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Szoboszlai, a tradução húngara para elegância e técnica

Marcou o golo que apurou a Hungria para o Europeu, nos descontos, contra a Islândia, depois de correr, correr e correr com a bola, coisa que Toni Kroos, a quem já foi comparado, talvez não fizesse. Dominik Szoboszlai tem 20 anos, joga no RB Salzburgo, é dono de técnica fina, um dos seus fortes é a forma como bate livres diretos, diz-se que tem vários gigantes europeus atrás dele e, se tudo correr bem, vai defrontar Portugal no próximo Campeonato da Europa

Diogo Pombo

DeFodi Images/Getty

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Ser a bíblia da canalha do futebol não é uma sobre-estima porque, a cada ano, o “The Guardian” pede a jornalistas de uma catrefada de cantos do mundo para sugerirem miúdos vindouros, os talentos do amanhã do seu país ou região. Entre os 60 destacados em 2017, havia um húngaro e teve direito às seguintes linhas:

“É um talento alto, lânguido e com classe, competente tanto atrás do avançado como a ser um médio de construção. Tem qualidades parecidas com Toni Kroos - uma capacidade brilhante para bater a bola com os dois pés, um grande raio de passe, um belo equilíbrio e um QI futebolístico bastante elevado”.

O médio do Real Madrid a quem o compararam não parece ser exatamente o jogador com pujança, perfil ou estilo para, nos descontos de um encontro, apanhar a ressaca de um canto defensivo ainda antes da linha do meio-campo, dar corda às chuteiras, ultrapassar dois adversários com um sprint de bola no pé até rematar, à entrada da área dos outros, sem abrandar a passada.

Um arranque, uma correria monumental e um pontapé em fuga depois, Dominik Szoboszlai logrou na quinta-feira, no pôr-do-sol da partida contra a Islândia, marcar o golo com que a Hungria garantiu o lugar no adiado Campeonato da Europa, um dos responsáveis para o encavalitado calendário do futebol dos jogos a cada três dias - e quem realmente decide isto se parecer estar nas tintas - que deu ainda mais contornos de proeza ao feito do húngaro.

Szoboszlai correu, correu e correu mais um pouco nesta época encafuada com jogos, em que ele será um dos muitos que chegarão ao Europeu pandémica com o corpo carregado de desgaste. Tem 20 anos, é novo, mas já joga quase sempre no Red Bull Salzburgo porque assim tem de o ser, porque já é dos melhores da equipa austríaca e do mais influente que há na Hungria que vai defrontar Alemanha, França e Portugal.

Ele é mesmo novo, disse no final que “em criança tinha o sonho de jogar contra o Cristiano Ronaldo” e, lesões e pandemia o permitam, irá mesmo defrontá-lo no verão se até lá o Salsburgo não apanhar a Juventus num qualquer entroncamento das competições europeias: para já, os italianos estão em 2.º no grupo G e os austríacos vão no 4.ª lugar do A.

É provável que Szoboszlai não fica por lá muito mais tempo. Os rumores rodeiam-no, é a sina de qualquer talentoso que emerge fora dos bichos papões do futebol e já o ligaram ao Dortmund, ao Arsenal ou até ao Real Madrid, qualquer um será o maior dos pulos que dará desde que os olheiros do clube da Red Bull o apanharam num jogo da seleção sub-15 da Hungria. Foram logo buscá-lo ao Videoton.

Clube e adolescente “decidiram-se bastante rápido”, contou Szoboszlai à “Kicker”, em agosto, já titularíssimo do Salzburgo onde achou que estava feito quando chegou à primeira equipa, bastava continuar a fazer mais do mesmo e a coisa ia, só que Marco Rose, hoje treinador do Borussia Mönchengladbach, abriu-lhe os olhos à força quando tinha 18 anos.

A soberba infantil de Dominik pensava “que o que tinha jogado até então chegaria para a 1.ª divisão”, mas “não estaria aqui hoje” se o técnico “não [lhe] tivesse mostrado que tinha de mudar”. O lugar onde Szoboszlai está tem-no como o jogador do ano do último campeonato austríaco e a jogar o que joga, que é bastante.

Laszlo Szirtesi - UEFA

O elogio Toni Krooesco concedido, há anos, entende-se pela elegância quando tem a bola domesticada nas suas pantufas, apanha-se a sensação de controlo total da postura erguida, do peito feito e da firmeza dos braços encostados ao corpo. E, de facto, tem algo do germânico nas receções para direções inesperadas que parecem orientadas por um radar.

Do pé direito saem-lhe muitos passes dos rasteiros, tensos e verticais que alcançam gente onde é preciso ser valente para arriscar acelerar para lá a bola. Depois, entra-lhe o que o distancia do alemão do Real Madrid. Na forma de jogar do húngaro cabem muitas correrias com bola, é-lhe comum o pára-arranca para desequilibrar adversários e livrar-se de um, dois, na mesma jogada. Até roletas à Zidane faz com fartura.

Tecnicamente, Szoboszlai pensa que “não é mau”, confessa que sempre tenta “saber para onde quer jogar antes de receber a bola” e, é verdade, “há mais uma coisa”: os livres diretos.

O húngaro distingue-os como “uma das [suas] forças” e tem a razão com ele. As bolas param e Szoboszlai capaz é de as bater curvadas, com o efeito típico, caso esteja perto da área, ou com uma pancada seca (knuckleball), que a faça subir e descer rapidamente sem rodopiar sobre si própria, se o livre for marcado mais longe da baliza.

É neste jovem adulto com oito assistências e seis golos feitos esta época que a Hungria confia, finalmente parece vir aí um craque para muitos anos, como há ainda mais anos o país não vê desde Puskas e companhia, os gloriosos anos 50 e 60 das três medalhas olímpicas e da série de 31 jogos sem derrotas. Nesses tempos elogiava-se o Major Galopante, agora está aí a vir o Soldado Elegante.