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No dérbi londrino, Mourinho, o eterno calculista, pegou no pontinho de que precisava - e levou-o para casa

Alinhados mais ou menos nos mesmos sistemas, com um trinco e dois médios e dois extremos e um avançado, mas com jogadores diferentes, os rivais de Londres procuraram dois caminhos para lá chegar. Os blues com mais bola e os spurs com as típicas transições mourinhescas

Pedro Candeias

Mark Leech/Offside

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A relação de Frank Lampard e José Mourinho é apenas mais uma na longa tradição das histórias pupilo-encontra-o-mestre. Esta - entre um médio prodigioso que encontrou num jovem treinador o parceiro perfeito para atingir grandes coisas (e vice-versa) e que depois de se fez ele próprio treinador e rival do antigo mentor -, não é muito diferente de outras.

Há dois substratos comuns: o respeito do mais novo pelo mais velho, que o leva a tolerar os bons velhos mind games de Mourinho, como se fossem um capricho que Lampard entende e conhece bem, e por isso relativiza; e a vontade inquestionável do aluno querer ultrapassar o antigo mestre num duelo, concretizando assim a profecia.

O Chelsea - Tottenham deste domingo era o campo perfeito para definir em que pé estão as coisas entre eles. Dérbi londrino entre dois candidatos à liderança que até podem acabar como contendores sérios pelo título. O que será, de todo, inesperado, porque em Inglaterra há Manchester City e sobretudo Liverpool.

Então que quando o jogo começou, depois do minuto de aplausos por Maradona e a homenagem ao Black Live Matters, Chelsea e Tottenham trataram de se organizar com um objetivo prioritário: anular o adversário e só a seguir feri-lo.

Alinhados mais ou menos nos mesmos sistemas, com um trinco e dois médios e dois extremos e um avançado, mas com jogadores diferentes, os rivais de Londres procuraram dois caminhos para lá chegar. Os blues com mais bola e os spurs com as típicas transições mourinhescas; no final da primeira-parte, os números equiparavam-se, excepto, claro, naquela questão particular da posse. De resto, os mesmos remates no total e o mesmo remate à baliza.

O empate aceitava-se, num dérbi demasiado controlado para quem contava com uma jogatana desenfreada. Mas como quem sai aos seus não degenera, não seria Lampard a trair o legado de Mourinho, ainda por cima estando ambos frente-a-frente.

Que viesse a segunda-parte. E que fosse Lampard a dar o primeiro passo.

Assim foi.

O Chelsea passou a impôr-se mais, a circular mais no meio-campo adversário, com os laterais bem dentro do terreno do Tottenham, tentando atrair e distrair marcações, empurrando a equipa de Mourinho lá para trás - no sítio onde também se sente confortável. Seguiram-se as substituições de um lado e de outro, o cansaço começou a aparecer, tal como as oportunidades, os erros (Dier, Rodon e Zouma) boas defesas dos guarda-redes (de Lloris, principalmente).

Mourinho, o eterno calculista, contabilizou o pontinho que garantia a liderança ex-aequo com o Liverpool, com 21 pontos, mais dois do que o Chelsea - e levou-o para casa.

  • Não sei se já espreitaram o Instagram do Social Media One

    Crónica

    Ninguém diria que Mourinho se transformaria com o tempo num guru das redes e num storyteller de ocasião, mas há séculos que o darwinismo associa a adaptação à sobrevivência das espécies: Special One, Happy One, Social Media One. E isto talvez seja uma das chaves para a sua reabilitação: o treinador, como ele próprio diz na sua nova persona, abraçou finalmente a mudança dos tempos. Hoje há Tottenham - Chelsea (16h30, SportTV)