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Olá, és norueguês? Se sim, podes vir jogar pela seleção nacional de emergência?

A UEFA cancelou o Noruega-Roménia, agendado para sábado, porque o governo norueguês impediu a seleção de viajar para Bucareste por um jogador ter testado positivo para covid-19 - embora todos os outros tivessem, depois, dois resultados negativos. Para conseguir jogar esta quarta-feira, contra a Áustria, partida na qual se decidirá a liderança do grupo na divisão B da Liga das Nações, a federação teve de convocar 18 jogadores a atuarem em clubes estrangeiros para formar uma equipa. Entre as possibilidades, teve de chamar 13 futebolistas que nunca jogaram pela seleção e todos serão orientados pelo selecionador dos sub-21

Diogo Pombo

Erling Haaland, avançado do Borussia Dortmund, é um dos jogadores que foram forçados a cumprir quarentena e proibidos de viajar pelo governo norueguês

David Fitzgerald/Getty

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Neste apetrechado calendário que a UEFA insistiu em encher de jogos, em ano de férias curtas para os jogadores e jogos e mais jogos espremidos no tempo, é suposto que um país chame os melhores que tem quando é altura para defrontar outro país. Que faça uma seleção do melhor e daí chamar-se seleção nacional. Mas, esta quarta-feira, quando (e se) a Noruega entrar em campo para defrontar a Áustria, fá-lo-á com a seleção possível.

Não com a melhor equipa, que a teoria tem como resultado de se escolher entre os melhores jogadores. Esses estão em quarentena, porque um deles testou positivo para covid-19.

Omar Elabdellaoui costuma sempre ser um dos convocados. É um dos capitães e tem 49 internacionalizações, só que foi o lateral direito do Galatasaray que testou positivo para covid-19 na sexta-feira, um dia antes da Noruega jogar com a Roménia, em Bucareste, a contar para a Liga das Nações. A federação de futebol do país isolou o jogador do plantel, colocou-o em quarentena e os restantes seguiram as indicações do protocolo da UEFA, assinado por 55 países para salvaguardar situações destas.

Com Elabdellaoui em isolamento, os futebolistas e elementos do staff técnico foram submetidos a dois testes e "todos tiveram resultado negativo". A comitiva seguiu "num autocarro privado" para o aeroporto de Gardermoen, perto de Oslo. Eram 39 pessoas e tinham um avião privado à espera com capacidade para 130. Faltava uma hora para a descolagem quando receberam a informação de que o Ministério da Saúde norueguês os tinha proibido de viajar. Razão: tiveram contacto com um infetado.

A história é contada por Stefan Johansen, Martin Ødegaard e Joshua King, os capitães que sobraram na seleção e escreveram uma carta, publicada no site da federação norueguesa, a lamentar o episódio. "Durante quatro anos trabalhámos arduamente para otimizar as nossas hipóteses de qualificação e avançámos mais de 40 lugares no ranking da FIFA", resumiram, queixando-se de que "não jogar contra a Roménia e a Áustria pode rapidamente esmagar as ambições desportivas a curto e longo prazo".

A seleção ficou em terra, a UEFA teve de cancelar o jogo - ainda não comunicou se vai atribuir a vitória à Roménia ou se apenas adiará o encontro - e os noruegueses tiveram que magicar uma solução para o mesmo não acontecer esta quarta-feira, quando era suposto defrontarem a Áustria, em Viena.

Omar Elabdellaoui, o norueguês do Galatasaray, à esquerda, que testou positivo

Omar Elabdellaoui, o norueguês do Galatasaray, à esquerda, que testou positivo

Anadolu Agency

Tendo a seleção original marcada para não viajar, a federação norueguesa resolveu chamar 18 novos jogadores, mas com o twist de todos virem de clubes estrangeiros. Assim chegaram à seguinte lista:

Per Kristian Bråtveit (Djurgården), Anders Kristiansen (Union SG), Andreas Hanche-Olsen (Gent), Ruben Gabrielsen (Toulouse), Daniel Granli (Aalborg), Andreas Vindheim (Sparta Praga), Julian Ryerson (Union Berlim), Jørgen Skjelvik (Odense), Tobias Børkeeiet (Brøndby), Kristoffer Askildsen (Sampdoria), Fredrik Ulvestad (Djurgården), Kristian Thorstvedt (Genk), Sondre Tronstad (Vitesse), Mats Møller Dæhli (Genk), Håkon Evjen (AZ Alkmaar), Ghayas Zahid (Apoel), Jørgen Strand Larsen (Groningen) e Veton Berisha (Viking).

Treze destes jogadores nunca representaram a seleção e apenas o último joga na Noruega, porque "já teve o coronavírus". Os responsáveis da federação entraram em contacto com o clube de cada jogador. Pelo menos sete, avançou o jornal "VG", não foram sequer autorizados a viajar por quem lhes paga o salário e a inspeção à lista telefónica teve de continuar.

Os 18 jogadores não viajarão diretamente para Viena e foram antes chamados a Oslo vindos de 11 países diferentes. Cada um seguiu direto para um quarto do hotel localizado perto do aeroporto, evitando contactos e uma eventual quarentena coletiva caso algum jogador testasse positivo à chegada.

Assim poderão aterrar terça-feira, na Áustria, provenientes do mesmo lugar, evitando as distintas restrições do governo local consoante a origem dos voos. E, na capital austríaca, será Leif Gunnar Smerud a escolher os 11 que começarão a partida, na quarta-feira. Num dia normal, ele é o selecionador dos sub-21.

Perguntaram-lhe, em conferência de imprensa, quantas dúvidas tinha em relação à retalhada equipa que terá de escolher para jogar na Áustria. "Onze", respondeu o treinador promovido à pressa para, quase com cuspo, colar uma equipa após um par de treinos e esperar pelo melhor contra um adversário contra quem terá de ganhar para a Noruega ser promovida à primeira divisão da Liga das Nações.

Ele e os jogadores foram arrastados para "um puzzle". Não eram, à partida, os melhores que a Noruega tem, mas o seu melhor terá que chegar.