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Como Andrea Pirlo quer atacar: jogo de posição, losangos, terceiro homem e sempre dois jogadores a atacarem a profundidade

Ainda há pouco estava a distribuir passes com régua e esquadro e, agora, terá a primeira experiência enquanto treinador principal na poderosa Juventus, campeã de Itália nas últimas nove épocas. Mas a Federação Italiana de Futebol divulgou a tese de final de curso UEFA Pro (nível IV) de Andrea Pirlo e, por escrito, ele explica como quer as suas equipas a jogarem "um futebol propositivo, de posse, atacante e com ambição de comandar o jogo" em todas as fases. Por isso, eis o resumo possível dos conceitos ofensivos que, talvez, já se possam ver este domingo (19h45, SportTV3), quando a Juventus defrontar a Sampdoria

Diogo Pombo

Daniele Badolato - Juventus FC

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Não era preciso conhecê-lo, bastaria tê-lo lido quando, há cinco anos, quem tanto jogou por muito pensar lançou o livro "Penso, Logo Jogo", e lá para o meio garantiu que "não apostaria um cêntimo" na hipótese de ele próprio vir a ser treinador. "Não é um trabalho pelo qual me sinta atraído", deixou, por palavras, fazendo-nos pensar que tínhamos visto os longos cabelos, a barba farta e o caminhar gracioso de Andrea Pirlo perto de um campo, pela última vez, algures nos EUA, onde escolheu ter o pôr-do-sol da carreira.

Acelerado o tempo até ao fim de julho último e o italiano, 41 anos feitos, era apresentado como técnico da equipa sub-23 da Juventus. Pulam-se nem duas semanas e lá estava Pirlo a ser promovido à equipa principal, sem os anos passaram por ele na aparência, mas, de imediato, carregado de expetativas e dúvidas com o fato e a gravata com que se apresentou: afinal, nunca sequer teve uma experiência enquanto treinador, seja de que escalão for; como gosta e vai querer jogar? Será que tem o que é preciso? Não será uma aposta arriscada?

Mais do que respondida, pelo menos uma destas perguntas pôde começar a ser entendida na segunda-feira, quando a Federação Italiana de Futebol divulgou para o mundo outra obra de Andrea Pirlo, esta chamada "O Futebol Que Quero". É a tese de final de curso UEFA Pro (nível IV) que o italiano apresentou no centro de formação de treinadores, em Coverciano, na qual ele explica, detalha e exemplifica em 30 páginas os princípios e conceitos de jogo que lhe falam ao coração e pretende implementar nas suas equipas - logo, na Juventus de Cristiano Ronaldo, Paulo Dybala, Leonardo Bonucci, Gianluigi Buffon e Giorgio Chiellini.

Aqui fica o resumo possível do que Andrea Pirlo gosta quando uma equipa sua tem bola, quer avançar no campo, chegar ao último terço e atacar a área e a baliza dos outros, partindo de uma identidade que, na introdução e na conclusão, deixou como certa: "Um futebol propositivo, de posse, de ataque, total e coletivo, que acredito possa ter grandes vantagens".

O guarda-redes no início de tudo

O barbudo e cabeludo treinador começa por esmiuçar cada posição, embora quase sempre genérico, sem polvilhar, logo aí, grandes pistas da forma de jogar. A não ser, porém, logo na primeira “função”.

Ao descrever o guarda-redes, destaca como “é essencial” conseguir “cobrir os espaços” com “uma linha defensiva alta e agressiva” e, focando-se nos pés, realça até que tem de ser um jogador capaz de “conduzir a bola, escolher a solução mais eficaz e filtrar um passe”. A ele retorna quando explica a fase de construção e a forma como quer uma equipa sua a começar as jogadas.

Reconhece que a superioridade numérica possível, nessa primeira zona, é limitada a +1, por não querer “desperdiçar homens” atrás da linha da bola. Esse +1 é o guarda-redes, sobretudo “contra equipas que pressionem alto”, e deve “ter coragem” para “abandonar a baliza e a área”, tentar “passes filtrantes” e até “conduzir a bola” para provocar “a saída na pressão de um adversário”.

Assim libertará algum jogador nas suas costas e Rabiot, o canhoto francês, ou Arthur, recém-chegado do Barça, poderão já estar a sorrir com esta ordem de ideias. O italiano acredita, “com particular atenção”, na criação de triângulos para procurar o terceiro homem e “superar a pressão” nesta fase. Ou seja, de haver passes entre dois jogadores, atraindo adversários, para libertar um terceiro jogador, em quem a bola deve acabar.

Tão crente é que cita Xavi, em rodapé - “O terceiro homem é impossível de defender”.

Daniele Badolato - Juventus FC

A construção

Andrea Pirlo tem um carinho especial pela construção pelo centro do campo, privilegia-a porque “complica o pressing adversário”, permite “uma saída de bola mais limpa e difícil de ler”. Não quer pressas, há que “superar uma linha de pressão de cada vez” com os jogadores próximos uns dos outros, a equipa compacta, “sem forçar verticalizações ou lançamentos”.

O treinador com pinta de pintor bucólico quer a equipa a começar assim para se precaver contra o momento da perda de bola - “devemos atacar bem para defender bem”, destaca. Quer na manete das mudanças duas velocidades: “paciente e de preparação” atrás, na construção, depois, “rápida e direta” na frente, quando um passe libertar um jogador entre linhas.

Até descreve como deseja ver a bola a sair dos pés dos jogadores, “seca e forte”. Como quer uma circulação “sem pressas, mas sem pausas” para criar espaços. Como ciente está, e necessariamente fará com que estejam os jogadores da Juventus, que será o adversário “a determinar as escolhas na construção”, voltando ao jogo próprio que é o espaço em campo: “maior pressão e mais jogadores no nosso campo a pressionarem, mais espaço haverá para os atacarmos”.

Em posse, superada a primeira linha de pressão adversário, Pirlo alonga-se sobre como quer a equipa organizada em 3-2-5 ou 2-3-5, com os jogadores “entre as linhas adversárias” a “movimentarem-se, insistentemente, para que haja sempre uma linha de passe livre”. Na largura, para esticar as atenções e o posicionamento dos contrários, quer “um jogador, e apenas um, a dar sempre largura, tanto à esquerda como à direita”, sem sobreposições para serem eles a “garantir a máxima amplitude do campo em cada ação” com bola.

Os ataques, sempre, à profundidade

Depois, muito preza outro conceito (vinca-o por duas vezes) para quando a equipa chega perto da baliza contrária: “Com a bola descoberta e de frente para a baliza, na zona de finalização, pelo menos dois jogadores devem atacar a profundidade”.

Isto parece falar muito ao coração de Pirlo. Justifica esta obrigação com o “alongamento” que provoca na equipa adversária, fazendo “baixar a linha defensiva” e abrindo espaços para a finalização, e com o “comprometimento mental” que exige aos defesas contrários, que é como quem diz, o facto de terem de ver, analisar e decidir com várias coisas a acontecerem ao mesmo tempo na sua área de ação. Provocar dúvidas.

O que Pirlo quer, mesmo e no fundo, é um jogo de posição, estilo tão prezado no Barcelona por Johan Cruyff e, depois, por Pep Guardiola, ao qual faz um resumo possível baseado, lá está, no nome que tem. “O aspeto mais importante é a própria posição. Devem ser respeitadas as posições da nossa estrutura de jogo, esperando que será a bola a chegar ao jogador e não o contrário”, escreve, sobre o estilo onde deixa vários princípios.

Como o “losango”, onde os jogadores se devem aproximar do portador da bola para o formar, criando opções de passe para saírem da pressão, especialmente se estiver coberta (com adversários próximos, ou a pressioná-lo), para lhe darem opções de passe.

Ou o “espaço livre”, segundo o qual os jogadores marcados devem movimentar-se, jogando com essas marcações para abrirem espaços para outrem, e quem está livre de marcação deve manter a posição e esperar que esta dança lhe faça entrar passe no pé.

Filippo Alfero - Juventus FC

Na finalização de jogadas, o treinador quer a equipa a “atacar a linha adversária com, pelo menos, cinco jogadores”, os dois extremos e três jogadores por dentro, que “podem muitas vezes ser seis ou sete”. Na área, pretende ver sempre três-quatro, “com particular atenção ao ala contrário, porque pode muitas vezes fechar com sucesso o segundo poste”.

Mas, e antes de chegarem aqui?

Nesses últimos 30 metros, onde coisas se criam, oportunidades se inventam e finalizações se forçam, Pirlo deposita as fichas na capacidade de cada jogador que terá nessas zonas, mas não totalmente. “Ainda acredito o padrão deve ser a criatividade e o talento individual, com os jogadores livres para se exprimirem”, garante quem, tão cirurgicamente, com um bisturi no pé direito e um radar na cabeça, depositava redondos presentes no caminho de quem por ali se movimentasse.

Mas, continuou Pirlo, é a estrutura e a organização da equipa que permitirá aos jogadores “terem os posicionamentos certos para desorganizarem a defesa adversária”. Por isso explica, por arrasto, que tudo não pode ficar dependente no turbilhão que mistura vários ventos de inspiração individual, daí acrescentar: “Dentro de um futebol de princípios e espaços, é importante acrescentar à equipa jogadas e movimentos codificados nos últimos 30 metros, para garantir maior segurança e mais possibilidades aos nossos jogadores. Jogadas e movimentos pensados e preparados para enaltecerem as nossas características.”