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Big Six: a insurreição dos super-ricos está em marcha na Premier League

Descobriu-se um (outro) alegado plano para formar, a partir de 2022, uma nova Superliga europeia, envolvendo os clubes mais ricos de cinco países e, portanto, o Liverpool, Manchester United, Arsenal, Chelsea, Manchester City e Tottenham; por outro lado, estes também planeiam uma nova Premier League e chamam-lhe Project Big Picture. São os chamados Big Six, os Seis Grandes de Inglaterra, e esta não foi a primeira vez, só este mês, que aparecem ligados a planos para mudar a organização geral das coisas no futebol. O que conta: quem é mais endinheirado fora do campo ou quem mais faz lá dentro?

Diogo Pombo

Visionhaus/Getty

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A Liga dos Campeões há muito que desonra o nome, não é só um direito de quem ganha, não é recompensa para quem ganhe caneco, isso são tempos idos; é, sim, fruto a ser colhido por quem termina lá em cima no seu campeonato nacional e por isso lá vai, cifrões a reluzirem nos olhos, para dentro de uma competição em que até se pode perder todos os jogos da fase de grupos, mas cerca de €15 milhões ninguém tira a cada clube.

É a liga do dinheiro, a liga dos milhões, em que zeros à direita ganharam maior peso que os zeros à esquerda no campo. O torneio quer celebrar o campeão dos campeões dos segundos, dos terceiros e até dos quartos lugares e, porque joga também com coisas como direitos televisivos, coeficientes da UEFA e fatias de mercado, o lado financeiro é muitas vezes o elemento mais celebrado.

Quando, na terça-feira, a “Sky Sports” deu conta de um suposto plano secreto em marcha para criar uma nova Superliga, sem que campeões ou classificações nacionais sejam chamados ao barulho, o que se leu na primeira linha do texto foi a ideia principal que o futebol parece cada vez mais querer rematar: “a nova prova é apoiada por um pacote financeiro de €5 mil milhões”.

Os cifrões nos olhos.

O complô descoberto pela televisão britânica dizia respeito apenas ao futebol inglês e a seis clubes em particular. O Liverpool e o Manchester United, à cabeça, deduz-se que por serem o atual campeão da Premier League e o clube mais rico do país - e por serem eles quem estão a negociar a criação da competição, seguidos do Arsenal, do Chelsea, do Manchester City e do Tottenham.

São os chamados Big Six em Inglaterra, assim conhecidos não necessariamente pelos títulos, troféus ou historial vencedor, mas por serem os clubes que mais faturam no país. Os mais ricos, segundo a mais recente Football Money League, ranking mundial atualizado pela Deloitte todos os anos e que tem, há vários, esta meia dúzia no top-20.

Os clubes mais ricos, sendo já ricos, têm mais riqueza para comprar os treinadores, jogadores e infraestruturas que pretendem. O resto é um exercício simples: quem tem mais dinheiro para comprar os melhores, provavelmente forma as melhores equipas e lógico será que os seus jogos suscitem maior interesse nos adeptos.

Andrew Powell/Getty

Com esta nova Superliga europeia, os ricos ficarão mais ricos, porque será uma competição só para os endinheirados de Inglaterra, Espanha, Alemanha, França e Itália até se completar um formato com 18 equipas que terá sido desenhado pela FIFA - é suposto que seja jogada durante o calendário normal da temporada, como se houvesse oxigénio em barda para ser respirado.

Porque todos esses países já têm, pelo menos, duas competições internas que se entrelaçam com a Liga dos Campeões e a Liga Europa, organizadas pela UEFA. Depois, há os amigáveis de seleções que ainda se fazem nos intervalos inexistentes, mas forçados, da chuva da Liga das Nações e da qualificação para o próximo Europeu ou Mundial, dependendo da volta ao sol que esteja em andamento.

“Há dois anos que jogo sem descanso. Ninguém ouve os jogadores. Às vezes fico preocupado”, desabafou, há tempos, Kevin de Bruyne, queixando-se da sobrelotação do calendário. Pouco depois, de Bruyne, do City, lesionou-se.

Nada que, pelos vistos, importune os Big Six. Estarão agora em conversas com a FIFA, alegadamente sem a UEFA ao barulho, para que se crie mais uma prova na agenda do futebol europeu que envolva mais dinheiro (com o alegado apoio da JP Morgan, gigante americana de gestão de fundos) para quem participar nela - por sinal, os clubes que geram, faturam e mexem com mais euros.

Uma Superliga para super clubes: a ideia é essa. E não foi a primeira vez, este mês, que Liverpool, Manchester United, Chelsea, Arsenal, Manchester City e Tottenham apareceram juntos e associados a ideias de mudar coisas.

Na semana passada, o “Daily Telegraph” revelou o conteúdo de uma versão editada, umas 17 ou 18 vezes, do “Project Big Picture” e o conteúdo do documento pode ser resumido assim: a Premier League deveria ser reduzida de 20 para 18 equipas; as duas últimas classificadas passariam a descer automaticamente e a 16.ª jogaria um play-off com o terceiro lugar do Championship, a segunda divisão; o fim da Taça da Liga Inglesa; e os pagamentos milionários aos clubes despromovidos, conhecidos como "paraquedas", acabariam, em detrimento de contribuições anuais da Premier League às divisões inferiores.

O rascunho desta eventual proposta, até aqui, poderia fazer sentido, tendo em conta as desigualdades cavadas no futebol inglês desde 1992, quando se criou a Premier League e o dinheiro foi respondendo ao encanto do seu chamamento, para mal das finanças dos 72 clubes nos três degraus abaixo e da English Football League (EFL), que os organiza.

A propósito, quem toma conta da entidade é Rick Parry, um dos supostos três redatores do “Project Big Picture”.

Oli Scarff - Pool/Getty Images

Os outros são John Henry e o Joel Glazer, ambos americanos, os dois com fortuna germinada fora do desporto. O primeiro manda no Manchester United, o segundo no Liverpool.

Os mesmos clubes que, alegadamente, privaram com a FIFA para congeminar a nova Superliga europeia, tiveram os donos a magicarem também um plano para a Premier League que eriçou críticas vindas um pouco de todo o lado. Não apenas pelas mudanças já descritas, mas por manigâncias propostas para os bastidores. Para onde se tomam decisões.

O documento defendia que os nove clubes com mais épocas feitas na Premier League tivessem poder de aprovação, ou veto, em certos assuntos, como os direitos televisivos ou o calendário, por exemplo. Desses clubes mais experientes, três são o Everton, o Southampton e o West Ham; os outros são os seis que nós sabemos, que, além de mais ricos, ficariam mais poderosos em lugares onde potencialmente se decidem temas relativos ao engordar ou emagrecer dos seus cofres.

Disse-se que os restantes 14 clubes da Premier League não gostaram, o oposto também se disse em relação aos 20 que competem no Championship e à maioria dos que habitam na League One e Two, onde os acordos para os pacotes conjuntos das receitas de direitos televisivos são negociados em outros planetas, mais terrenos e humildes: para o ciclo 2019-22, o acordo do campeonato prevê receitas a ronda os €9.5 mil milhões; o Championship ficou em cerca de €399 milhões.

MICHAEL REGAN/Getty

A posição favorável dos andares debaixo do futebol inglês também teria algo a ver com o "Project Big Picture" prever, também, a criação de um fundo, de €277 milhões, que ficaria disponível para a EFL resgatar clubes em dificuldades - e, sobretudo, a promessa de a entidade ficar com 25% das receitas televisivas geradas pela Premier League.

Dias depois de ser noticiado, contudo, os 20 clubes do principal campeonato inglês reuniram-se virtualmente, comprometeram-se a não apoiar o plano e a trabalharem em conjunto num programa de reforma.

Dinheiro e poder de voto decisivo em matérias sobre dinheiro. Foi isso que levou o plano a ser visto como uma tentativa gananciosa de dois dos Big Six para criarem mais condições para essa meia dúzia continuar a usufruir do berço em que se encontra. "Estamos desiludidos e surpresos que, numa altura de crise, em vez de as altas instância do futebol se unirem para ajudarem os clubes das divisões inferiores, parece haver acordos a serem cozinhados para criar uma loja fechada no topo do futebol", lamentou até, à "CNN", um porta-voz do Departamento de Desporto do governo britânico.

Os tais dois clubes cujos donos se chegaram à frente e também estariam a negociar, com a FIFA, a criação da tal nova competição europeia - mas sem o aval de quem ordena o futebol europeu -, fizeram-no para os mais ricos jogarem entre si e partilharem mais riqueza entre eles.

Seriam esses seis clubes ingleses mais ricos a terem a sua palavra com maior peso em matérias de dinheiro segundo o "Project Big Picture" que, vendo as coisas a partir da base da pirâmide, até faria sentido. Seria "um novo começo para revigorar os clubes nas divisões inferiores e as comunidades onde estão baseados", argumentou Rick Parry, único dirigente que defendeu publicamente o plano.

Mas, tanto na base como no topo, a questão é o dinheiro e, lá em cima, Manchester United, Liverpool, Arsenal, Manchester City, Chelsea e Tottenham, além de serem quem mais o tem, iriam ser quem mais manda.