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Um leão faminto, um deus, enfim, o que ele quiser: Zlatan Ibrahimovic continua a ser Zlatan Ibrahimovic e o AC Milan volta a ser AC Milan

Uma semana depois de ter recuperado da covid-19, Zlatan Ibrahimovic colocou o AC Milan onde o clube já não andava desde 2012 - na liderança da Serie A. Aos 39 anos, é o melhor marcador do campeonato, com quatro golos em dois jogos, e dois deles este fim de semana, no dérbi de Milão, que a equipa já não vencia desde 2016. Velho, ele?

Mariana Cabral

Jonathan Moscrop

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Já lá vão quase 10 anos, mas, em 2010/11, o AC Milan ainda era o grande AC Milan de que nos recordamos. É certo que já não tinha a aura vencedora daquele Milan de 2006/07 que conquistou a Champions, com Nesta, Maldini, Gattuso, Pirlo, Kaká, Seedorf, Inzaghi e companhia, mas ainda restavam os (agora) veteranos Nesta, Zambrotta, Abbiati, Seedorf, Ambrosini, Pirlo e Cassano, e foi com eles que o AC Milan conquistou a Serie A pela última vez.

Com eles, e com um avançado sueco que marcou então 21 golos em 41 jogos, emprestado pelo Barcelona, e que se tornaria o melhor goleador da equipa. Na época seguinte, já contratado, até subiria os números: 35 golos em 44 jogos, o que faria dele o melhor marcador da Serie A, apesar de, desta vez, não ter conseguido celebrar o título.

Zlatan Ibrahimovic tinha 29 anos quando o AC Milan conquistou a Serie A pela última vez e Zlatan Ibrahimovic tem 39 anos enquanto volta a liderar o AC Milan novamente ao topo da Serie A, uma liderança isolada que já não se via desde 2012 e que conclui mais uma série de feitos que há muito não se viam naquele lado de Milão:

- desde 1996 que o AC Milan não acumulava 20 jogos consecutivos sem perder;

- desde 2016 que o AC Milan não vencia um dérbi com o Inter para a Serie A, como fez este fim de semana. E adivinhe quem marcou os dois golos deste dérbi?;

- desde 2010 que o AC Milan não vencia um dérbi com o Inter fora de casa, como fez este fim de semana. E adivinhe quem marcou o único golo desse dérbi de 14 de novembro de 2011?

Zlatan Ibrahimovic, pois claro.

Jonathan Moscrop

A última década do AC Milan não foi propriamente brilhante: depois daquele título em 2010/11, foi piorando consecutivamente as prestações internas, 2º, 3º, 8º, 10º, 7º, 6º, 6º, 5º e, já na época passada, 6º.

Ou seja, a equipa já não integra o pódio da Serie A desde 2012/13, baixando progressivamente as expectativas à sua volta e chegando a ficar fora das competições europeias. Mas, no final da época passada, quando Ibrahimovic regressou a Itália, perguntaram-lhe se achava que podiam ganhar o Scudetto novamente. A resposta foi tipicamente à Zlatan, recheada de confiança e isenta de ponderação: "Obviamente".

É claro que ainda é demasiado cedo para tirar conclusões sobre este AC Milan: um campeonato é uma prova que premeia os mais regulares e a Serie A ainda vai na 4ª jornada. Mas há muito tempo que não se vivia em Milão o que Zlatan mais dá: um ambiente de confiança e otimismo.

Antes do dérbi, mesmo sabendo que o Inter tinha vencido os últimos quatro confrontos entre os rivais na Serie A, Zlatan recorreu ao Instagram para se fazer notar como um leão com "fame", faminto por vitórias e por jogos, já que o sueco teve de permanecer isolado depois de ter testado positivo para covid-19.

Instagram

Ou seja, Ibrahimovic já não jogava desde 21 de setembro, dia em que bisou frente ao Bolonha (vitória por 2-0), mas, quando entrou em campo no Giuseppe Meazza, marcou os dois golos que deram a vitória ao AC Milan frente ao Inter, tornando-se até o mais velho de sempre a marcar num dérbi.

E, curiosamente, um desses golos surgiu por cortesia de uma assistência de um outro Leão, mais precisamente Rafael, o jovem internacional sub-21 português que tem feito parelha com o sueco e que já revelou que está sempre a receber "dicas" do veterano, porque tem "potencial para ser uma referência do Milan", citou ele.

Jonathan Moscrop

Com a chegada de outros jovens de valor a Milão, como Diogo Dalot, emprestado pelo Manchester United, e Brahim Diaz, emprestado pelo Real Madrid, para um plantel que conta com ainda mais juventude talentosa, como Gigi Donnarumma, Theo Hernández, Ismaël Bennacer e Alexis Saelemaekers, junta-se a fome com a vontade de comer.

À cabeceira da mesa, está o italiano Stefano Pioli, que cumpre a sua segunda época em Milão, depois de dois anos na Fiorentina, e que também busca o seu primeiro troféu enquanto treinador.

Para já, há pelo menos a liderança isolada da Serie A: quatro vitórias em quatro jornadas, com nove golos marcados e apenas um sofrido. Parece pouco, mas quando recorremos à história o caso muda de figura: é que o AC Milan foi sempre campeão italiano quando venceu as primeiras quatro jornadas da prova (em 1950/51, 1954/55, 1992/93 e 1995/96).

Ah, e convém ressalvar que, desses nove golos marcados, quatro foram da autoria de "um deus" (que até só alinhou em dois jogos...). Pelo menos a acreditar, novamente, na tal confiança contagiante de Zlatan. "Milão nunca teve um rei, mas tem um deus", escreveu nas redes sociais após a vitória sobre o rival.

Com Zlatan a ser o mesmo, apesar dos seus 39 anos, só falta mesmo o AC Milan voltar a ser o que era.

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