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"Felicitats, Leo!": Messi igualou Pelé, mas continua com a mesma cara

O Barcelona está moribundo, a sua forma continua intermitente, a equipa comete erros atrás de erros, mas, no meio da anormal banalidade do jogo contra o Valência (2-2), Lionel Messi igualou o recorde de um rei: chegou aos 643 golos marcados por um só clube, como Pelé o fez ao serviço do Santos

Diogo Pombo

Pressinphoto

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A cara é a dele, é a que tem, não há outra e muito menos agora, rocambolesca que está a sua convivência com o clube do qual não é maior, mas é quase, nenhum futebolista supera uma instituição embora esta, já lá vão mais de 10 anos, se tenha elevado por ter Messi a ser Messi e a fazer coisas messiescas que só ele, por ser Lionel Messi, está capacitado para as executar. Mas este momento, quando o argentino está com a cara e os olhos vidrados num vórtex de vazio, não é Messi.

Ele avança para a bola imóvel a 11 metros da baliza e denuncia a patada para a esquerda, o guarda-redes Domenéch barra-o com uma palmada e o resquício deste choque fica na área. A bola sobra para outros e outrem do Barcelona pica-a para o segundo poste onde ficou o frouxo argentino, desalentado pela falha se bem que ainda ligado à corrente, porque a jogada não morreu e acabou por reavivá-lo. O passe picado encontra-lhe o salto e marca de cabeça, coisa muito pouco Messi.

O gesto denegrece-o se o virmos dividido em frames, por fotografias captadas ao milésimo: o salto é desengonçado, os braços baloiçam sem graciosidade, a queda é desamparada e ele tomba de forma encolhida, com receio de embater no poste que estava perto. Quando Messi faz o 1-1 contra o Valência está em estado vulnerável e não apelativo à vista.

Mas celebra, claro que festeja, é golo destes golos caídos de nenhures está o Barcelona bem necessitado pelo quão pouco tem jogado e tão errático tem sido esta época, sendo-o novamente neste jogo. O argentino festeja com os seus, olha para cima e algures no topo da arriba íngreme que são as bancadas de Campo Nou está uma mensagem. "Felicitats, Leo!", luze um dos ecrãs do estádio, que não parabeniza por este golo, mas pelo acumular de golos.

É o 643.º que Lionel Messi marca no Barcelona.

A anormalidade de como surge o último dessa maralha alinha-se com a raridade do feito que só um homem antes do argentino conseguira, um homem que os brasileiros guardam como superior a todos os homens por o terem como rei. No seu tempo, Pelé marcou 643 golos pelo Santos e agora surgiu messiânico feito de o igualar. O adjetivo é de Messi numa altura em que ele é cada vez mais verbo.

Eric Alonso/Getty

Porque o argentino recebe, finta, tabela, remata e remata e remata, passa, cruza e tenta fazer jogar uma equipa que mesmo tendo-o, joga pouco. O Messi no seu máximo de espetacular e formidável, no meio de um Barcelona incrível, já lá vai, como foi e eram neste dia há 11 anos, quando o clube conquistou o Mundial de Clubes com Pep Guardiola e foi a primeira equipa a ganhar seis títulos relativos a uma mesma época.

Esses tempos idos estão a galáxias de distância deste Barcelona ao qual até dá comichão tratar por Barça, na alcunha subentende-se estar um futebol atrativo, atacante, dinâmico e abusador, não uma posse de bola passiva e uma tremedeira desorganizada a cada perda de bola e reação do adversário.

O Valência ainda faria outro golo, teve oportunidades para em contra-ataque fazer mais uns quantos, o central Ronald Araújo empatou com estilo no fim de uma jogada atabalhoada e evitou-se uma derrota mais do que lutar por uma vitória, como o Ronald que estava no banco indiciou com as suas decisões - aos 79', tirou Philippe Coutinho, um médio de ideias soltas, para colocar Clément Lenglet, um defesa central. E a gravidade a puxar o cabisbaixo de Messi.

Os recordes ainda aparecem, o argentino vai marcando e pincelando coisas que são só dele, surgidas do acaso ou inspiração própria e não por a equipa lhe dar condições para tal. O Barcelona prossegue na sua decadência rumo a não se sabe bem o quê e Lionel Messi, aos 33 anos, está sempre com a mesma cara, a que antes só se lhe via nos raros episódios de tristeza, na ocasional derrota importante. A cara de vazio, de nem ele saber o que virá a seguir às felicitações que o ecrã do estádio lhe dirige.

E o olhar de Messi foi o mesmo neste recorde. O de quem não faz ideia de como resolver o Barcelona.