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Marcus Rashford: muito antes do futebolista, há uma pessoa decente

Ganha milhares de euros à semana, tem 22 anos e vive de uma profissão na qual é costume ouvir-se que ele e todos os outros não a devem misturar com outras coisas. Marcus Rashford, porém, continuou a fazê-lo. Depois de o pressionar o governo britânico a adiar o fim de um programa de vouchers alimentares para cerca de 1.3 milhões de crianças de famílias mais desfavorecidas e de ser condecorado pela Rainha de Inglaterra, voltou à carga esta sexta-feira, após o parlamento britânico chumbar uma proposta para prolongar o pacote de ajudas até à Páscoa do próximo ano

Diogo Pombo

FRANCK FIFE/Getty

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O desporto não se deve misturar com política. Limitem-se a jogar. O futebol é uma coisa, é a vossa profissão, não é suposto envolverem-se com coisas exteriores. São lugares-comuns audíveis, ainda hoje e a toda a hora, como se o desporto fosse praticado fora desse lugar comum a todos nós que é a sociedade em que vivemos e sem a qual não haveria futebol, nem basquetebol, nem automobilismo, nem surf, nem qualquer outra modalidade acrescentável aqui.

Marcus Rashford é um futebolista profissional, recebe mais de uma centena de milhar de euros à semana. Manter-se em forma, correr atrás de uma bola, pontapeá-la e render em campo pelo Manchester United que lhe paga o chorudo ordenado e os adeptos que torcem pelo clube é a sua profissão. E muita gente diria que essa é a sua principal função neste planeta porque assim se estabeleceu - um desportista é para ter um papel no desporto.

Há meses, porém, que Marcus Rashford não é apenas isso, mas aproveita-se de ser isso para lutar por ideais que considera corretos e que ecoam em muita gente: haver programas de ajuda alimentar nas escolas, financiados pelo governo britânico, para as crianças de famílias mais carenciadas.

Já o fizera em junho e conseguira que o executivo recuasse na intenção de acabar, logo nessa altura, com um programa de vouchers escolares, criado devido à crise do coronavírus, para providenciar refeições escolares a cerca de 1.3 milhões de crianças de famílias com baixos rendimentos. Cada criança receberia 15 libras (€16,5) por semana em vales-refeição durante as férias de verão, o que implicaria um investimento de 126 mil libras (€139 mil) ao governo.

Publicou uma carta, endereçou-a aos deputados britânicos, fez bom barulho no Twitter em que tem mais de 3.6 milhões de seguidores e prolongou a vida dessa ajuda do governo. A Rainha de Inglaterra condecorou-o, já este mês, como Membro da Ordem do Império Britânico (MBE, na sigla inglesa), honra a que o jogador colou uma promessa: “a luta para acabar com a pobreza infantil está longe de terminar”.

Marcus Rashford tem 22 anos, é o mais novo de cinco filhos e cresceu em Wythenshawe, nos arredores de Manchester, numa casa onde a mãe regressava tarde, às horas que o labor retribuído com o salário mínimo lhe impunha, para ter dinheiro trocável por comida. “Quando não havia na mesa, tinha amigos que entendiam a minha situação e, às vezes, era possível ir a casa deles”, contou o jogador, à “BBC”.

O jeito, o trabalho e a sorte que acompanhou Rashford no futebol permitiu-lhe hoje viver a vida de outra forma, não esquecendo a vivência que começou por ter - nem se limitando a vivê-la apenas enquanto futebolista.

Na quarta-feira, depois de 322 deputados votarem contra o prolongamento do programa de ajuda alimentar em todas as férias escolares até à Páscoa de 2021 - a proposta foi redigida e apresentada pelo Partido Trabalhista -, Rashford apelou a que se ponha de parte "o barulho, as políticas partidárias (...), a estigmatização e os dedos apontados", porque "isto não é política, é a realidade". O jogador do Manchester United propôs ao primeiro-ministro, Boris Johnson, uma reunião com o grupo de trabalho que criou (o Child Food Poverty Taskforce, em parceria com várias marcas, como a Aldi, Tesco, Deliveroo ou Kellogg’s) para combater a pobreza alimentar em crianças.

Disse não ter "a educação de um político", mas tem "a educação social de ter vivido" este problema e não concebe ficar inativo quando "um número significativo de crianças vão para a cama não apenas com fome, como também sentindo que não têm importância". E Marcus Rashford teve um efeito e fez questão de o propagar.

O futebolista começou a ser contactado por restaurantes, cafés, instituições e empresas um pouco de toda a Inglaterra, que se prestaram a providenciar refeições para as crianças mais desfavorecidas após o parlamento britânico não aprovar o pacote de ajuda alimentar. Rashford, aos poucos, foi publicando quais esses pontos de ajuda e onde se encontram, partilhando-os no Twitter e criando quase uma rede de postos de solidariedade.

Fê-lo durante todo o dia de quinta-feira, até começar a madrugada, e madrugou esta sexta-feira para retomar as partilhas logo de manhã.

Tudo o que Marcus Rashford tem feito e conseguido sem que tenhamos de referir o que joga num campo de futebol se deve ao usufruto que faz do facto de ser um futebolista profissional. De ter o mediatismo, os seguidores e o peso na voz que tem por ser jogador do Manchester United e da seleção de Inglaterra. O desporto e a política - ou a economia, a solidariedade, a cultura ou o que seja - só não se misturam se o lugar-comum que não é regra for encarado como tal.

Rashford não o faz: "Enquanto estas crianças não tiverem uma voz, terão a minha. Têm a minha palavra".