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"Há mais de um ano que tenho ataques de pânico e ansiedade": Van der Wiel e os futebolistas que deixam cair a capa

O lateral holandês, de 32 anos, escreveu uma carta a desvendar os problemas que começou a sentir quando perdeu a rotina do acordar, comer e ir jogar. Van der Wiel, hoje a treinar no RKW Waalwijk, confessou os seus problemas de saúde mental porque "isto faz parte da vida" e "pode acontecer a qualquer um"

Diogo Pombo

Ira L. Black - Corbis

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É jogador da bola, ganha milhões, quem dera a muita gente ter a vida semanal de acordar, comer, treinar e pronto, mais o jogo de domingo no estádio e ter multidões a aplaudi-lo; é vida santa e recebem um salário milionário, coitadinhos não o são de certeza, e por isso tem mais é que acertar este passe, fazer aquele golo e perseguir o tal adversário para trás porque é para isso que lhes pagam e o que seria ouvi-los a queixarem-se.

Num parágrafo não cabem todos os estereótipos já ditos e futuramente pensados sobre os futebolistas, que não são uma espécie à parte embora, muitas vezes, sejam encarados como um robô, por muito se olhar para a árvore quando há uma floresta a rodeá-la - a partir da minoria que ganha ordenados de milhões se alastra a noção de que todos os futebolistas são milionários.

Gregory Van der Wiel ganhou-os, ao ano, durante as quatro épocas que passou no endinheirado Paris Saint-Germain para onde jogador nenhum vai sem muito vir a receber se vier de um clube grande de outro país. O holandês foi do Ajax para lá em 2012, trocaria a equipa parisiense pelo Fenerbahce, da Turquia saiu para uma repentina passagem no Cagliari de Itália e a última vez que se ouvira falar de Van der Wiel, o lateral jogava no Toronto do Canadá, há dois anos.

E quis que voltassem a saber dele por escrito, lendo em inglês “para toda a gente compreender”, Gregory a teclar para o mundo que para todos os jogadores é igual em certas coisas, uma é a exigência cobrada por quem é adepto e por todos os motivos enunciados mais acima os quer imunes ao erro, eles não podem errar, têm de ser imunes e Van der Wiel pensou, um dia, estar a “ter um ataque cardíaco” quando “relaxava em casa”.

Não era o coração a atacá-lo.

Era “a pressão” de anos e mais anos, aliás de todos os anos, para “mostrar o melhor” dele “independentemente do que estivesse realmente a sentir”. É a vida de um jogador ou talvez seja a sina que carrega, contou Van der Wiel que “sempre pôs as emoções de lado” e isso foi-lhe acumulando “frustração, raiva, desilusão e tristeza”. O holandês queria “apenas seguir com a vida e a carreira”, empurrou com a barriga para continuar a dar pontapear bolas.

A mensagem que Gregory Van der Wiel escreveu e publicou, em inglês, "para toda a gente compreender"

A mensagem que Gregory Van der Wiel escreveu e publicou, em inglês, "para toda a gente compreender"

Disse “não quero saber” e esse bumerangue voltou-lhe ao caminho quando se desentendeu com um treinador de quem gostava no Toronto, saiu do clube e lhe fugiu a rotina do acordar, comer, treinar e jogar. “Seis meses depois, os meus ataques de pânico começaram”, admitiu na segunda-feira, confidência feita num site criado para o efeito, a partir da Holanda, onde tem estado a treinar na hipótese de poder voltar a jogar pelo RKW Waalwijk.

Gregory Van der Wiel está “todos os dias a trabalhar no duro” para regressar ao campo, admite “não saber” se o vai conseguir, o que vier é um bónus nos 32 anos por ele já contados e caso não aconteça, é a vida, como “fazem parte da vida” os ataques de ansiedade e pânico que hoje aceita, mas que tanto são escondidos pela ideia cuja origem se desconhece de que um futebolista tem de ser duro, inatingível e imperturbável.

Mas não, um jogador não é uma espécie à parte e em cada um há alguém, este é um que somou 46 internacionalizações pela Holanda, esteve em Europeus (2012) e Mundiais (2010), tem muitos minutos feitos na Liga dos Campeões (39 jogos), esteve onde muitos querem chegar e não conseguem. “Não importa quem és, somos todos humanos e isto pode acontecer a qualquer um”, resumiu.

Van der Wiel lida “com ansiedade e ataques de pânico há mais de um ano”. Despiu a capa, resolveu contá-lo e deu mais uma prova de que os futebolistas não são diferentes só por jogarem à bola.