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Benzema: o gato das botas afinal era um fino camaleão que mudou por Cristiano Ronaldo

Se o gato das botas que, desconfiado, calcava o Bernabéu desapareceu, apareceu no seu lugar uma lenda. São já 250 golos com aquela camisola branca que pesa mais do que qualquer outra. Já superou Puskas (242). À frente dele estão apenas quatro homens: Cristiano (451), Raúl (323), Di Stéfano (308) e Santillana (290). Mas o estilo de jogo de Karim começou a mudar no verão de 2009. Porquê? Cristiano

Hugo Tavares da Silva

Matthew Ashton - AMA

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Valdano, como tantas vezes, entendeu tudo: “No Lyon usavas a camisola 10 e jogavas a 9. Agora tens a 9 e jogas a 10”. Karim apontou como quem concorda e gargalhava.

- Si, si, si!
- Não havia maneira de te entenderem…
- Exatamente. Por isso te digo: sou um 9, um 10…

Karim Benzema, o terceiro capitão do Real Madrid, aterrou no maior clube da história em 2009, ainda deslumbrado pelos Galáticos, uns tempos que mais parecem ficção. Ronaldo, o Fenómeno, é o farol. “Comecei a ver futebol por causa dele. Olhava muito para os movimentos dele, tentava… [mas] era impossível fazer igual. Olhei muito para ele. Era o melhor. Não havia um avançado igual. Não há. Uns podem ter a sua velocidade, mas não têm aquela capacidade de fazer as coisas, de como conduzia a bola, de finalizar. Bueno…”, admitiu no programa “Universo Valdano”, um formato em que o entrevistador é Jorge Alberto Francisco Valdano Castellanos, campeão do mundo em 86 e ex-futebolista e ex-treinador do Real Madrid.

Nos tempos de Lyon, quando desatava a correr pela esquerda, desenfreado e imparável, sentia-se que era especial. Tinha o cabelo rapado, domava os caprichos da bola a uma velocidade surpreendente e fazia muitas vezes aquela simulação malandra que já era vista e pela qual suspiravam pelo menos desde 1996 ali perto, em Camp Nou. Não faltou quem o comparasse na altura com o ídolo.

Em Madrid nem sempre teve vida fácil. A língua foi um problema. E aí ajudou Cristiano Ronaldo, que dava uns toques na língua francesa e que o tentou ajudar, admitiu o avançado na conversa com Valdano, não só fora de campo como lá dentro "a dar bolas”. Quando não se está bem fora do campo, é difícil jogar, explicou. O maior crítico foi sempre o pai, pedia-lhe golos. O futebol era marcar golos, dizia-lhe. Foi um bom teste para o que viria aí, pois o madridismo é uma das massas adeptas mais exigentes do mundo. E antes de jogar bem ou ser maravilhoso em cima do tapete perfumado, há que ganhar. O escudo está por cima de tudo. O divino, certamente com uma dívida desconhecida, respalda e dá força a esta máxima.

Um dos momentos mais difíceis para Karim no Santiago Bernabéu aconteceu em 2010, quando José Mourinho era o treinador dos merengues. O português queria caçar com cão, com um bom cão, que era Gonzalo Higuaín. Na ausência do mesmo, anunciou que ia para a caça com um gato. “Com um bom cão caças mais, com um gato caças menos, mas caças”, explicou Mou.

"Havia muita polémica, sobretudo na primeira temporada [de Mourinho], sobre quem deveria jogar: Higuaín ou Benzema", contextualiza ao Expresso Miguel Quintana, colaborador de vários meios espanhóis, entre eles a revista "Panenka". "O francês não marcava tantos golos, mas jogava bem e encaixava muito bem com Cristiano Ronaldo. Higuaín marcava muitos golos, mas não encaixava com Cristiano e não jogava tão bem. Essa história de Mourinho foi quando iam jogar na Europa." Mais tarde, em entrevista ao Canal Plus de França, o futebolista contou que na altura foi exigir respeito ao treinador. “A partir desse momento não houve mais gatos.”

Se o gato das botas que, desconfiado, calcava o Bernabéu desapareceu, apareceu no seu lugar uma lenda. São já 250 golos com aquela camisola branca que pesa mais do que qualquer outra. Já superou Puskas (242), e isto diz muito sobre a trajetória do francês. À frente dele estão apenas quatro homens. Ou super-homens: Cristiano (451), Raúl (323), Di Stéfano (308) e Santillana (290). A primeira vez que celebrou com a camisola dos seus sonhos foi a 20 de setembro de 2009, altura em que se magicava uma nova equipa de galáticos (Cristiano e Kaká também chegaram a Madrid nesse verão), com um golo ao Xerez. Esmiuçando a coisa: 170 golos na La Liga, 53 na Liga dos Campeões, 21 na Taça do Rei, três no Mundial de Clubes, dois na Supertaça de Espanha e outro na Supertaça Europeia. O francês ajudou a ganhar quatro das 13 Taças e Ligas dos Campeões Europeus.

Depois da lengalenga habitual dos números, a melhor parte: Benzema define-se por o que vive à volta dos golos, o jogo. E isso é porventura o maior elogio a um futebolista. “O que gosto é do jogo rápido, toques, movimento”, admitiu a Valdano, já a prepararem terreno para uma conversa sobre as mutações do jogador.

Christian Liewig - Corbis

Se antes no Lyon, e apesar de toda a liberdade e descontos de que beneficia um miúdo prodígio, lhe pediam golos, tal como o pai, no Real Madrid essa história seria ainda mais pesada. Mas os gatos que não são gatos também têm muitas vidas. Karim aguentou a pressão, a adaptação e a concorrência. E transformou-se. Porquê? Cristiano Ronaldo.

“Mudei muito o meu jogo [dos tempos] do Lyon com Cristiano. Estava lá ele para marcar os golos. Mudei o meu jogo para jogar com ele…”, aqui, um homem que parecia bem resolvido, fez uma pausa demasiado grande, e Valdano foi em seu resgate, dizendo a tal frase que está no arranque deste texto, quebrando o gelo. E voltaram ao tema: “No Lyon jogava de outra maneira, era jovem. Fazia golos, como agora, que estou livre no campo. Posso estar aqui e ali, gosto de tocar na bola. Depende. Com Cristiano mudei e joguei para ele.”

- E gostavas? Toda a gente diz que era conveniente para o Cristiano jogar contigo. Não sei se para ti era conveniente jogar com Cristiano, porque perdíamos parte de um goleador, no?
- Não é que seja conveniente, havia um rapaz que marcava o dobro ou o triplo dos golos. Então tens de te adaptar, só isso. Sou um jogador de futebol. Entonces, digo que não se passa nada, vou mudar o meu jogo, vou dar mais assistências, vou movimentar-me. No pasa nada. É o jogo de equipa. Deixo a minha alma de querer marcar golos e às vezes esquecer gente que está melhor posicionada. No pasa nada.

Afinal, quem era e quem é Karim? Quão drástica foi a mudança? “Mudou em tudo. Sabia perfeitamente o que exigia Cristiano Ronaldo, sabia que era o centro da equipa. E a partir daí foi adaptando-se, esquecendo a sua faceta goleadora e foi mais jogador de equipa, jogando de outra maneira”, explica ao Expresso José Félix Díaz, jornalista da “Marca”. “Durante muitos anos a convivência foi perfeita porque Karim soube adaptar o seu papel ao lado de Cristiano Ronaldo. E mudou agora, pois Cristiano já não está, por isso teve de assumir outro tipo de circunstâncias da equipa, como marcar golos, e também jogar bem, que é o que mais gosta. Está muito mais bem preparado fisicamente. Já deixou para trás algumas tonterías, coisas normais da juventude. É um jogador que está completamente integrado no Real Madrid. Não é o típico jogador que pede aumento de salário todos os anos. É um jogador que encontrou o seu lugar no Real Madrid. Muitas vezes foi criticado, mas no clube deram-lhe vida. Assim como o seu treinador, claro.”

Na charla com Valdano, Karim revela admiração pela serenidade de Zinedine Zidane, o treinador do Real Madrid, um ex-futebolista sublime. Quando as coisas correm mal, não se ouve um grito, não vem pressão, chega antes o futebol, a lanterna a indicar o caminho.

Miguel Quintana, que escreve na revista "Panenka", compara o trabalho do francês com o que faz Harry Kane com Son ou Firmino com Salah e Mané. "Karim Benzema é um futebolista com uma compreensão de jogo maíuscula, e durante muito tempo entendeu que a melhor maneira de ajudar a equipa era potenciar Cristiano, que era o finalizar do Real Madrid. Era o jogador que chutava. Qual era o trabalho de Benzema? Fazer a bola chegar lá à frente, arrastar a marcação, combinar com ele, encontrá-lo. Não deixa de ser algo parecido ao que faz Firmino com Mané e Salah, ou o que faz Kane com Son. Desde o princípio, no Lyon, Benzema mostrava que jogava muito bem futebol, que não era só um avançado. Quando saiu Cristiano Ronaldo, vimos um Benzema estrela, líder. Não era só um avançado. Joga muito bem fora da área, mas sabe que tem de rematar e que tem de estar na área. Antes a chave era Cristiano rematar, agora Benzema sabe que é ele que tem de rematar. Acredito que há muitas mudanças, mas os movimentos são parecidos, a diferença é onde está Benzema quando acaba a jogada. Antes tocava com Marcelo e ficava banda esquerda e Cristiano ficava na área. Agora tem de ir para lá também. Isso permitiu que Benzema seja um dos jogadores mais completos que existe."

João Almeida Rosa, comentador da Eleven Sports e cronista da Tribuna Expresso, vislumbra o mesmo cenário. “Não foi sempre o mesmo jogador mas foi sempre um grande jogador”, começa por dizer ao Expresso. “No Lyon, além das capacidades físicas que se vão alterando, a principal diferença a nível do posicionamento era jogar como avançado centro no corredor central, embora partisse muito da faixa esquerda. Era um jogador com bastante mobilidade, ainda é, mas essa mobilidade dava-se de dentro para fora e também de fora para dentro, algo que agora já não acontece tanto. Em França sempre se destacou por aquilo que vem confimando em Espanha: dotado tecnicamente, com alguma explosão para receber no espaço e não só no pé. A capacidade técnica permite-lhe marcar com muita regularidade.”

Manuel Blondeau

Almeida Rosa vê em Karim Benzema um jogador que “gosta de baixar para pedir a bola no pé”, com liberdade e sabedoria para navegar entre linhas. A mudança do camaleão que ainda haveria de ser acusado de ser um gato frouxo para a caça deu-se mesmo naquele verão galático de 2009, quando Florentino Pérez enchia ou enchia parcialmente o Santiago Bernabéu, ao lado de Alfredo di Stéfano, para apresentar as novas feras com magia nos pés e pensamentos gloriosos na cabeça.

“Quando chega ao Real Madrid, [Benzema] conhece então Cristiano Ronaldo, a figura principal da equipa”, continua o comentador e cronista. “Quando há um jogador com o estatuto e a qualidade na finalização de Cristiano, a atacar o espaço como Cristiano ataca, acaba por ser normal [a adaptação]. Vemos um pouco isso na seleção portuguesa. É normal que os colegas o procurem com mais frequência. Karim Benzema não foi exceção, ajustou-se muito às características e qualidade de Cristiano Ronaldo e muitas vezes era solicitado para fazer movimentos para abrir espaço para o português. Muitas vezes víamos Benzema baixar só com o intuito de arrastar a marcação. Foi uma parceria que teve sucesso, não só pelos golos de Cristiano Ronaldo como pelas exibições de Benzema.”

E acrescenta: “Não é acaso que se mantenha no Real Madrid tanto e tanto tempo. É a prova do seu sucesso, ainda que não tenha tido sempre a notoriedade alcançada na época passada, porque os golos trazem essa notoriedade. Mas foi sempre valorizado dentro do clube, acredito, e por alguns adeptos que conseguem perceber o que estamos a perceber com mais clareza: Benzema sempre foi um jogador capaz de marcar golos, mas enquanto lá estava Cristiano Ronaldo a equipa procurava mais o português e o próprio Benzema também se sacrificava um pouco, não atacando as zonas de finalização ou realizando movimentos com o intuito de abrir espaço para Cristiano Ronaldo. Agora, com a saída de Cristiano de Madrid, Benzema passou a ser o foco e o jogador que os jogadores mais procuram no último terço. Ele não deixou de ser um jogador que baixa para receber e tocar, distingue-se por isso: é um avançado que quando não marca dá muito ao jogo. Distingue-se por isso da maioria dos outros avançados. Apesar disso, tem muito golo. A época passada fez 27 golos, na outra 30. São números muito interessantes, ainda que não sejam os de Ronaldo e Messi. Tem a capacidade para jogar em espaços curtos por essa capacidade técnica, para se associar com os colegas ou mesmo para resolver de forma individual. Lembro-me de um lance com o Atlético Madrid, junto à linha lateral, sai de espaço curto com dois ou três adversários e dá golo. Foi evoluindo com o passar dos anos. Perdeu explosão e alguma velocidade, mas a verdade é que se sente confortável em espaços curtos, associa-se muito com os outros, nunca foi muito individualista. É um avançado que se distingue pela capacidade de jogar para além de marcar, mas que não se diga que não é um bom finalizador. Joga muito bem mas também marca muitos golos. É o que me faz gostar dele: não depende do golo para ter rendimento”.

Karim foi crescendo, tal como a mochila, mudando a mentalidade, ganhando o reconhecimento das pessoas. Valoriza o jogo como sempre, claro, mas quem sabe compreende a vida e os sacrifícios com outro olhos. Sente-se mais importante. Mas fora do campo também alterou rotinas, lá está o camaleão, melhorando a alimentação e cuidando do descanso. Isso tudo ajuda, diz, tal como os dois filhos e a calmaria. “Em vez de carregares no acelerador, carregas no travão”, atirou Valdano, entre risos. Karim concordou. A conversa foi descontraída, viu-se um lado diferente de Benzema, que normalmente parece alguém desconfiado e triste. Tresanda a alguém bem resolvido, compreendeu e aceitou que está entre os grandes da história de um super clube.

- Sentes o reconhecimento de todas as pessoas do futebol?
- Sim, sinto. E sinto-me muito feliz, porque agora entendem o que faço no campo e não só que “este é um 9, um avançado”… não, sou um avançado modelo. Moderno, pardon! Que faz os movimentos e dá assistências...
- Modelo também, modelo também. Estava bem dito.
- Isso não sei.

E trocaram mais uma gargalhada.