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O primeiro grande jogo de 2021 é entre equipas que têm de jogar mais, render mais e mostrar mais

O Chelsea e o Manchester City são os dois clubes ingleses que mais dinheiro gastaram em contratações, no verão. Estão em 6.º e 8.º da Premier League, só venceram sete de 16 partidas e defrontam-se este domingo (16h30, Sport TV2). Será uma colisão das equipas em que o desfasamento entre a qualidade per capita disponível e o rendimento no campo tem sido maior

Diogo Pombo

Charlotte Wilson/Offside

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O casaco impermeável é largueirão. Assenta-lhe com folga e tem ar de ser quente, com certeza o aquece porque não o fecha apesar da tromba de água generosa que cai no não temperado clima do nordeste inglês. Apenas tapa a cabeça com o capuz, ao ponto de lhe fazer sombra até ao nariz e desviar as atenções para a camisola também larga que veste por baixo. Os treinadores não obedecem a códigos de vestimenta, muitos escolhem a camisa e a gravata mesmo que trabalhem mais com relva a roçar-lhes nas solas do que com secretárias e escritórios, mas, até para os standards de Pep Guardiola, este é um visual descontraído.

Ou casual, dito e lido com sotaque inglesado que é como as modas mandam sabe-se lá porquê, tanta foi a casualidade nos adornos do treinador que a internet, não importa quantas vezes se pesquise, devolve sempre a montagem parodiante, em vídeo, de Guardiola a falar enquanto rola uma canção de Eminem. Parece que nada disse na entrevista pré-jogo em questão, antes do Manchester City-Newcastle, porque como as coisas estão hoje, algo não existe se não existir na internet.

Mas, em compensação, há muitos resultados para o que opinou o espanhol no final da partida. "Jogámos tão bem e a um bom nível em todos os termos, a defender bolas paradas e tudo. Mexemos bem a bola, encontrámos espaços por fora e chegámos à frente da baliza muitas, muitas vezes", defendeu tão seguro de si, já com um fato de treino do clube a ornamentar o treinador.

A sul, em Londres, outro treinador está mais taciturno e escurecido pelo negro de toda a roupa que tem, as vestes têm outra formalidade e envergonharia ninguém se, na hora seguinte, fosse jantar a casa dos sogros pela primeira vez. O Chelsea-Aston Villa já terminou, não chove, Frank Lampard tem a cabeça destapada e sorri, um sorriso que lhe encolhe os ombros e ficamos na jiga-joga da dúvida se é verdadeiro, ou não.

E ele diz: "Jogámos bem, contra um adversário duro. Houve fases com jogadas muito boas da nossa parte. Acho que jogámos um futebol bastante bom, com jogadas expansivas a furar linhas, o Pulisic, o Mount e o Hudson-Odoi fizeram coisas boas".

Nas palavras de Guardiola e Lampard há a semelhança de elogios ao que as suas equipas fizeram, foram discursos qualitativos para destacar a forma como Manchester City e Chelsea jogaram e, na visão dos treinadores, se fartaram de executar coisas positivas. É o paralelismo entre ambos, provado que está não ser a indumentária e muito menos os resultados dos jogos nos quais proferiram estas palavras - o Manchester City ganhou 2-0 ao Newcastle, o Chelsea acabou no 1-1 frente ao Aston Villa.

É uma outra coincidência que os une esta temporada.

Tendo o Chelsea e o City a qualidade per capita que ostentam, fruto de terem sido os mais gastadores - uns chegaram aos €247 milhões, os outros aos €171 milhões - no mercado de verão que se esperava mais contido, dado o bicho que está no meio de nós, era natural esperar-se maior rendimento de ambas as equipas, em vez de terem 26 pontos na Premier League, serem o 6.º e 8.º classificados e já se terem queixado, várias vezes, das amarguras do seu desempenho.

Matt McNulty - Manchester City

Não que se esperassem mundos de futebol atacante, goleador, fluído sem emperrar e com todos os jogadores a serem capaz de atinar sempre o melhor deles próprios com os outros, porque esta é a época dos futebolistas que mal tiveram férias, dos nove ou 10 meses de jogos a cada três dias para toda a gente e com os pontapeadores da bola a serem picadinhos de carne para se apertar tudo o que é competições no calendário.

No lado azul de Manchester o problema não parece ser momentâneo, mas de época, será um encravamento provocado pelas circunstâncias desta temporada que o treinador estará a ficar mais calvo ainda só de tentar averiguar como o ultrapassar. O City não é o City da última temporada ou da anterior, quando à 16.ª jornada tinha 44 golos e 32 pontos, em 2019/20, e 45 golos e 41 pontos em 2018/19, este City dos 21 golos e 26 pontos tem uma magreza em campo, e de jogo, que se parece acentuar desde a fase do ano passado em que se deixou ir quando percebeu estar a caminho de terminar a 28 pontos do líder Liverpool.

Este City não tem o ímpeto incessante em chegar à área adversária, a teima em ir de passe curto em passe curto, de combinação atrás de combinação sem esforço área dentro, até arranjar forma de com um derradeiro amortecimento de bola colocar alguém a quase passá-la à baliza. O City da linha defensiva plantada na metade do campo adversária e de cada bola perdida ser quase por regra recuperada uns meros segundos depois, para ser filtrada de forma veloz e com poucos toques pelos médios, não é este City.

Este City tem dificuldade em marcar golos, como Guardiola admitiu há semanas, não tem o fogo no olhar e nas correrias dos jogadores de quem quer provar-se e atropelar toda a gente e, dentro disto, há os problemas singulares: as lesões têm sido a sombra de Agüero, o fornecedor de golos que tem 256 minutos de futebol esta época e começou só três jogos; o velho problema dos laterais persiste, agora mais à esquerda, porque João Cancelo tem feito pela vida à direita; já não há a pausa e a calma de David Silva nos espaços curtos, a demorar um segundo quando De Bruyne, Sterling ou Mahrez, por mais geniais que sejam, sempre optam pela via de aceleração.

Ganharam sete jogos em 16 na Premier League, os mesmos que o Chelsea.

Em Londres, contudo, os problemas não têm o mesmo ar duradouro. Até há duas semanas, a equipa estava numa série de 17 jogos sem derrotas em todas as provas, uma prolongada isenção do resultado menos desejado que não mascarava tudo, embora mantivesse o Chelsea com uma almofada na qual basear tudo o resto. A partir de 12 de dezembro, perdeu três encontros e empatou outro nos cinco que fez e as lupas incidiram com maior insistências nas coisas que não impressionavam.

Rich Linley - CameraSport

Neste quinteto de partidas mais recente, o Chelsea tem sido apático e passivo sem bola, os jogadores avançam no campo para a equipa defender logo na área adversários mas limitam-se a estar na posição, sem realmente pressionarem. A prova mais óbvia apareceu no 3-1 sofrido no estádio do aflito Arsenal, que os ultrapassou à mínima jogada feita com mais velocidade e fez Lampard, no final, questionar a atitude dos jogadores e culpá-los subliminarmente pela ruína evidenciada durante hora e meia.

Os temperos que pioram este prato, depois, vêm da intermitente forma de alguns futebolistas, Kai Havertz e Timo Werner os mais descarados. O primeiro é o prodígio canhoto que virou a contratação mais cara de sempre do Chelsea, um 10 que encantou na Alemanha a jogar nas barbas dos defesas e nas costas dos médios pela simplicidade de ideias e facilidade em decidir acertadamente o que fazer, mas que Lampard insiste em ir experimentando uns metros atrás, como 8, a ter corridas iô-iô que o afastam da baliza. Não tem resultado.

O segundo é o frenético atacador de profundidade e opção sempre disponível para ser o acelerador da bola no derradeiro terço do campo, onde é cirúrgico a atacar espaços a alta velocidade, modus operandi que usou para deixar 95 golos em 159 jogos no Leipzig. Caixa registadora que ainda não replicou no Chelsea, onde vai em 11 jogos sem marcar e tem revelado sintomas de falta de confiança nas ações que precedem a finalização. Contra o Aston Villa começou no banco de suplentes, primeira vez que tal sucedeu na Premier League.

Frank Lampard elogiou a equipa apesar do empate nessa partida, gabou-lhe as jogadas ligadas e as combinações entre os engenhosos da frente, juntos produziram mais embora não tenham engrandecido o resultado, mas, no que não é palpável para tanta gente, houve progresso. Como o houve na equipa de Pep Guardiola, ressuscitadora de certos flashes do jogo de bola a circular rapidíssimo de um lado ao outro e com poucos toques nos médios-pivô, para deixar os desequilibradores livres no espaço aberto para atacarem quem tiverem na frente.

Foram vislumbres das suas possíveis melhores versões. Ou melhoradas, pelo menos. Ano novo pode nada querer dizer e rimá-lo com jogo novo era forçosamente previsível. É de melhoramentos que Chelsea e Manchester City estão necessitados, de uma volta dentro do guarda-roupa para de lá saírem com trapos que lhes assentem melhor.