Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

#Pelé80. Biografia selecionada do homem que é Edson e é Pelé e anda há uma vida a tentar separar um do outro

O grande Pelé faz esta sexta-feira 80 anos e esta é uma coleção de histórias conhecidas e outras nem tanto assim sobre um dos maiores mitos vivos da contemporaneidade. Aqui dentro cabem Garrincha, Eusébio, Maradona, Beckenbauer ou Romário que, algures na vida deles, se cruzaram com o Rei Pelé. Longa vida. Se notar um certo perfume a português do Brasil, é propositado: o autor é um jornalista brasileiro que assim descreveu Pelé

Evandro Furoni, em São Paulo

Aura

Partilhar

Pelé, Bilé e o guarda-redes que virou maior de todos

Talvez o motivo de Pelé ter tido tanta facilidade para marcar golos é por conhecer bem seus adversários. O maior inimigo dos guarda-redes teve as suas primeiras experiências no relvado exatamente sob os postes. Mais, Pelé virou Pelé em homenagem a um guarda-redes, e não gostou muito do nome nas primeiras vezes em que foi chamado por ele..

Edson Arantes do Nascimento, conhecido como Dico durante a sua infância na pequena cidade de Três Corações, vestia uma simbólica camisola número 1 nas brincadeiras com os amigos. O homem que um dia tornou-se aquele que mais balançou as redes na história do futebol nutria uma verdadeira paixão pela posição, tanto que um de seus primeiros ídolos foi um guarda-redes. Os amigos contam que o jovem Dico gritava o nome “Bilé”, guarda-redes o pequeno Vasco de São Lourenço.

Porquê a idolatria tão incomum? O futebol corre no sangue da família. Dondinho, pai do Rei, era futebolista da pequena equipa, que contava também com o curioso Bilé. Os amigos da cidade não conheciam este homem de uma desconhecida equipa do Estado de Minas Gerais, então os gritos de Bilé aos poucos foram interpretados como Pelé.

Edson não gostou, então os amigos insistiam em chamá-lo pelo nome que seria maior do que Edson nos anos seguintes.

“Eu não queria esse nome. Pelé soa infantil em português. Edson é mais como Thomas Edison, o homem que inventou a lâmpada”, disse Pelé em entrevista para o jornal alemão “Bild” em 2006.

Com o tempo, Dico aprendeu a abraçar o nome Pelé, mas a paixão pela posição de guarda-redes nunca desapareceu. O Rei era o suplente extraoficial do Santos para proteger os postes. Numa era que eram proibidas alterações durante a partida, era Pelé quem assumia a camisola número 1 em caso de lesão do titular.

Hulton Archive

A curiosa mudança tática ocorreu quatro vezes na carreira de Pelé. A mais famosa em 1969. O Rei estava próximo do seu milésimo golo quando o Santos foi jogar na cidade de João Pessoa. Pelé marcou um, o que deixo-o com 999 golos.

O Santos notou que a equipa rival, o Botafogo-PB, estava a facilitar o jogo para que a capital do Estado da Paraíba, então com pouca expressão no futebol brasileiro, ganhasse fama. O guarda-redes Jairzão então alegou uma lesão, obrigando Pelé a substituí-lo. O golo mil então ocorreu duas partidas depois, contra o Vasco, no templo sagrado do Maracanã.

Os portugueses que conheceram Pelé antes de ser rei

Waldemar de Brito foi um grande futebolista. Jogou em algumas das maiores equipas brasileiras e na seleção nacional, mas o seu feito mais conhecido é o de se ter em 1953, quando já era treinador, encantado com um miúdo que jogava nas divisões de base da equipa do Bauru.

Waldemar foi o primeiro mentor de Pelé, que rapidamente chamou a atenção do Brasil pelo seu talento extraordinário. Em 1956, Waldemar usou seus contactos no mundo do futebol para então miúdo de 15 anos se tornar profissional. Uma proposta do Bangu, tradicional equipa do futebol carioca era sedutora, mas a mãe de Pelé temia que o filho caísse nas inúmeras tentações da então capital brasileira.

Foi decidido então levá-lo para Santos, cidade litoral, próxima de São Paulo. A história da cidade, da equipa e de Pelé nunca mais iriam separar.

O Santos Futebol Clube já era uma das mais fortes equipas do Brasil em 1956. Pelé chegou em uma equipa bicampeã do Campeonato Paulista, numa época em que o torneio regional era um dos mais importantes do país devido a falta de um campeonato nacional. A equipa já tinha em seu balneário atletas que viraram lendas com a camisola alvinegra, como Zito e Pepe.

Isso não assustou Pelé. Logo no seu primeiro dia de treinamento surpreendeu colegas de equipa e os jornalistas presentes, como mostra o artigo do jornal “A Tribuna”.

“Nos 40 minutos de atividades dos profissionais, destacou-se sobremaneira, o meia-direita que formou na equipe de suplentes, com um trabalho sóbrio, porém de boas qualidades técnicas, impressionando a direção técnica do campeão paulista de 1955.

Após o coletivo, a reportagem se movimentou e apurou tratar-se do "jovem Edson Arantes do Nascimento, com 15 anos de idade. [...]. O diretor do Departamento Profissional do Santos iniciou entendimentos com seu progenitor e ainda com o famoso jogador do passado, Valdemar de Brito, que é o orientador intelectual da grande promessa futebolística, presente nossa reportagem. Tudo assentado, Edson Arantes do Nascimento (conhecido por Pelé), foi contratado pelo campeão paulista de 1955.”

O Santos não queria perder o talento que tinha em mãos. Menos de um mês depois do primeiro dia de treinamento, o miúdo estreava com a camisola santista, com golo. Pelé participou de 30 jogos, com 18 golos, antes de assinar o seu primeiro contrato profissional, em 1957.

Foi neste momento que Portugal encontrou Pelé pela primeira vez. Em 1957, o Santos cedeu alguns atletas para o Vasco jogar um torneio amigável, entre eles Pelé. Uma das primeiras equipas internacionais a ser vítima do Rei foi o Belenenses. O terceiro colocado da Liga Portuguesa daquele ano viu o Vasco vencê-lo por 6 a 1. Pelé marcou três golos.

Pelo resto da vida, Pelé contou que aqueles jogos pelo Vasco que projetaram-o para o Brasil. O ano de 1957, o primeiro como profissional, é de uma ascenção meteórica. Ele termina o ano campeão paulista e maior goleador do campeonato. As boas atuações fazem ele ser aos 16 anos titular da Seleção Brasileira. Uma que está na história.

O Mundial de Pelé e a coroação do rei

O Mundial de 1958 tornou imortais diversos futebolistas brasileiros: Garrincha, Didi, Nilton Santos. Ari Clemente, lateral-esquerdo do Corinthians, também quase entrou na história mesmo sem nunca ter ido para o país escandinavo.

STF

Pelé já era titular absoluto da equipa “canarinho”, mas uma entrada dura do defensor durante um amigável tirou o miúdo de 17 anos do relvado com uma lesão no joelho direito. Com apenas alguns dias até o embarque para a Europa e com a certeza que o avançado não jogará as primeiras jornadas do Mundial, o técnico Vicente Feola pensou em tirar Pelé da viagem e dar lugar para Almir Pernambuquinho, atleta do Vasco da Gama conhecido pelos grandes golos e grandes brigas.

O camisola número 10 só foi para a Suécia por pedido de Didi, Nilton Santos, os líderes da equipa, e Pepe, eterno companheiro do Rei no Santos. Pelé era jovem, capaz de mostrar boa forma física rapidamente e seu talento era impossível de subestimar.

Foi o que ocorreu. Pelé estreou em mundiais diante da União Soviética. Após um empate contra a Inglaterra, Feola decidiu colocar Pelé, Garrincha e Vavá para jogar, e fazer história. O primeiro golo de Pelé em mundiais foi no jogo seguinte, contra o País de Gales nos quartos de final, que deu a vitória para a equipa “canarinho”.

Nas meias-finais, superou a lenda francesa Just Fontaine. Fontaine, maior goleador de uma única edição de Mundial, marcou uma vez na derrota francesa por 5-2. Pelé fez três golos naquele dia.

Na final contra a Suécia, Pelé marca um dos golos mais bonitos da história. O avançado recebe uma bola erguida com o peito. O central adversário tenta tomá-la antes que Pelé tenha o controlo com os pés, mas o camisola 10 dá um leve toque para passá-la por cima do marcador. Sem deixá-la cair no chão, chuta-a para as redes.

Pelé ainda marcou mais um golo na vitória brasileira por 5 a 2. Ele aproveitou um cruzamento da esquerda e encobriu o guarda-redes de cabeça. O árbitro encerrou o jogo ali. A história estava feita, tanto para o Brasil quanto para Pelé. O miúdo de 17 anos caiu no relvado após o último golo, precisou ser erguido pelo companheiros, pois não conseguia levantar de tanta emoção.

Foi neste momento que Pelé foi “coroado” rei, diz a história, mas talvez já tenha viajado para a Suécia com sangue real. A história original é que o jornal francês “L´Équipe”, encantado com as atuações do camisola 10, usou em sua capa uma foto de Pelé a ser cumprimentado pelo Rei Gustavo VI da Suécia com a manchete “O Rei do Futebol”.

É possível que o nome se tenha popularizado antes, pelo menos no Brasil. Nelson Rodrigues, um dos grandes escritores brasileiros do século XX e apaixonado por futebol, escreveu pela primeira vez sobre Pelé em março de 1958, meses antes do Mundial.

Verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racionalmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: — Ponham-no em qualquer rancho e sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em redor.

O que nós chamamos de realeza é, acima de todo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias”.

A maior equipa brasileira da história, o golo mil e o duelo de reis com o Pantera

Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. A tirar Pelé, e possível que não conheça nenhum dos outros futebolistas, mas este é considerado o melhor ataque da história do futebol brasileiro. O Santos da década de 60 é a equipa mais vencedora da história do futebol brasileiro, e a que fez Pelé unanimidade internacional.

A equipa do Santos era conhecida pelos toques rápidos, muitos golos feitos e muitos sofridos. Não era incomum um jogo da equipa alvinegra terminar 5 a 2 ou 6 a 3. Dos dez maiores goleadores da história do Santos, oito jogaram pelo menos parte de sua trajetória na histórica equipa da década de 60.o.

Jared Wickerham

Curiosamente, era na defesa em que estavam os internacionais mais conhecidos daquela equipa, além de, obviamente, Pelé. Gylmar foi o guarda-redes nos títulos mundiais de 1958 e 1962, acompanhado pelo médio defensivo Zito. O central Mauro Ramos de Oliveira foi o responsável por erguer a Taça Jules Rimet em 1962. Com o passar do tempo, os nomes mudaram, mas foram sucedidos por outras lendas, como Clodoaldo e Carlos Alberto Torres, campeões mundiais em 1970.

A equipa colecionava títulos assim como golos. Foram 23 títulos na década, com os mais importantes a serem cinco da Taça Brasil, um Roberto Gomes Pedrosa (ambas as competições foram reconhecidas como campeonatos nacionais no Brasil em 2010), duas Taças Libertadores da América e duas Taças Intercontinentais. Foi neste último em que ocorreu o que é considerada uma das melhores atuações daquela equipa, e foi contra o lendário Benfica de Eusébio.

Benfica e Santos eram as melhores equipas do mundo em 1962. Como campeões da Liga dos Campeões e da Libertadores, encontraram-se para dois jogos históricos. No Maracanã, os Encarnados fizeram grande partida, com dois golos de Joaquim Santana, mas acabaram derrotados por 3 a 2.

Havia ainda a decisão na Luz. Para a dor de 70 mil benfiquistas, este foi um dos maiores jogos daquele Santos e de Pelé. O Rei marcou três golos e deu uma assistência. No final, 5 a 2 para o Santos.

Em 2012, Eusébio relembrou a atuação do camisola 10 na Luz para a rádio brasileira “Paiquerê”:

“Em Portugal, tivemos um dia para esquecer e perdemos por cinco. Foi a primeira vez que vi o Pelé a jogar a bola. Aliás, eu disse a ele: se jogasse os dois jogos normal como estava a jogar, nunca ganhava do Benfica naquela noite. Foi sem dúvida um grande jogador ali”, disse o ”Pantera”.

O golo mil

Com tantos títulos e golos, foi uma questão de tempo até Pelé ficar próximo da marca dos mil. Ele veio em 11969, mas não de forma fácil. Para alguém tão acostumado balançar as redes, Pelé teve dificuldades para marcar após o golo 999. Primeiro foi obrigado a jogar como guarda-redes (ou preferiu ir, como contamos). No jogo seguinte, na Bahia, viu o central adversário salvar o golo em cima da linha, e por isso levar uma grande vaia dos próprios adeptos.

O palco então foi o Maracanã. O árbitro assinalou penálti aos 78 minutos de jogo durante a partida contra o Vasco da Gama, para delírio dos dos adeptos, inclusive da equipa do Rio de Janeiro, Pelé foi cobrar.

Apesar de ser o principal jogador do Santos, o camisola 10 nunca gostou de bater penáltis, Pepe era o jogador designado para a função. Pelé admitiu que sentiu medo antes de fazer história.

“Não é fácil. Quando coloquei a bola na marca, o Maracanã inteiro começar a gritar ‘Pelé, Pelé’. Eu só pensei: ‘meu Deus! Se eu perder esse golo. Eu tremi a perna”, contou Pelé durante um evento em 2016.

Ele não perdeu. O jogo foi interrompido por causa da invasão dos repórteres que queriam registar as primeiras palavras após o golo mil. Pelé não tinha discurso preparado, então, espontaneamente, pediu apenas para que fosse dada maior atenção aos miúdos brasileiros. “Pensem no Natal, pensem nas criancinhas”.

No Livro “Pelé, Minha vida em Imagens”, o Rei conta que a ideia de dedicar o golo às crianças brasileiras surgiu pela lembrança de ter testemunhado um grupo de miúdos a roubar um carro enquanto saía de um treinamento do Santos semanas antes.

A dor nos mundiais que levaram ao sonho de 70

Se pensarmos no sucesso do Santos e da seleção brasileira na década de 60, é fácil imaginar que também é o período das maiores glórias de Pelé com a camisola amarela. Não foi.

Os mundiais do Chile e Inglaterra foram marcados por lesões e uma das piores participações brasileiras no torneio, mas motivou Pelé a participar do Mundial de 70, com uma das equipas mais celebradas da história.

Alessandro Sabattini

Apesar de o Brasil ter-se sagrado bicampeão mundial em 1962 e Pelé ter oficialmente participado da conquista, ele pouco pode fazer no Chile. Pelé era titular absoluto e candidato a melhor jogador da competição, mas uma lesão na virilha ainda na terceira jornada tirou-o do resto do torneio. Coube a Garrincha mais uma vez brilhar e ser o herói brasileiro.

Em 1966, o Brasil era bicampeão, Pelé estava no auge e tudo indicava que o Rei do Futebol como o futebolista a brilhar em Wembley sob os olhares da rainha Isabel II. A violência rival, uma nova lesão e a falta de organização brasileira antes do mundial impediram isso.

Os problemas começaram antes mesmo da viagem para a Inglaterra. O Brasil chegou a ter 49 atletas a treinar, sendo que apenas 22 foram para o Mundial. No relvado, Pelé machucou-se ainda no primeiro jogo, diante da Bulgária, voltou apenas na terceira jornada, diante de Portugal. Eusébio, com dois golos, e António Simões, fizeram com que o Brasil não avançasse de fase e tivesse a sua segunda pior participação na história de um Mundial. Pelé, e os brasileiros, nunca perdoaram uma suposta violência dos Búlgaros e portugueses. Pelé chegou a dizer que nunca mais disputará um Mundial, dada a violência sofrida. Ao analisar o jogo contra Portugal, as acusações não sustentam-se. Foram 12 faltas de portuguesa contra 21 do Brasil.

Os relatos da época citam um golpe violento de Morais, mas apenas esta. Pelé revidou no fim do jogo , o que iniciou uma pequena briga no relvado.

O facto é que não foi a violência rival que eliminou o Brasil, mas sim a falta de organização de uma equipa que sofreu para aliar jogadores campeões mundiais, mas longe do auge, como Garrincha, com outros novos demais, como Tostão e Jairzinho. Diante deles, estava Portugal com Eusébio em sua melhor forma, naquela que é a melhor equipa portuguesa na história dos mundiais. Apesar da ameaça de retirar-se, a frustração com o desempenho na Inglaterra é o que motivou-o a jogar em 1970.

“Foi uma deceção, uma coisa triste. Tinha sido campeão em 58 e em 62. Em 66, seria a minha despedida. Eu ia me despedir. Aliás, ganhamos em 70 porque eu queria ter me despedido como campeão (em 1966) e não deu, porque me machuquei”, disse Pelé, em entrevista para o canal brasileiro “Sportv” em 2018.

Sorte do futebol. No México, os miúdos de 1966 eram líderes de suas respetivas equipas. Carlos Alberto Torres, Gérson, Rivelino, Jairzinho, junto com Pelé, lideraram aquela que para muitos é a melhor equipa da história dos mundiais. Se a camisola 10 é sinónimo de grande jogador, a “canarinho” de 1970 é exemplo que há espaço para muitos. Cinco titulares vestiam a famosa camisola em suas equipas no Brasil. A 10, obviamente, ficou com Pelé.

Naquele que foi o primeiro Mundial transmitido à cores, e em direto pela primeira vez em muitos lugares do mundo, o imaginário de gerações foi preenchido pelo futebol técnico e de toques calmos da camisola amarela brasileira. Foram seis vitórias, 19 golos marcados e sete sofridos. A Taça Jules Rimet foi erguida pela terceira vez pelo Brasil, desta vez em definitivo.

Curiosamente, Pelé é lembrado por jogadas espetaculares, mas golos perdidos. Contra a Checoslováquia, quase surpreende o guarda-redes com um chute do seu próprio campo de defesa. Nas meias-finais diante do Uruguai, faz um dos lances mais famosos de sua carreira. Pelé recebe passe em diagonal de Tostão, e corre para a esquerda, mas deixa a bola passar pela direita, um drible no guarda-redes sem tocar na bola. Com os postes vazios, Pelé chuta cruzado, para fora.

Ele marca o primeiro na vitória por 4-1 na final contra a Itália, mas seu lance mais famoso é o último golo. A bola passa por quase todos os brasileiros desde a defesa sem nenhum italiano tomá-la. Pelé a recebe próximo da área, mas ao invés do chute, toca para Carlos Alberto Torres marcar o golo do título. A jogada que tornou-se símbolo do jogo coletivo daquela equipa.

Depois do mundo, o Cosmos

Com o Mundial em mãos, Pelé foi rápido na decisão de que não estará na Alemanha quatro anos depois. Já em 1971 retirou-se da seleção brasileira, em uma amigável diante da Jugoslávia. Jogou ainda mais três anos com a camisola do Santos. Em 2 de outubro de 1974, fez a última partida oficial no Brasil, aos 33 anos.

É possível dizer que foi apenas uma férias. Oito meses depois, Pelé tirava fotos com a camisola do New York Cosmos. O futebol estava a começar a ter a sua primeira liga profissional nos EUA, e o plano era atrair as maiores estrelas do mundo para que as finais do soccer atraíssem tanta atenção quanto os espetáculos do “Super Bowl”, do futebol jogado com a bola oval.

Focus On Sport

Pelé publicamente disse que a ideia de popularizar o desporto mais famoso do mundo também nos EUA é o que motivou-o a vestir novamente as chuteiras, mas é difícil também descartar o lado financeiro. No final da década de 60 descobriu que a maior parte do dinheiro recebido do Santos e de contratos de publicidade desapareceu devido a ação de seu empresário e estava basicamente falido. Os U$ 2,8 milhões por ano durante três épocas foram sedutores.

Independente do motivo, Pelé ajudou, pelo menos por um breve período de tempo, a fazer o americano gostar desse estanho desporto com apenas um ou dois pontos por jogo. Em 15 de junho de 1975, cinco dias depois de desembarcar nos EUA, ele fez sua primeira partida nos EUA, um amigável contra o Dallas Tornado que terminou empatado 2-2. Pelé fez um golo e deu passe para outro. Se o objetivo era esquentar o coração americano para o futebol, o primeiro jogo mostrou que a aposta podia dar certo.

“A atmosfera sobrecarregada lembrou as digressões americanas dos Beatles e do Papa - especialmente do último. Pelé não é uma figura imponente, com menos de 1,76 m, com cabelo bem cortado e olhos arregalados, quase infantis. Mesmo assim, conseguiu manter-se sereno diante do tumulto causado e tinha um senso de propósito quase messiânico. Como disse repetidamente: ‘vim ao seu país pois sei que sou o único que pode ajudar o futebol daqui. Espalhem a notícia de que o futebol finalmente chegou aos EUA’”, escreveu a revista “Sports Illustrated” sobre aquele dia em Nova York.

Pelé foi importante, mas não o único imortal a criar uma estranha geração de adeptos americanos naquele fim de década de 70. O Cosmos, com o dinheiro do conglomerado Warner, trouxe também nomes como Carlos Alberto Torres e o “Kaiser” alemão Franz Beckenbauer para a equipa. Mas não foi apenas o clube da “Grande Maçã” a contratar grandes nomes. Eusébio também aventurou-se na terra do “Tio Sam”.

Os rivais, e amigos, tiveram nos EUA o duelo mais bizarro de suas carreiras. Em junho de 1975, o Cosmos jogou contra o Boston Minutemen, de Eusébio. O estádio da Universidade de Boston tinha apenas 14 mil lugares, mas recebeu 20 mil adeptos naquele dia.

Eusébio marcou primeiro, em um golo de direto. Pelé igualou o placar logo depois, mas o golo foi anulado. Os adeptos não ligaram e invadiram o relvado para saldar o brasileiro. A partida foi interrompida e Pelé substituído por machucar o joelho e tornozelo direito com o ataque da multidão. O jogo terminou empatado. Pela regra na liga americana, era decidido um ponto extra com penalidades, vencida pela equipa de Eusébio. Após protestos do Cosmos, o jogo foi anulado e remarcado. na nova partida, vitória dos Minutemen por 5-0.

Eusébio jogou apenas 11 partidas em Boston, com 11 golos. O Pantera chegou a voltar ao EUA, mas já em outra época do futebol local. Já o Cosmos de Pelé, apesar de grandes nomes, conquistou apenas uma vez a liga com o camisola 10, em 1977. Pelé fez seu último jogo naquele ano, um amigável entre Cosmos e Santos. Ele jogou um tempo em cada equipa.

Apesar da promessa de Pelé, o futebol não conquistou os EUA com o Cosmos. A NASL (Sigla em inglês para Liga Norte-Americana de Futebol) ainda contou com outras lendas nos anos seguintes, com Johan Cruijff, mas perdeu popularidade na década seguinte, tendo o seu fim em 1984. O futebol só voltou aos EUA em 1996, com a atual MLS.

Entra Edson, gestor da marca Pelé

Pelé nunca foi um estranho para o marketing. Já quando jogador tinha a maior parte do seu rendimento não como futebolista mas sim por emprestar o seu nome para múltiplas marcas, mas após retirar-se, dedicou-se completamente à publicidade. O sucesso com o Cosmos transformou-o em estrela nos EUA. Em 1982, ao lado de Sylvester Stallone e Michael Caine estrelou no filme ‘Fuga para a Vitória”, do realizador John Huston (outros futebolistas, como Bobby Moore e Osvaldo Ardiles também atuaram no filme).

Uma correção: Edson é que faz tudo isso. Pelé é uma marca, Edson Arantes do Nascimento é quem a gerencia. Ouvir Edson citar “o Pelé” é comum, prática para manter incólume o futebolista que encantou multidões das palavras ditas fora do relvado.

Christopher Furlong

Pelé nunca quis ser treinador. “Não sou louco”, disse uma vez. Talvez seja uma decisão sábia. Entrou para o folclore brasileiro as previsões erradas do rei em mundiais. Em 1994, disse que a Colômbia seria campeã, não passou da primeira fase. Em 2002, disse que o Brasil não avançará para os oitavos de final, foi campeão. Quando sugeriu que o avançado brasileiro Romário deverá retirar-se em 2005 (Romário estava a buscar a marca de mil golos, a contar jogos não-oficiais), recebeu como resposta: “Pelé calado é um poeta”.

Também se envolveu na política, campo onde foi contraditório por toda a vida. Disse que retirou-se da seleção pois estava satisfeito com o título de 70 e infeliz com a violenta ditadura militar brasileira a usar sua imagem para popularizar o regime. Na mesma década, defendeu que o “brasileiro não sabe votar”. Em 2013, grandes protestos dominaram o Brasil, em parte por causa dos grandes gastos com estádios para o Mundial de 2014. Pelé pediu publicamente para que não houvessem protestos contra o a competição e o futebol.

A atuação política mais forte foi durante a década de 90, em defesa a melhores condições para os futebolistas brasileiros. Em entrevista para a revista “Playboy”, criticou a corrupção no futebol brasileiro e a situação dos futebolistas nacionais, presos aos clubes mesmo após o fim do contrato de trabalho. Foi ministro do Desporto entre 1995 e 1998, quando foi redigida a nova lei de transferência para os futebolistas, a “Lei Pelé”. Ele criticou o facto que o texto final retirou diversas medidas da lei original, e chegou a pedir que retirassem seu nome dela.

Todas as contradições são parte de um Edson que responde perguntas com o mesmo improviso e espontaneidade que Pelé com a bola, mas sem o mesmo talento. É o homem que passou décadas a trocar provocações públicas com Diego Maradona por este ser considerado por alguns o melhor jogador da história, mas apareceu em 2005 a trocar passes com o rival, que entrevistou-o em seu programa de televisão.

A espontaneidade e desejo de agradar é que fazem Pelé ser o homem ideal para a publicidade. Já aceitou fazer comerciais de sandes, refrigerantes e até do medicamento Viagra, e recebe hoje milhões a mais do que quando futebolista. Nas inúmeras homenagens que recebeu, mostrou reverência ao futebol e a próprio mito. Conta as histórias da bola sempre a sorrir, e a referir-se na terceira pessoa.

“Tento sempre separar o Pelé do Edson. O Edson é uma pessoa normal de carne e osso, e o Pelé é eterno”, disse ao promover o documentário de sua vida, lançado em 2004, sem perder o senso de publicidade, já que a obra é chamada “Pelé Eterno”.

O número de aparições reduziu-se com o tempo. Uma série de cirurgias no quadril dificultaram a sua locomoção. No sorteio do grupos para o Mundial de 2018, participou em uma cadeira e rodas. Em um evento no Rio de Janeiro em 2018, usou um andador para chegar até o palco.

“Discutíamos ali atrás. mas decidi entrar assim. Deus me deu essa chuteira nova e decidi mostrar”, brincou Pelé, ao seu estilo. Talvez haja um pouco de futebolista no publicitário.