Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

As aventuras de Lord Bendtner: os cigarros de Buffon, as 400 mil libras perdidas de uma só vez, a discussão com Henry e a namorada baronesa

O ex-jogador, internacional pela Dinamarca, contou à BBC como confrontou Thierry Henry com 16 anos, falou do vício do jogo, do Aston Martin destruído e da razão pela qual os fãs lhe chamam “Lord” Bendtner

Carlos Luís Ramalhão

Lars Ronbog/Getty

Partilhar

Bendtner chegou ao Arsenal com 16 anos e um rótulo de próximo grande jogador. Alguns azares e muitos tiros nos pés fizeram com que acontecesse o mesmo que a tantos miúdos pelo mundo fora. O dinamarquês, mesmo crescendo ao lado de jogadores como Thierry Henry, Denis Bergkamp ou Fabregas, perdeu-se pelo caminho. Aos 32 anos, tenta reencontrar-se.

Um dos primeiros episódios envolveu o francês mais idolatrado pelos Gunners. “Thierry Henry era provavelmente o melhor jogador da Premier League naquela altura. Olhando para trás consigo ver que eu estava ‘avariado’ da cabeça. Estávamos a dar toques e lá para o meio houve uma discussão entre nós os dois. Depois disso, ele veio ter comigo e disse-me ‘tenho de te explicar algumas coisas sobre como isto funciona. Claro que, durante uns meses, não treinei com a equipa principal.”

Com um sorriso aberto, Bendtner recorda: “Lembram-se de quando o Balotelli veio para Inglaterra e todos diziam que ele fumava nas casas de banho? Em todos os clubes em que joguei havia jogadores que fumavam. Era normal em Itália, mais do que em Inglaterra”. O dinamarquês lembra um dia em que não conseguia encontrar nenhum dos seus companheiros de equipa da Juventus. “Depois encontrei 10 ou 12 deles na casa de banho, a tomar café, a conversar e a fumar.” Pirlo e Buffon eram dois dos fumadores.

Nicklas Bendtner tem agora 32 anos e regressou à base, no seu país de origem. Escreveu um livro e aparentemente está mais calmo. Na entrevista concedida à BBC, o dinamarquês não conta apenas histórias divertidas: Bendtner abre-se também sobre o seu vício do jogo, que surgiu por causa das constantes lesões. Numa noite em particular, quando tinha 23 anos e um cofre bem recheado, Bendtner perdeu 400 mil libras na roleta.

“Eu senti sempre que estava tudo sob controlo mas essa noite foi um ponto de viragem para mim. Eu sabia que aquele não era o estilo de vida que eu queria. Eu tinha muitas lesões, não conseguia encontrar a motivação para continuar, em frente de 60 mil adeptos. O único sítio onde sentia esse prazer de competir era no casino.”

As coisas estão diferentes agora. “Precisava de um alarme”. Uma das pessoas que o dinamarquês nomeia porque o ajudaram a quebrar essa corrente é Steve Bruce, que foi seu treinador no Birmingham. “O Steve e eu tínhamos uma relação muito honesta. Ele ajudou-me muito ao longo dos anos.”

Antes disso, em 2009, com 21 anos, o dinamarquês apanhou um grande susto quando se envolveu num acidente grave de automóvel, a caminho do treino do Arsenal. Bendtner desfez o seu Aston Martin na auto-estrada e confessou-se “com sorte por estar vivo”. “O acidente foi muito sério. Mudou-me.” Essa mudança foi também física, porque provocou lesões para alguns anos, algumas mesmo para a vida. “Provocou-me muitas dores, ainda hoje provoca.”

Alguns fãs de Bendtner chamam-lhe “Lord”, o que inicialmente o irritava mas agora o diverte. Tudo porque o dinamarquês teve uma relação com uma baronesa. “No início eu não gostava e agora faz parte de mim. (…) Se não os consegues bater, junta-te a eles.”

Já na Dinamarca, em 2018, Bendtner foi condenado a 50 dias de prisão por agredir um taxista. A sentença foi cumprida em regime domiciliário. O futebolista admitiu a agressão mas alegou que se sentiu ameaçado. “Foram 50 dias muito aborrecidos. Treinei, escrevi o meu livro e pensei muito. Foi um tempo difícil.”

Em retrospetiva, Bendtner diz que houve “certas coisas que gostaria de ter feito mais”. Por outro lado, tenho orgulho no que fiz. As minhas experiências foram excecionais. (…) Sinto que fui mal-entendido, em certos aspetos. Considero-me sortudo por ter experienciado o que experienciei. (…) Mas não me arrependo de nada.”