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Rashford só pôde começar a ler aos 17 anos e não quer que outros miúdos passem pelo mesmo. Por isso vai fundar um clube de leitura

O avançado do Manchester United, que nos últimos meses tem trabalhado de forma incansável para acabar com a pobreza alimentar infantil no Reino Unido, tem um novo projeto para promover a leitura entre as crianças mais carenciadas. Porque ele próprio não conseguia comprar livros - a prioridade da sua família era colocar comida na mesa

Lídia Paralta Gomes

Martin Rickett - PA Images/Getty

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Marcus Rashford não nasceu rico, longe disso, a mãe criou cinco filhos com o salário mínimo nos arredores de Manchester e mal havia para comida todos os dias, quanto mais para livros. O rapaz cresceu, tornou-se estrela da bola, ganha dinheiro suficiente para esquecer essa infância. Mas não o fez.

Nos últimos meses, o avançado do Manchester United tornou-se não só a cara mas também as mãos e o cérebro (que isto não é só aparecer, é preciso fazer) de uma campanha nacional para mitigar a pobreza alimentar infantil no Reino Unido. Os seus esforços levaram mesmo o executivo de Boris Johnson a aprovar um novo programa de apoio, que vai beneficiar mais de um milhão e meio de crianças até ao natal do próximo ano, permitindo-lhes aceder a refeições mesmo durante as férias escolares. Porque hoje como há 20 anos, quando Rashford era uma criança, nem todos os miúdos do país têm garantido um prato de comida ao jantar.

Mas Rashford quer ir mais longe. Esta semana anunciou uma parceria com a editora Macmillan Children’s Books para criar um clube de leitura que vai promover a leitura nas crianças de todos os estratos sociais, particularmente nos que vivem em famílias mais carenciadas. Porque o intelecto também deve ser alimentado e Rashford não teve essa oportunidade em criança.

A ideia de Rashford é chegar a “380 mil crianças no Reino Unido que nunca tiveram um livro”, lembrando que a sua própria família tinha de dar prioridade aos bens mais básicos e a comida estava à frente de tudo o resto.

“Só comecei a ler aos 17 anos e isso mudou completamente a minha forma de ver as coisas e a minha mentalidade. Gostava de ter tido a oportunidade de ler mais enquanto criança, mas os livros nunca foram algo que a minha família pudesse comprar, porque o que era necessário era meter comida na mesa”, disse o internacional inglês de 23 anos, em declarações citadas pelo “The Guardian”.

“Houve momentos em que o escapismo da leitura me poderiam ter ajudado e eu quero esse escapismo para todas as crianças. Não só para as que podem pagar”, frisou ainda Rashford.

O clube de leitura de Marcus Rashford deverá tornar-se uma realidade no próximo ano e a vida do jogador servirá também de inspiração para vários livros que entretanto serão lançados. O avançado, colega de equipa de Bruno Fernandes no United, defende também que os livros infantis devem mostrar diversidade, com personagens que representem todas as raças, religiões e géneros para que as crianças tenham ciente que seja qual for a circunstância do seu crescimento “todo o talento deve ser reconhecido e apoiado”.

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    Ganha milhares de euros à semana, tem 22 anos e vive de uma profissão na qual é costume ouvir-se que ele e todos os outros não a devem misturar com outras coisas. Marcus Rashford, porém, continuou a fazê-lo. Depois de o pressionar o governo britânico a adiar o fim de um programa de vouchers alimentares para cerca de 1.3 milhões de crianças de famílias mais desfavorecidas e de ser condecorado pela Rainha de Inglaterra, voltou à carga esta sexta-feira, após o parlamento britânico chumbar uma proposta para prolongar o pacote de ajudas até à Páscoa do próximo ano

  • Depois de ganhar ao Everton, Rashford recebeu a chamada que desejava: a do primeiro-ministro, a anunciar apoios a 1,7 milhões de crianças

    Atualidade

    Boris Johnson telefonou ao avançado do Manchester United, que nos últimos meses tem lutado por programas de apoio alimentar a centenas de milhares de crianças carenciadas, para que fosse um dos primeiros a saber que os seus esforços foram finalmente ouvidos: o governo britânico vai canalizar mais de 300 milhões de euros para dar refeições aos mais carenciados durante as férias escolares até ao natal de 2021