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Mikel Arteta refugia-se nas estatísticas, mas o suave Arsenal não é uma questão matemática pura

No campo, a equipa londrina já não mostra a queda por escolher o passe vertical certo, no momento certo, que demonstrou na parte pós-confinamento da época passada. O Arsenal é passivo a defender, não tem mostrado ideias ou capacidade para as executar para atacar a baliza adversária quando chega ao último terço do campo e o treinador, Mikel Arteta, tem-se refugiado nas estatísticas, probabilidades e fortuna para defender a sua incredulidade com os oito jogos seguidos sem vencer em provas inglesas. Este sábado defronta o Chelsea (17h30, Sport TV1), contra quem cruzar muito a bola para a área poderá não ser suficiente

Diogo Pombo

CLIVE ROSE/Getty

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Acabou o jogo e disse, duas vezes, "concedemos um soft goal". Conceder não é o mesmo que sofrer, implica uma certa leviandade e abertura metafórica, como quem dá de barato a hipótese de algo se passar escolhendo não mexer uma palha para o resolver. No futebol, ver como suave um golo que entra na baliza da nossa equipa não é adjetivação usual: um golo pode metamorfosear-se de muitas formas e a suavidade, de facto, pode ser uma entre muitas e tal vira imbróglio quando isso deixa de ser ocasional.

Mikel Arteta descreveu dois golos como suaves, mas a brandura está a criar raízes no Arsenal e o próprio treinador foi brando ao excluir da suavidade o outro par de golos sofridos pela equipa contra Manchester City, na terça-feira. A comunicação cinésica do espanhol é robótica e reveste-lhe toda a postura que apresenta à mesa, diante de microfones e jornalistas, em mais uma comparência perante as câmaras na qual teve de explicar agruras pelo oitavo encontro seguido, número que o Arsenal leva sem ganhar nas provas inglesas.

O treinador até teve razão: a equipa terá concedido golos, mais do que os sofreu: no 0-1, o autómato Cédric perseguiu o adversário que começou a jogada à sua frente, sem ligar às repercussões que teria ele ser arrastado e, no 1-2, o guarda-redes Rúnarsson amanteigou para a baliza a bola do livre de Mahrez que tentou agarrar. Faltou-lhe reconhecer a suavidade do Arsenal nos golos seguintes.

No 1-3, mesmo havendo fora-de-jogo de Foden sem que haja VAR na Taça da Liga para o ver, a equipa foi ultrapassada num contra-ataque em que tinha seis jogadores para quatro do City; no 1-4, um canto batido curto provocou exatamente o que o mais ingénuo dos futebolistas saberia ser a sua intenção - fez toda a linha do Arsenal, na área, olhar apenas para a bola, dar uns passos em frente e pasmar-se com os dois centrais adversários a atacarem o buraco para onde foi cruzada a bola.

Esta esmiuçar dos golos marcados pelo Manchester City vai longo, mas é necessário porque serve de resumo do que o Arsenal tem sido, esta época, depois de augurar coisas boas no período pós-confinamento da anterior - uma passividade e suavidade sem a bola, uma equipa que dá a sensação de estar demasiado presa a mecanismos ensaiados em treino, um conjunto de jogadores que coletivamente resolvem muito pouco.

Ouvir Arteta dizer que o Arsenal concede golos suaves, portanto, não é descabido.

Nick Potts - PA Images

Sem a bola e quando lhe toca defender-se do adversário, os jogadores têm reagido mais do que agido e chegam muitas vezes tarde à cena. A equipa junta linhas e tenta cerrar os espaços entre elas, mas depois é expectante, cada jogador espera para ver e basta um movimento de um contrário à procura de espaço para voltar a receber uma bola que passou e lá se vai a organização do Arsenal. "A forma como estamos a perder jogos e o lugar em que estamos, é bastante incrível", desabafou o treinador, há um par de semanas, incrédulo com a conspiração que o universo futebolístico têm abatido sobre a sua equipa.

Arteta disse-o, na altura, não propriamente devido à capacidade defensiva da equipa, que ainda assim tem sido melhor do que o problema mais aparente da equipa: a inaptidão para observar o campo, identificar onde há ou pode haver espaços e atacar a outra baliza.

Aos poucos, o Arsenal mostrou a agonizante falta de ideias ao chegar com a bola aos últimos 35 metros de campo, onde as grandes ideias se distinguem das previsíveis e os jogadores capazes de as ter, e definir, se chegam à frente em conjunto naquela palavra que tanto é badalada nas vozes dos treinadores. O coletivo, essa noção abstrata que o Arsenal tem, não a tendo, porque tem resolvido poucos problemas no terço do relvado mais próximo da baliza dos adversários. Esta época, o Arsenal já esteve quase dois meses sem conseguir um golo de bola corrida na Premier League.

Praticamente não se tem visto a queda para a verticalidade e a escolha do passe certo, no momento certo, que os londrinos evidenciaram a partir do momento em que a pandemia tirou os adeptos aos estádios, sobretudo contra equipas de igual ou maior força (Manchester City, Chelsea, Manchester United e até o Liverpool) que optavam por começar a pressionar na sua saída de bola.

Os adversários já não plantam essa pressão na área do Arsenal, em todo o lado há cabeças pensantes que estudam e se adaptam, mas, a cada jogo, parece que Mikel Arteta não tem conseguido adaptar a equipa às circunstâncias. O técnica vai trocando entre o 3-4-3 que conquistou a Taça de Inglaterra e a Taça da Liga, a temporada passada, e um 4-2-3-1 que parece apatizar a equipa e retirar-lhe as fugas de pressão desde trás que o primeiro sistema lhe dá.

WILL OLIVER/Getty

E há as peças que o compõem.

A errática existência de David Luiz em campo parece acentuar-se com a idade e, dos nove defesas centrais disponíveis, apenas Gabriel Magalhães e Kieren Tierney (um lateral adaptado) têm sido constantes no rendimento. A meio-campo, a filtragem de passes de Xhaka é monótona; Ceballos livra a equipa de muitos sarilhos por muito resistir à pressão, mas é inconstante; Elneny é um trabalhador que precisa sempre de alguém ao lado que dê o resto e as lesões não têm largado o reforço Partey. E quem quer que seja a parelha, é costume jogarem alinhados e sem rasgo para se movimentarem entre as linhas contrárias.

Na frente, o modo-deus no qual Aubameyang parecia jogar a época passada fazia-o ser o fim bem-sucedido de todas as transições rápidos que então saiam a monte no Arsenal, partindo da esquerda para o meio de modo a curvar remates que aniquilaram muitos adversários. Era a ponta da lança direta e eficaz que esperançou muita gente na evolução deste Arsenal.

Mas, esta temporada, essa forma foge-lhe, só tem três golos internamente e como o seu contributo sempre foi finalizador - aparece muito pouco na invenção de jogadas -, tira-se-lhe o golo e a presença em campo do gabonês dá pouco à equipa. Lacazette tem cinco, mas é-lhe pedido que se afaste da área e recue metros para tocar na bola, que se associe à equipa em que pouca gente mostrar querer fazê-lo. Pépé é a inconstância em pessoa, um extremo de fogachos e cujas ações não se viram para quem joga com ele. O reforço Willian tem-se mantido à espera da bola, encostado a uma linha.

O Arsenal regrediu e joga, de novo, um futebol lento, previsível e de fácil manuseamento para quem o defronta. A equipa e os jogadores estão moles e sofrem golos suaves. É Mikel Arteta quem o diz e ele também disse que é incrível estarem no 15.º lugar da Premier League por uma questão de "pura matemática".

Laurence Griffiths/Getty

No início de dezembro, após a derrota (2-0) com o Tottenham de Mourinho, o treinador divagou. "O ano passado ganhámos ao Everton com uma probabilidade de 25% de vitória (...) no fim de semana passado tínhamos 67% de hipóteses de vencer e 9% de perder, e perdemos - era 3% contra o Burnley e perdemos, 7% contra o Tottenham e perdemos". O espanhol, apuraria o "The Athletic" nos entretantos, baseou-se nos expected goals (xG), o pedaço de estatística que mede a qualidade das oportunidades de golo criadas até ao momento em que se a vai rematar.

Logo, o treinador afunilou os problemas a um só, reduziu a questão e estando, ou não, refletido o que pensa no que diz para fora, parece acreditar que a errância do Arsenal está presa à fortuna. À sorte e ao azar.

Sofrida outra derrota (2-1), frente ao Wolverhamton de Nuno Espírito Santo, em que apenas três de 35 cruzamentos feitos fizeram a bola chegar a alguém na área, Arteta teve um discurso mais desejoso do que factível quando lhe perguntaram por o que faltou à equipa: "Se fizermos isto de forma mais consistente vamos marcar mais golos. Se colocarmos os corpos que tivemos nos momentos certos na área, é matemática, é pura matemática, e vai acontecer". Contra o Tottenham, tinham sido 44 os cruzamentos.

Só que não o é. Se o fosse, a todas as equipas bastaria colocar quatro ou cinco jogadores na área e ter alguém a bater a bola como deve ser para o golo ser provável. O cruzamento como maneira de chegar à área envolve o número de jogadores que lá chegam, sim, mas tudo mais: que espaço ou poste atacam; de onde devem partir; que marcações devem arrastar; quando devem movimentar-se; onde se cruza a bola e como (rasteira, aérea, picada, tensa, etc.).

Cruzar por cruzar é garante de coisa nenhuma, assim como o cruzamento não é sinónimo de desespero ou ausência de um plano. Na Premier League passada, por exemplo, Manchester City e Liverpool foram as equipas que mais vezes cruzaram em média, por jogo. Os de Pep Guardiola têm há muito o hábito de tocar e ir tocando a curta distância as jogadas, entrando na área e cruzando rasteiro, e para trás. Os de Jürgen Klopp desfrutam de Alexander-Arnold e Andy Robertson, talvez os laterais que melhor cruzam de momento, quase passando a bola para o retânculo tal é a eficácia que lhes sai dos pés.

E nenhuma das equipas pode luzir o argumento de ter tipos grandes, fortes, altos e, continuando o lugar-comum, portanto bons de cabeça na área, à espera de bombardeamentos pelo ar. Ter um jogador desses nunca será justificação singular ou desculpa a usar.

Mikel Arteta tentar explicar as desavenças do Arsenal com os resultados e a qualidade de jogo puxando por matemáticas e probabilistas é que já pode denotar falta de soluções para a estagnação da equipa.