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Manual para tótós: quando um futebolista quer irritar o clube para se ir embora

Didier Lamkel Zé é um extremo camaronês do Antuérpia que apareceu para treinar com a camisola do Anderlecht vestida, pintou o seu nome a marcador no cacifo do balneário e partilhou montagens suas como jogador do Panathinaikos, da Grécia, para onde se quer transferir. E ainda ameaçou: "Amanhã vou aparecer com uma camisola do Beerschot"

Diogo Pombo

DeFodi Images

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A barba é-lhe farta e o boné assenta-lhe na cabeça, o buraco onde está a fivela deixa espreitar para dentro do terraço rapado e Didier Lamkel Zé é todo um vislumbre de descontração, o espelho do elevador reflete-o algures durante o caminho do que estava a ser, viria a ser ou já era um escárnio propositado.

Didier Lamkel Zé é um extremo camaronês, tem 24 anos e apareceu no centro de treinos do Antuérpia, tal e qual o reflexo nessa caixa ascensora, o boné, a barba e o relaxamento combinados com a camisola do Anderlecht que tem vestida. É um desplante flagrante de manga curta no frio da Bélgica a encaminhar-se para a sessão de trabalho da primeira equipa do clube.

Mas, na segunda-feira, as portas não se abrem. É barrado à entrada, há tempo que Didier Lamkel Zé está condicionado a treinar com a equipa B do Antuérpia, com o qual anda desaguisado faz já algumas semanas e o resumo é curto de se fazer: o jogador quer ir embora, o clube quer lucrar financeiramente com a sua ida, no meio estaria a virtude que tantas vezes não se encontra no futebol.

Parece ser o caso desta história, que tresanda a desentendimento escalante devido às outras coisas que o jogador camaronês tem feito longe do campo.

Didier Lamkel Zé não joga pelo Antuérpia desde 2 de outubro. Os minutos passados ao telemóvel, nas redes sociais, têm-lhe ocupado o tempo, sobretudo no Instagram onde publica histórias em tons de verde e branco, nada a ver com o vermelho que predomina no clube que lhe paga o salário.

O jogador tem partilhado imagens que o pintam como jogador do Panathinaikos, da Grécia, treinado há cerca de dois meses por Laszlo Bölöni, romeno das associações também verdes e brancas a Portugal que Didier Lamkel Zé quer reencontrar - o técnico esteve no Antuérpia nas últimas duas épocas, durante as quais o camaronês participou bastante (29 jogos em 2018/19, 35 em 2019/20).

A quem lhe pergunta no Instagram, o jogador já respondeu que sim, "dei o meu acordo", sem pudores em afirmar que já terá tudo tratado com o Panathinaikos, "as pessoas não podem brincar com a minha carreira", acrescentou, até dando como certo o fim "de uma bela história" na qual dá o remate final: "a minha cabeça já não está aqui". Tudo escrito na sua conta desta rede social.

D.R.

A isto somou a aparição vestido à Anderlecht - o clube está um ponto acima do Antuérpia, 5.º na liga belga e a lutar pelo acesso ao play-off que define o campeão - e o aviso para a iminente reincidência, dizendo que "amanhã será com a camisola do Beerschot". O dito clube é o 7.º classificado do campeonato da Bélgica.

Mais tarde, quando voltou a treinar com a equipa B do Antuérpia, o camaronês filmou o que deveria ser a mera parede branca do seu cacifo no balneário, que no caso estava pintada com a frase "Ici c'est ZL7", ou "Aqui é ZL7", aludindo às suas iniciais e número do plantel. "É simples: quero ir para a Grécia", publicaria no Instagram, durante os últimos dias.

O desejo de Didier Lamkel Zé em ir jogar para o Panathinaikos é comum à vontade em qualquer jogar de mudar de ares, mas o camaronês, como tantos outros, tem no contrato com o atual clube um vínculo duradouro (até ao verão de 2023) e está a fazer o que é prática incomum, de tão pública e escancarada que é.

Didier Lamkel Zé quer ir embora do Antuérpia e está a mostrá-lo, ou a forçá-lo, a toda a oportunidade que parece ter.