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“Discriminação, dogmatismo e intolerância”. Futebolistas do Uruguai criticam a federação inglesa pelo castigo imposto a Cavani

A Associação de Jogadores de Uruguai classificou de "totalmente reprovável" o castigo de três jogos imposto a Edinson Cavani, após escrever "obrigado, negrito" numa publicação nas redes sociais. Os futebolistas pediram a despenalização do avançado do Manchester United e consideram a sanção como um "ato discriminatório contra a cultura e a forma de vida dos uruguaios", defendendo que a Federação Inglesa "deveria ter em conta a pluralidade de formas de viver e de cultura das pessoas"

Diogo Pombo

Robbie Jay Barratt - AMA

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Um amigo elogia-o, Cavani lê-lhe a eulogia com o provável telemóvel esperto na expectável palma da mão e dedilha a resposta curta. O "obrigado, negrito" é publicado no limbo da internet e partilhado para milhões, o uruguaio acaba de marcar dois golos ao Southampton e agradece uma de muitas congratulações que terá recebido. Coisa de um mês depois, o Football Association (FA) suspende-o por três jogos e aplica-lhe uma multa de 111 mil euros devido a "conduta imprópria" e entre as linhas escritas está a subliminar condenação por alegada conduta racista.

Cavani já pedira desculpa, apagara a publicação e refugiou o perdão no teor carinhoso da expressão. Explicou a cumplicidade com a pessoa visada e o significado sociocultural, no Uruguai, da palavra em causa, escrita e partilhada com o mundo enquanto é jogador do Manchester United, joga na Premier League e vive em Inglaterra. "O Cavani e o clube têm a certeza de que a mensagem não tinha qualquer intenção maldosa, ele apagou-a e pediu desculpa, a partir do momento em que foi informado que poderia ser mal-interpretado", explicaria também o clube.

Mas a sanção impôs-se, o uruguaio já esteve uma das três partidas longe da equipa e a Associação de Futebolistas do Uruguai resolveu manifestar-se em apoio a Cavani e protesto contra a atuação da FA.

Fizeram-no esta segunda-feira e o comunicado é longo, seis parágrafos de crítica à condenação da federação inglesa. Denunciam "a arbitrariedade" da entidade, que ficou "longe de realizar uma defesa contra o racismo" por, ao invés, ter "cometido um ato discriminatório contra a forma de viver e a cultura dos uruguaios" através do castigo aplicado a Cavani: "revela uma visão enviesada, dogmática e etnocêntrica que não admite mais do que uma leitura que se quer impor a partir do particular e exclusiva da interpretação subjetiva, por mais equivocada que esteja".

Defendem que o castigo expressa a "total ignorância e desprezo" da FA por uma "visão multicultural do mundo" e "respeitadora da pluralidade". Criticam-lhe a "aplicação unilateral e rígida das suas regras anti-racistas", cujo fundamento os futebolistas uruguaios apoiam, mas que "não foi aplicado de forma racional ao caso" do avançado do Manchester United. "Não se condenou uma pessoa, condenou-se a nossa cultura e forma de viver. Isso sim é discriminatório e racista", argumentam.

O documento, já partilhado por Diego Godín, capitão da seleção do Uruguai, apela a que a federação inglesa "reveja com urgência os seus processos de decisão a relação a estas questões" para "não mais cometer uma injustiça semelhante". Pede também a despenalização de Cavani "de forma imediata" para "restaurar o seu bom nome e a sua honra perante o mundo, injustamente manchados por esta decisão reprovável".