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Futebol internacional

Jackson Martínez: a dor bem tentou, mas só agora lhe ganhou

Um dos melhores avançados e marcadores de golos que o campeonato português já viu anunciou a retirada, esta segunda-feira e aos 34 anos, muito tempo depois da altura em que ninguém lhe teria apontado o dedo por dizer adeus. Porque a sombra de Jackson Martínez voltou a Portugal depois do verdadeiro Jackson Martínez jogar no FC Porto e, durante as duas últimas épocas, coxeou e lutou contra um tornozelo desfeito que nem o deixava dormir bem, quanto mais jogar como jogara. Mas o colombiano cerrou os dentes, jogou na mesma e derrotou o próprio corpo enquanto pôde

Diogo Pombo

Os bons velhos tempos de Jackson, no FCP

NurPhoto/NurPhoto via Getty Images

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Ouvimo-lo a confessar por palavras, dizer e repetir que o risco de amputação fora real, mas o quê, não pode, não ele, um antigo melhor marcador da I Liga nas três épocas em que jogou em Portugal e foi, existiu e viveu. Entre 2012 e 2015 jogou com esses três verbos dentro porque Jackson Martínez no FC Porto era o avançado colombiano que a memória coletiva do público em Portugal preservou, apesar de clubites e preferências cromáticas que às vezes toldam o julgamento.

O sul-americano com nome de apelido anglófono distribuiu receções UHU, fintas de bola colada aos pés e finalizações espetaculares, coisas vindas de um corpo matulão que usava a preceito e com um jeito muito dele, de dominar jogadas quando cercado na área e livrar-se dos cercos com agilidade anormal para um tipo tão grande. Marcou 31, 29 e 32 golos à vez no FC Porto e lá foi vendido para Madrid, mais uma prova da pequenez portuguesa quando a fome de clubes maiores se agiganta.

Duraria 14 meses sofríveis no Atlético, inadaptado ao regime fechado, aglomerado atrás e trabalhista por decreto de Diego Simeone, sucumbiu perante as rotinas rígidas que só agora o treinador está a mudar e ouviu o chamamento endinheirado da China. Perdia-se mais um talento goleador para o mercado sedutor das cautelas, que usa a fartura do dinheiro o que é impossível igualar em atração desportiva para seduzir grandes futebolistas a pensarem na vida futura primeira e no futebol presente depois.

Jackson esteve dois anos na China sem realmente estar, os 16 jogos que lá deixou foram cortados por uma lesão no tornozelo que o parou durante quase outro par de anos, sem nunca o parar de moer com dores.

E a dor imitou-lhe a sombra, tornou-se companhia inseparável por mais indesejada que fosse, Jackson era visto, revisto e ajudado por médicos que apenas o auxiliavam até certo ponto, até essa dor, até nada mais haver para ser feito contra um problema que virou crónica e fez o colombiano pensar se o melhor não seria amputar, porque viver com dor não é vida para ninguém.

Mas foi para ele.

Quem não o soubesse já foi, por certo, surpreendido quando Jackson Martínez chegou ao Portimonense no verão de 2018, era a ressurreição em Portimão e novo em Portugal do jogador julgado acabado, à força, para o futebol. As sobrancelhas que normal e compreensivelmente se levantariam, quase por instinto, por tão bom avançado ir para a tão modesto clube logo se rebaixaram pelas circunstâncias que o próprio colombiano confessaria, mal chegou

Carlos Rodrigues/Getty

Jackson Martínez era ele próprio por fora, a mesma força da natureza corpórea da cintura para cima com as mesmas esguias pernas, com os gemelos inchados quase atrás dos joelhos, mas, por dentro, uma angústia condicionava-o. Era a dor, a maldita dor que nenhum futebolista ou desportiva merece ter de suportar, que obrigou o clube, as pessoas do clube e o próprio jogador a concordarem com o único contexto possível para que o colombiano pudesse voltar a ser avançado.

Ele não treinava nos dias, com a carga e nos exercícios que se aplicavam aos outros; não corria como os outros porque, assim que voltou ao campo, a cada semana se notava como coxeava depois de cada esgar de sprint e como a sua cara nem sempre escondia o que sentia; não tinha a mesma aptidão para se entregar por completo a um jogo como os outros.

Jackson Martínez nem conseguia dormir como os outros. "Quase todas as noites, por volta das três ou quatro da manhã, como se fosse um relógio, o meu sono é interrompido devido a algum incómodo no pé. Depois de alguns minutos passa e volto a dormir", admitiria, em entrevista ao "Record". O colombiano já não era como qualquer outro jogador com quem compartilhasse campo porque, simplesmente, tinha de ignorar todos os sinais de um corpo quase inoperante para ali estar.

Por isso, vimo-lo depois de o ouvirmos, foi a vez de vermos como estava limitado a ser um avançado de jogadas, de escolher bem os momentos para os quais canalizar todos os esforços e "cerrar os dentes" para ignorar mais um sessão de berros do próprio corpo, a gritar-lhe para que parasse e se deixasse daquilo, de tentar ser um jogador que já não era, nem era capaz de o ser, por mais forte e valente que fosse e é a sua cabeça.

Porque, se as duas épocas no Portimonense provaram algo, é a fortaleza que mora na mente que comanda o colombiano.

Se custava vê-lo, de fora, a coxear e a sofrer sem esconderijos por nos lembrarmos do que em tempos foi, imaginemos o que terá sido para um futebolista cujas ideias e a cabeça estavam intactas e continuavam a funcionar, mas mais ciente do que nós todos estava de que já não tinha um corpo capaz de lhe responder. Era uma armadilha a que sempre se condenava a pisar. Uma prisão. "Foi muito difícil desempenhar-me como imaginava", resumiu, só assim, agora na despedida silenciosa e renegada às redes sociais.

A dor acompanhou Jackson Martínez até ao fim, lá esteve quando, em agosto, o colombiano anunciou a saída do Portimonense sem a culpar ou sequer mencionar, porque já antes dissera que "a maior dor era não ter voltado a jogar".

O segundo adeus a Portugal foi o prenúncio da derrota iminente que ele adiou e adiou estoicamente, vista de fora a dor era inimaginável mas nunca foi maior do que Jackson e essa é o exemplo que o avançado deixa. Porque a dor só lhe ganhou quando ele quis.

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