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Morreu Alejandro Sabella, treinador que levou a Argentina à final do Mundial de 2014

O antigo selecionador argentino morreu esta terça-feira, aos 66 anos, após lutar contra um cancro que muito o debilitara nos últimos tempos. Estava internado desde 25 de novembro, dia em que Diego Armando Maradona faleceu e a Argentina vê partir mais um dos grandes do seu futebol. O último dos apogeus antes do caos com que a sua seleção está a lidar

Diogo Pombo

Mike Hewitt - FIFA

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No fatídico dia em que o mundo ficou sem Diego Armando Maradona, outra desafortunada notícia houve para o futebol que mais tocou, o argentino: Alejandro Sabella fora internado no Instituto Cardiovascular, em Belgrano, fraco e a enfraquecer devido aos rastos que um cancro lhe estava a deixar no corpo.

Esta terça-feira, 8 de dezembro, o antigo treinador morreu, os principais jornais argentinos avançaram a trágica notícia e o país que preza a frase virada ideal, de a bola nunca se sujar ("la pelota no se mancha"), perdeu o homem que mais perto voltou a aproximar a seleção da conquista de um Mundial no pós-proeza com Maradona, o génio idolatrada que cunhou essas tais cinco palavras juntas.

Foi em 2014, no quarto e último ano em que a Argentina teve às ordens do treinador da face cerrada mas bondosa, o pouco cabelo branco puxado atrás e a pose de quem careca estava a ficar por tanto matutar sobre futebol.

Alejandro Sabella uniu as peças de uma seleção não deslumbrante e espetacular assim-assim, esses momentos reservados quase em exclusivo às coisas que saiam da proeza de Lionel Messi que, se bem sem se elevar aos píncaros da divindade maradonianos aos quais viverá sempre para ser comparado, conseguiu ser constante, decisivo e rebocador da Argentina em muitas jogos desse Campeonato do Mundo. Chegaram à final, onde a Alemanha lhes roubaria o sonho com um golo marcado no prolongamento.

Não houve outra versão da Argentina como essa, sobrelevar-se como essa, os resquícios de um projeto de seleção com tino e coesão ficaram nesse Campeonato do Mundo, em parte, quiçá em grande parte, porque Alejandro Sabella deixou o cargo e o futebol para se dedicar à saúde que já então teimava em o chatear.

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Clive Rose/Getty

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PA Images

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Jasper Juinen - FIFA

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Nick Potts - EMPICS

O treinador sofria de problemas cardíacos e em 2015 foi submetido a uma angioplastia, cujas repercussões obrigaram a que fosse internado, de novo, no ano seguinte, contou o "La Nácion". Em 2019, durante vários meses, fez tratamento para curar um cancro na laringe, enquanto continuava a sofrer com problemas cardíacos.

No ano anterior, já visivelmente debilitado, compareceu num evento da Universidade Nacional de La Plata, na Argentina, onde disse: "Quando já estava a lutar para ver se continuaria cá com vocês ou ia para o outro lado, recordei-me do que dizia aos meus alunos, aos meus jogadores: 'Não podem dar menos de 100%'. E se lhes pedia a eles, também tinha que lutar para me manter com vida". Dedicava-se a essa luta desde 13 de junho de 2014.

O dia da final do Mundial acabaria por ser a derradeira vista à carreira de treinador de Alejandro Sabella, confessou ter "muita vontade de descansar", o cansaço da "responsabilidade enorme nas costas" vergara-o. Precisava de se "recuperar". Essa carreira a mirar e ordenar no banco durou 17 anos, que antes da cena final na Copa do Brasil conheceu um ponto altíssimo, também em território da maior rivalidade nutrida pelos argentinos: em 2009, conquistou a Taça dos Libertadores com o Estudiantes, clube no qual jogou e é ídolo.

Desenrolando os anos e ainda cheio de cabelo moreno, vestido com equipamentos justos e de chuteiras calçadas, Sabella arrancou a carreira de jogador no River Plate, em 1975, de onde viajou para dois anos e meio passados em Inglaterra, entre o Sheffield United e o Leeds, para regressar à Argentina em 1981 e cumprir cinco temporadas no Estudiantes. Voltaria a sair, seduziu-o o Grémio do Brasil, mas terminaria esses tempos de pontapés na bola como forma de vida no Estudiantes, em 1989.

O ano passado, aquando do lançamento de "Hablemos de Sabella" em que o treinador foi convidado a estar, perguntaram-lhe sobre o caos em que a seleção argentina está imersa e particularizaram o contexto que a interrogação rebocou - de ter sido com ele a melhor versão da equipa este século, de ter sido ele a magicar a melhor forma de Lionel Messi render, de ter sido o selecionador que mais perto ficou de dar um terceiro título mundial ao país.

E Alejandro Sabella falou, senhorio de um discurso de senhor e sem voltas a serem dadas na lama. "Prefiro ser dono dos meus silêncios a escravo das minhas palavras. Todos somos participantes do futebol argentino que temos hoje", disse, exemplarmente.