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Futebol internacional

Mostra-lhes por onde ir, Thiago

A primeira coisa bonita do jogo foi de Thiago e o último passe também, mas ele e o Liverpool não aproveitaram o embalo que tiveram na primeira parte e, na segunda, o Manchester United foi melhor e teve mais remates com tiques de golo. Mas o clássico inglês acabou em 0-0

Diogo Pombo

Phil Noble - PA Images

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Lamento, perdoem-me, desculpem a abertura desta comporta mas a minha culpa não está sozinha, vem de Thiago, a origem está nele e na primeira bola que lhe dirigiram na metade de campo do Manchester United, ele está de costas para a baliza, o adversário e as opções que teria se arranjar maneira de desentrelaçar este pequeno problema.

O que Thiago faz é intuir corporalmente que vai sair com a receção para a esquerda, inclina-se para esse lado e todo ele é um gesto a sugerir que vai dominar a bola para aí, mas quando lhe toca com o pé canhoto orienta-a para a direita e já prendeu o adversário à relva com a ilusão, por acaso era Bruno Fernandes e as desculpas não se devem a ele, porque qualquer futebolista seria encalhado pela simulação que é hispano-brasileiro.

O perdão é por começar por ele e afunilar o Liverpool-United numa só pessoa, um jogo não é um jogador, muito menos um momento de um jogador logo aos dois ou três minutos desse jogo, mas as migalhas que nos chegam do que magicam os neurónios dentro da cabeça de Thiago falam muito sobre o que tenta ser o Liverpool.

A beleza e boniteza que há na sua forma de jogar é um acréscimo incalculável, mas é no trato que dá à bola, em como a recicla em poucos toques e a acelera em cada passe que se vê a vontade do campeão inglês em não ser só aquela equipa verticalíssima, pressionante e contra-pressionante, a atropelar outras equipas pelo assomo da intensidade imposta quando o adversário se prepara para mudar de momento de jogo.

Porque, hoje em dia, quase todos os rivais assim o obrigam e, neste dia, o Manchester United também exige - defende em bloco médio/baixo, aproxima muito os jogadores, espera atrás e cerra o centro do meio-campo com Fred e McTominay - que o Liverpool saiba usar a bola quando a profundidade não está muito disponível e tem 11 corpos fechados à sua frente.

O United que é líder da Premier League é igualmente zeloso dos espaços ao meio, para onde Thiago olha e quer apontar passes fura linhas. Poucas bolas alcançam Firmino ou Shaqiri, o Liverpool atrai a pressão ao meio só que depois nem sempre é capaz de acelerar o jogo por fora, também Arnold e Robertson não têm o descaramento habitual em avançar os seus posicionamentos em ataque pois é este United líder que têm à frente.

A equipa que se fecha, é paciente e espera até reaver a bola e olhar rapidamente para Martial e Rashford na frente, se possível lançar-lhes a corrida com passes de Bruno Fernandes e assim vão fugindo nas costas dos centrais que não existem no Liverpool.

As lesões arrasam-lhe o plantel há semanas e Fabinho e Henderson são os médios puxados para perto da área, dão um jeitão à filtragem de passes no início das jogadas mas desabituados estão a terem que cobrir tanta relva livre nas costas. O Liverpool remata mais vezes e tem quase o dobro dos passes ao intervalo, mas é uma transição, uma falta e um livre batido por Bruno Fernandes que faz a bola passar mais perto das balizas.

Ash Donelon/Getty

Pode ter sido pelo conglomerado de jogos, pelo pouco descanso ou pela congestão desta época que a segunda parte é monótona no ritmo, que anda a trote como Thiago parece sempre mover-se, aqui sem crítica mas com constatação, no futebol há o cliché que é a bola que deve correr e em certos casos é mais do que bem fundado.

Mas, com o minguar de movimentos rápidos na frente da bola e na pressão feita logo após a perder, o Liverpool atrasa-se a chegar a muitas coisas feitas pelo United, cuja procura omnipresente do passe vertical vai ganhando sucesso com o tempo e deixando Pogba, Rashford ou Bruno com hipótese de serem perigosos perto da baliza.

A primeira bola com tiques de golo voltaria a ser do português, quando remata dentro da área um cruzamento rasteiro de Luke Shaw, numa de várias jogadas em que os de Manchester tiram um passe longo para fora da zona onde estão a ser cercados - quase sempre, para o lado de Robertson.

Quando as pilhas dos três diabólicos da frente se esvaziaram e o Liverpool perdeu a capacidade de afetar a saída dos visitantes. O United caiu com mais tempo e espaços sobre os médios adversários no último quarto de hora, chegou mais rápido à área e um remate de Pogba fez de Alisson o salvador do nulo.

O último passe tentado do jogo foi de Thiago: uma bola cortada para a área, das longas e lentas a voar, cortada por alguém do Manchester United de qualquer maneira, dando o sinal que o árbitro precisava. Tudo acabou ali, com um 0-0, e com a sua influência a ser mais preciosa em interceções de passes (sete, no total) do que em bolas passadas dos seus pés.

No Liverpool-Manchester United ficará colado um nulo de golos, um aborrecimento de jogo olhando apenas para o resultado. Será meia-verdade. Dentro dele, houve um Luke Shaw que secou o seu lado, uma dupla Fred-McTominay controladora do centro do campo e um Thiago Alcântara que com e sem a bola foi o melhor que houve em campo.