Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Futebol internacional

Vertonghen admite ter jogado nove meses com tonturas e dores depois de sofrer pancada na cabeça

O defesa central belga, hoje no Benfica, confessou que a época passada foi muito afetada por uma pancada que sofreu na cabeça - o que pode revelar sintomas de concussão - e que continuou a jogar por ser o último ano de contrato com o Tottenham. Em outubro, Vertonghen fraturou um osso facial devido a um choque com um adversário no encontro contra o Moreirense

Diogo Pombo

Quality Sport Images

Partilhar

"É a primeira vez que falo sobre isto."

Esta vez é sobre aquela vez de há ano e meio, o Tottenham e o Ajax estão em Londres, no estádio está um maralhal de gente a vê-los, quem é visto são os jogadores e às tantas vê-se uma bola a voar para uma das áreas e três corpos projetarem-se para a encontrar no ar. Era uma calamidade iminente a gravitar, lá foram as mãos do guarda-redes André Onana à bola, lá se tentou elevar o cocuruto de Toby Alderweirald e lá estava a testa de Jan Vertonghen.

E lá se deu a colisão das três forças para o grande mal de uma delas, foi a cara deste último defesa belga a embater na cabeça do conterrâneo com quem se emparelhava na defensiva do Tottenham e nessa vez Vertonghen tombou, ficou caído no relvado, sangue a escorrer-lhe face abaixo e todo ele a cambalear quando o levantaram. Precisou de ser sustido em ombros para se encaminhar em direção ao banco de suplentes e lá foi limpo, tratado e em teoria avaliado para, pouco depois, regressar ao campo.

Essa vez levou Jan Vertonghen a esta primeira vez, porque ele ainda jogou uns minutos até ser substituído e na semana seguinte estava a jogar em Amesterdão, com uma proteção na cara, muitas mais vezes se contaram de o belga a jogar e a ir jogando e diz ele que foram nove meses a sentir coisas, que são mais sinais, de que deveria ter estado quieto: "sofri muitas tonturas e dores de cabeça por causa desse choque, por isso é que não consegui render o que queria em campo".

Matthew Ashton - AMA

O belga confessou-o na terça-feira, à "Sporza TV" do seu país, admitiu que "não sabia o que fazer" pois acontecia "jogo após jogo, treino atrás de treino, havia sempre um novo impacto" e isto que contou não é algo distante, sucedeu durante a época passada. "Só tinha mais um ano de contrato, por isso tinha de jogar. Mas quando joguei, joguei mal. Poucas pessoas o sabiam, mas foi uma decisão minha", explicou nesta vez em que quis argumentar sobre algo aparentemente inexplicável por no cerne ter a sua saúde.

Depois seria a vez da pandemia, o futebol nunca estaria imune e "chegou o confinamento" que possibilitou a Vertonghen "descansar durante dois meses". Depois disso, "sentiu-se muito melhor", a vida continuou no Tottenham até aquela vez em que o telemóvel tocou, era o nome do empresário no ecrã e a sua voz lhe trouxe a novidade de o Benfica lhe oferecer um contrato de três anos para jogar em Lisboa. Cá está o belga agora.

E quantas mais vezes serão necessárias até que o futebol, no seu abstrato, e quem manda no futebol, no particular da FIFA e do IFAB (quem discute e decide sobre as regras), por fim haja em relação a choques e pancadas na cabeça e o real risco de concussão cerebral, um tipo de trauma crânio-encefálico que tem tonturas e dores de cabeça como alguns dos sintomas.

Matthew Ashton - AMA

Porque já vai tarde para adotar o que outras modalidades há muito se dignaram a ter, como obrigar qualquer jogador a ficar 10 minutos fora de campo a ser avaliado por médicos, permitir substituições temporárias ou autorizar as equipas a ter uma substituição definitiva caso seja necessário retirar o atleta do jogo.

Não basta ter protocolos publicados nos sites da UEFA e da FIFA com o lema "in doubt, sit them out". Não chegar retira um jogador na dúvida de ter ou não sintomas. Já deveria existir a certeza de medidas que protegem a saúde de quem está lá dentro enquanto adeptos, televisões, audiências, marcas e marketing giram em torno do futebol que também só existem se houver quem o jogue. Porque, infelizmente, casos como o de Jan Vertonghen continuarão a repetir-se.

Ainda em outubro, já instalado no Benfica e sem as tonturas, o central belga chocou com a cabeça num adversário do Moreirense. Dessa vez continuou em campo, mesmo com a fratura facial no malar direito que sofreu, a mesma a que foi reavaliado nos dias seguintes, já na seleção da Bélgica, onde se optou por não o deixar jogar no par de encontros da Liga das Nações que se seguiriam.

  • O futebol, o choque de cabeças e o risco de concussão cerebral continuam numa relação complicada
    Futebol nacional

    Em dois dias, houve dois choques feios de cabeças na Premier League e na Liga NOS. Só Raúl Jiménez, o jogador que ficou inanimado e com uma fratura no crânio, abandonou o jogo. Os outros (Nicolás Otamendi, David Luiz e Rodrigo Pinho) foram remendados e regressaram ao campo nem 10 minutos depois, que é o tempo obrigatório no râguebi para um jogador permanecer fora, a ser examinado por médicos, enquanto um substituto provisório ocupa o seu lugar. Falta assim tanto para que as regras do futebol permitam algo parecido? O IFAB só começou a discuti-lo em outubro de 2019, em janeiro deste ano criou um grupo de trabalho dedicado à concussão cerebral e disse que "testes preliminares" das substituições temporárias poderão começar em 2021