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Os misters portugueses outra vez à conquista do Brasil

Com pouco mais de um mês no Palmeiras, Abel Ferreira já impressiona o Brasil, que procura cada vez mais treinadores portugueses, depois do sucesso de Jorge Jesus no Flamengo. Mas o volátil futebol brasileiro rejeita tão rápido quanto abraça, como sentiram Jesualdo Ferreira e Augusto Inácio, e como já está a perceber Ricardo Sá Pinto

Evandro Furoni, em São Paulo

Bruna Prado

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"Vão começar a falar bem da nossa equipa, mas ainda não ganhámos um caralho.” A frase dita por Abel Ferreira no balneário, após uma vitória, resume bem o início de trabalho do treinador português no Palmeiras. De facto, o ex-PAOK e Braga está a chamar a atenção no Brasil pelo bom futebol apresentado pelo “Verdão” desde a sua chegada, a 30 de outubro, apesar de, em termos mais educados, ainda não ter nenhum resultado expressivo na sua curta passagem pelo clube de São Paulo.

O motivo de tantos elogios: muita energia do homem que está sempre ajoelhado na área técnica a ver o jogo, o esforço em criar uma identidade não só com os atletas, mas também com os adeptos, e a fome do “país do futebol” em tentar renovar as suas ideias, com vontade em trocar os “professores” nacionais pelos misters portugueses, reflexo da passagem histórica de Jorge Jesus pelo Flamengo.

Abel substituiu Vanderlei Luxemburgo, ex-Real Madrid e um dos maiores vencedores do futebol brasileiro, na equipa alviverde. O “professor”, como é conhecido, até conquistou o título do Campeonato Paulista, mas foi criticado pelos adeptos pela falta de bom futebol. E o mister chegou disposto a não repetir o erro. “Temos que recuperar a nossa identidade. O Palmeiras é conhecido pela Academia — equipa histórica dos anos 60 que interrompeu a sequência de títulos paulistas do Santos, de Pelé —, por uma forma e estilo de jogar, não pelos títulos. Foi pela identidade criada”, disse o português na sua apresentação.

ALEXANDRE SCHNEIDER

A entrada teve impacto. “Chegou conhecendo o Palmeiras mais do que muitos palmeirenses, mais do que muitos treinadores, mais do que muitos jornalistas, e isso é fundamental, sobretudo para alguém tão jovem”, diz à Tribuna Expresso Mauro Beting, comentador dos canais Esporte Interativo e SBT.

Se o primeiro mês dá algum sinal sobre esta identidade, é a de um futebol agressivo, com muitos golos e sem medo de soluções criativas. Em 13 partidas, são sete vitórias, três empates e uma derrota, com a classificação para os quartos de final da Libertadores (1-1 na 1ª mão com os paraguaios do Libertad; a 2ª mão será quarta-feira, 0h30, SportTV) e meias-finais da Copa do Brasil.

O técnico também já usou mais de 30 jogadores no curto período, resultado de lesões, convocações de internacionais e um surto de covid-19 que atingiu o próprio Abel e o deixou de fora na última semana. “A grande contribuição que se dá é tática. O Abel tem definida a estratégia para cada jogo, está a variar o time taticamente do primeiro para o segundo tempo”, avalia Paulo Vinícius Coelho, comentador do canal brasileiro Sportv.

Na parte emocional, Abel destaca-se por exaltar publicamente os seus jogadores. Após o médio Gustavo Scarpa jogar improvisado de lateral-esquerdo, chegou a afirmar que ele poderia chegar até à seleção brasileira. Disse que queria transformar o ex-benfiquista Ramires de “patinho feio a cisne”, mas o antigo internacional saiu por questões pessoais. Sobre Gabriel Verón, grande promessa do clube, defendeu que não pode ser vendido por menos do que Neymar quando trocou o Santos pelo Barcelona. “Ele é muito inteligente, um cara sábio, isso faz toda a diferença. Ele tem o jeito de saber falar com o atleta, de saber colocar a ideia de jogo na cabeça dos jogadores, e tem feito isso com a gente nos treinamentos”, disse Felipe Melo, capitão do Palmeiras, numa entrevista para o canal da Libertadores.

SEBASTIAO MOREIRA

Este jeito de saber falar também aparece com os adeptos. Sem poder contar com as bancadas cheias, a relação com os palmeirenses está a ser construída por vídeos divulgados pelo próprio clube. Num deles, chegou a afirmar que considera o Palmeiras um “estilo de vida” para ele. “A bancada do Palmeiras comprou rapidamente o Abel. Ele teve inteligência para cativar primeiro por uma questão de carisma, mas evidentemente os resultados ajudaram”, explica Mauro Beting.

Jorge Jesus e os misters portugueses na busca por uma identidade

Se há muito de Jorge Jesus na contratação de Abel Ferreira, seja pela campanha histórica do atual encarnado com o Flamengo ou pela eliminação de Jesus da Liga dos Campeões, precisamente com o ex-técnico do PAOK, também há muito da busca no futebol brasileiro de uma nova identidade. Depois de o 7-1 contra a Alemanha no Mundial de 2014 mostrar as fragilidades do “país do futebol”, discutiu-se muito se os técnicos brasileiros não estariam atrasados em relação ao resto do mundo.

Atualmente, Jorge Sampaoli treina o Atlético-MG e Eduardo Coudet estava no Internacional até novembro, e ambos são argentinos. O espanhol Domènec Torrent foi o sucessor de Jesus no Flamengo e o Vasco conta com outro português, Ricardo Sá Pinto, enquanto o Santos foi treinado por Jesualdo Ferreira até agosto, já depois de Augusto Inácio ter passado pelo Avaí.

Pode parecer uma revolução, mas é apenas a retomada de uma tradição brasileira de intercâmbio de ideias. A própria Academia citada por Abel teve como um dos seus comandantes o argentino Filpo Núñez. “O que ocorre agora é o que aconteceu em 1957, com o húngaro Béla Guttmann no São Paulo a ser campeão paulista, que ajudou muito o Brasil a ser campeão do mundo em 1958. O auxiliar do Béla Guttmann era o Vicente Feola, que seria o treinador da seleção brasileira. Imagine, por exemplo, o auxiliar do Jorge Jesus assumir a seleção brasileira e ser campeão do mundo”, explica Mauro Beting.

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Por mais que Jorge Jesus seja decisivo para abrir o mercado brasileiro aos portugueses, Paulo Vinícius Coelho ressalta que há também o sucesso do futebol português a influenciar. “Portugal é um país que tem, neste século, 71 títulos de técnicos portugueses em 30 países. É campeão da Europa, da Liga das Nações, tem jogadores como Cristiano Ronaldo e Bernardo Silva. É um país de 10 milhões que virou um país de futebol”, afirma o comentador.

Isto é suficiente para garantir que Abel Ferreira terá vida longa no Brasil? Como o próprio técnico ressaltou, ainda não ganhou nada, e o volátil futebol brasileiro rejeita tão rápido quanto abraça. Sá Pinto já é questionado no Vasco, com apenas 12 jogos, Jesualdo saiu do Santos após 15 partidas, Augusto Inácio caiu no Avaí após sete jornadas. “Não adianta trazer o Sá Pinto para discutir a qualidade do trabalho dele depois de 12 jogos. Em qualquer empresa, três meses é período de experiência. No Brasil é tempo de demitir o técnico”, lamenta Paulo Vinícius Coelho.

No primeiro mês, Abel trouxe mais lembranças de Jesus do que de Jesualdo ou Sá Pinto. Caso ganhe algo, vivenciará outra característica do futebol brasileiro. Os clubes podem ser rápidos para encerrar trabalhos considerados ruins, mas o adepto brasileiro também não costuma esquecer o bom futebol. “O Jesus fez tudo certo para que ele virasse objeto de culto, de idolatria, ainda mais no clube com mais adeptos no Brasil. Até, infelizmente, quando ele fala besteira, como no caso do racismo, ainda tem quem o defenda por ser o Jorge Jesus. Se fosse qualquer outro, a pessoa estaria a criticar. Se ele entrasse um dia com a camisola do Vasco enquanto treinava o Flamengo, os adeptos bateriam palmas para ele”, garante Mauro Beting.