique o demonstraram e, como se viu em Lisboa, também já é um fiável e pressionante defensor de espaços.

E é, sobretudo, a calma técnica com bola que o Liverpool não tinha. Um médio em quem podem depositar o volante das jogadas quando não for possível acelerar em linha reta até aos três da frente e à baliza. A pausa pensante chegou ao campeão inglês.