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Um 3-1-4-2-🤷‍♂️, mas resultou

Pep Guardiola trocou e voltou a baralhar o Manchester City, com Cancelo a interior direito, Bernardo Silva como um 8 e Phil Foden a extremo esquerdo, com a equipa a jogar num sistema e, de repente, noutro, para ganhar (1-0) ao Arsenal de Mikel Arteta que raramente conseguiu desmanchar a organização inventada pelo adversário

Diogo Pombo

Chloe Knott - Danehouse

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Pep Guardiola não é, propriamente, um tinker man, nem honroso e lisonjeador lhe seria a etiqueta tão inglesa, que os ingleses sarcasticamente concedem a um treinador que, de um jogo para outro, ou quando há jogos mais complicados, mexe na equipa e troca muitos jogadores, vira xadrezista atacado pela fúria, ataca o tabuleiro com as mãos e abalroa peças, casas e a organização esperada.

O catalão já teve jogos em que matutou, repensou e mais calvo ficou de tanto pensar, inventou mudanças fugidas ao padrão de como a equipa costuma jogar. Para azar dele, esses jogos dos que definem carreiras (com o Bayern, contra o Real, em 2014, ou a época passada, contra o Lyon, ambos na Liga dos Campeões), lá vai o sobrepensador, muitos disseram, e lá vem ele com um Manchester City a começar assim contra o Arsenal:

Nem a sapiente Google parecia saber o que raios estava a acontecer, até porque não era bem isto, pelo menos não a toda a hora. Os números com traços no meio e o sistema tático suposto, neste caso, era uma balbúrdia para adivinhar e nem com 10 minutos jogados dava para, com certezas, dizer que este jogava ali, o outro partida dali e aquele aproximava-se quando certa coisa acontecia. Mas, com o tempo, lá se entendeu que:

um lateral cheio de bonanças a atacar, porém desnorteado a defender (João Cancelo) era interior direito; um médio esguio e ziguezagueante, de bola colada ao pé (Phil Foden), estava a extremo; um extremo com costelas de 10 e toque de bola de algodão (Bernardo Silva) jogava a 8; e os três centrais sem bola viravam uma linha de quatro sem ela, porque um trinco (Rodri) baixava para central e um dos outros (Rúben Dias um deles, mas, neste caso, era Aké) encostava ao corredor esquerdo.

E com bola, que é como o City ou qualquer equipa de Guardiola, mais ou menos matutada, mais tenta encantar, a deliberação de peças resultava porque Mahrez, Agüero, Foden e Sterling acabaram todos, na área, a rematar à baliza, depois de os restantes e até eles próprios, provavelmente, não partirem da mesma posição que tinham assumido na jogada anterior. Parecia ser sempre assim.

O último marcou (24'), os quatro atacantes eram móveis, todos os restantes a moveram-se por sítios do campo inesperados e o Arsenal, à falta de uma habituação que só pareceu assimilar a uns sete, oito minutos do intervalo, encostou-se à sua baliza, tentou manter as linhas juntas e evitar que tanta gente ao mesmo tempo tocasse passes dentro do bloco onde, às vezes, os três centrais estavam todos presos a uma marcação.

Uma surpresa posicional não dura a vida de um jogo, é factual que os jogadores de adaptam e habituam, os do Arsenal, treinados por Mikel Arteta que nem há um ano era adjunto das ideias-mil de Guardiola, entenderam melhor o quem, o onde e o como que Guardiola baralhou e voltou a dar para este jogo, e os do City, mesmo que com mais bola, passes e território pisado, não criaram tantas jogadas com fim na área durante a segunda parte.

A bola encravou mais a meio do campo, os meios-campos já não trocavam tanto de posições, o do City mais estático foi ficando, com Bernardo Silva a gravitar em torno de Rodrigo, fechando como um outro 6, indo e vindo e tocando na bola como um 8 barómetro, e, no Arsenal, o espanhol Ceballos tentou, em correrias, bater linhas que só eram incomodadas quando Bukayo Saka, um miúdo, era capaz de sprintar com ela.

O sistema de Guardiola, googlado como um 3-1-4-2 inicial, tentou regressar à versão transfigurativa e de carrossel posicional nos últimos 20 minutos, sem os mesmos efeitos, Agüero já não estava, avançado genial e sem grande peso dominador na área, mas que dá paredes para tabelas em todo o lado e sem ele a equipa fazia mexer o Arsenal até esses últimos metros, onde empancava em si própria. Nunca foi aborrecido de se ver, mas o jogo acabou mais num relvado do que num campo com duas balizas para as quais era suposto rematar a bola.

As invenções pensadas e aplicadas pelo City tiveram efeitos durante muito tempo, Bernardo um pequeno motor a não perder bolas ao centro, Cancelo um desequilibrador com espaço e ajudante de Walker para não deixar que Aubameyang embalasse pela esquerda (embora, sendo interior, não tem a ginga do vem, toca, vai e volta a receber pelo meio do campo), Foden um extremo para aparecer na área a finalizar e Rodrigo um faz-tudo entre ser médio ou central na saída de bola.

Esta experiência correu bem a Pep Guardiola.