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“Foi um Cruijff com um ego normal”: um ano depois, temos de falar sobre Rensenbrink

Aquele remate ao poste, para lá dos 90 minutos na final do Mundial dos papelitos, roubou-lhe a gloriosa imortalidade e empurrou-o para uma gaveta esquecida. Mas o canhoto holandês, falso extremo com alma de 10, foi tão mais do que isso. Um artista. Este domingo, exatamente um ano depois da sua morte, recordamos Rob Rensenbrink à boleia de quem suspira por ele

Hugo Tavares da Silva

Onze

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“Parecia uma serpente a passar no meio dos defesas”, recorda Luís Norton de Matos, que em 78 deixou o Restelo para se mudar para o Standard Liège. O primeiro jogo fora deste ex-futebolista no clube belga foi contra o Anderlecht. “Tive o prazer e a honra de jogar contra o Rensenbrink três ou quatro vezes. Tinha um pé esquerdo fabuloso, fabuloso, com uma criatividade e talento fora de série. Tornava tudo fácil. Ninguém ficava indiferente. Talvez ofuscado pelo Cruijff, mas para mim era um segundo Cruijff.”

Pieter Robert Rensenbrink morreu há exatamente 12 meses, aos 72 anos.

Na altura os monstros eram criados pela rádio, bailavam no imaginário de cada um através da voz do radialista, enamorado pela profissão e pela fineza dos mais dotados. Só nas alturas dos Campeonatos do Mundo, através da TV, é que chegavam as confirmações dos rumores. “Era uma época mais épica nesse sentido, era como a música. Ouvíamos falar no que se ouvia nos Estados Unidos e Inglaterra, mas primeiro que chegasse cá… Os Mundiais é que fabricavam essa fama dos jogadores”, explica, nomeando gente como Johan, Beckenbauer e Gerd Müller para contextualizar o pouco destaque dado a Robbie. E lamenta: “O futebol ganhou em disciplina tática, mas perdeu a expressão artística. Havia mais espontaneidade, talento, agarrávamo-nos a isso. Agora há jogos em que o primeiro remate à baliza acontece aos 40 minutos, jogam todos muito cautelosos. Antes havia o futebol mais solto, mais livre, mais selvagem.” Rensenbrink, falso extremo com alma de 10, era um artista.

Basta ir-se ao YouTube e ver, por exemplo, as finais da Taça da Taças conquistadas pelo Anderlecht, em 76 e 78, para perceber o que Norton de Matos quer dizer. Parecia que jogavam por jogar. Não nos enganemos, ninguém queria ganhar mais do que eles, naturalmente, mas a bola tinha menos cadeados e pretendentes egoístas, viajava por botas mais despreocupadas. O caminho era para a frente.

Se o West Ham com o pai de Frank Lampard foi, apesar do 4-2, um jogo complicado, contra o Áustria de Viena foi um atropelo (4-0). Pelo meio, o Anderlecht perdeu a final da mesma competição, em 77, desta vez com o Hamburgo (0-2). Os relvados não ajudavam, os pés sim. Havia quem, malditos génios, conduzisse a bola com um pé e sacasse uma trivela com o outro. Felix Gasselich, abençoada feitiçaria, fez coisas assim na final de 78 entre austríacos e belgas. Para nem falar em Ludo Coeck. Os realizadores de televisão de então também ajudavam: raramente filmavam os treinadores, o futebol pertencia aos futebolistas, os tais que faziam e fazem coisas belas.

Nos tempos do Standard, onde Norton de Matos brincava com os colegas dizendo que só ele não era internacional A (acabaria por ser nos tempos do Portimonense), foi treinado na segunda e terceira épocas pelo mítico Ernst Happel, o austríaco que levou a seleção da Holanda à final do Campeonato do Mundo de 78, que acabou por ser vencida no prolongamento pela Argentina (3-1), a equipa da casa, depois de Rensenbrink chutar uma bola ao poste aos 90 minutos e 15 segundos. “O Happel falava muito desse golo que podia ter dado o Campeonato do Mundo à Holanda.”

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Nuno Madureira, jornalista, aprendeu o que era um remate com efeito graças a Rensenbrink. Foi em 78, com o pai e outras pessoas mais velhas, quando viu o livre direto do fabuloso canhoto na tal final contra os de Viena. “Há uma repetição, de trás da baliza, que se vê perfeitamente a bola a fazer a curva.” Madureira recorda aquele que foi um dos maiores “e se” da história do futebol que podia ter mudado tanta coisa. “Se essa bola tivesse entrado – e não era fácil entrar, como os protagonistas desse lance fizeram questão de lembrar pelo tempo fora –, teria sido Rensenbrink, e não Mario Kempes, o herói absoluto, o melhor jogador e melhor marcador desse Mundial. Teria sido a Holanda – e não a Alemanha, 36 anos mais tarde – a primeira seleção europeia a ganhar um Campeonato do Mundo em solo americano, vingando a laranja mecânica original, infinitamente mais sedutora.” Mais: “A lenda de Menotti e do menottismo não teria metade do impacto e as implicações na história política, futebolística e cultura da Argentina, a começar pelo fenómeno Maradona, estão para lá do que podemos imaginar. Talvez exagere, mas não por muito, se afirmar que para toda uma geração de miúdos como eu, o México-86 e, no limite, os próprios anos 80 começaram a desenhar-se a 25 de junho de 1978, quando a Tango saiu da bota esquerda de Rensenbrink e esbarrou no poste”.

O poderoso Anderlecht, na caminhada até à final da Taça das Taças de 78, tropeçou no FC Porto do "senhor Pedroto" nos quartos de final. Na primeira mão, nas Antas, Fernando Gomes fez o único golo, mas os belgas tratariam do assunto no Estádio Constant Vanden Stock (3-0). “O Rensenbrink foi um jogador que marcou profundamente o futebol”, recorda Octávio Machado, titular nos dois jogos dessa eliminatória. “Em todos os jogos ele aparecia. Era um jogador que não desaparecia nos grandes momentos.” Desafiado a recordar aquele triângulo de canhotos de alto gabarito - Coeck, Vercauteren e Rensenbrink -, que se encontrava no meio do terreno e noutras zonas, Machado responde com uma gargalhada serena. “Era uma coisa séria… E havia um jogador anterior, que era o Van Himst, que ainda é considerado um dos melhores jogadores belgas de sempre. Era um trio terrível, esquerdinos, tecnicamente muito evoluídos. O futebol belga, em termos de equipas de qualidade, tinha o Anderlecht como expoente máximo, com jogadores dessa qualidade.”

"Hans, Ludo Coeck, Rensenbrink e François van der Elst foram os principais obreiros da esplendorosa actuação do Anderlect [vs. FCP]", pode ler-se na crónica do "Diário de Lisboa"

"Hans, Ludo Coeck, Rensenbrink e François van der Elst foram os principais obreiros da esplendorosa actuação do Anderlect [vs. FCP]", pode ler-se na crónica do "Diário de Lisboa"

(1978), "Diário de Lisboa", nº 19607, Ano 57, Quinta, 16 de Março de 1978, Fundação Mário Soares / DRR

Que futebolista era este, afinal? “O Rensenbrink, para mim, é o Cruijff humano”, desabafa o escritor Miguel Lourenço Pereira, autor de livros como “Noites Europeias” e “Sonhos Dourados: 20 Mundiais - 20 Histórias”. “Tenho a sensação de que é muito difícil ver um jogador como Johan Cruijff, mas quando vês Rensenbrink a jogar vês muita coisa coisa de Cruijff. Falta esse ar de treinador em campo como o Cruijff tinha, de estar constantemente a dar indicações. Mas era um jogador que dominava os mesmos conceitos de jogo, um talento muito parecido, ocupava muitas vezes a mesma zona do terreno, o que o prejudicou na carreira internacional. É um futebolista que tem todas as coisas boas do futebol holandês dos anos 70. Tinha um entendimento do espaço tremendo, uma técnica apuradíssima, com golo, jogava com a baliza entre os olhos para ter aquele ar de predador de área, muito típico dos anos 70 holandeses. É um jogador que marcou uma era. Muito provavelmente, até 75 ou 76, o trio de melhores jogadores europeus era Cruijff, Beckenbauer e Müller, e é muito difícil sairmos daí, mas no período entre 75 e 80, o apogeu competitivo de Rensenbrink, ele está provavelmente, se não for o melhor europeu, no pódio com Kevin Keegan, Dalglish ou Allan Simonsen, e depois Rummenigge. Resenbrink representa muitíssimo o que foi os anos 70 no futebol.”

Luís Catarino, comentador da SportTV, agarra-se à ideia do homem que até passaria depois pelo Vitória de Guimarães e que seria campeão europeu pelo Marselha para explicar o fenómeno Robbie. “O [Raymond] Goethals dizia que o Rensenbrink era tão bom como o Cruijff. Chega?”, questiona. “O Piet Keizer já estava no crepúsculo e não tinha uma convivência fácil com o Rinus Michels. Foi nesse contexto que o Rensenbrink apareceu no lado esquerdo do ataque de uma seleção holandesa que o Michels queria projetar como uma segunda versão do Ajax: ataque, ataque e mais ataque. Com sentido criativo.”

Michel Barrault

E acrescenta: “Mas era consensual que ele tinha ainda mais esplendor quando atuava na Bélgica, onde tinha mais preponderância em zonas mais interiores do campo, participando mais vezes na definição ofensiva. Tendo em conta que, na oranje, o Cruijff chamava a bola mais tempo na zona central, o Rensenbrink era consequentemente empurrado para a faixa lateral e isso não o deixava expressar-se tanto quando poderia. Existem vários registos que ele manifestava um certo complexo de inferioridade em relação ao Cruijff. Por um lado, o Rensenbrink era fenomenal no controlo, nos remates impossíveis e nas mudanças de ritmo, mas tinha uma personalidade mais reservada e introvertida, quase que abafada pelo Cruijff. Não é coincidência que o Rensenbrink tenha sido provavelmente o melhor jogador no Mundial de 1978, sem estar ofuscado pelo Cruijff porque este não tinha viajado para a Argentina”. Não sendo do clã de Ajax e Feyenoord, pois estes estavam bem servidos e as épocas não exigiam plantéis extensos, Robbie foi quase um líder natural. Curiosidade: num twist macabro da história, quando Johan morreu, em 2016, o jornal “The Guardian” usou por engano uma fotografia de Rensenbrink.

Madureira, sem se desprender do sabor do chimichurri, acaba por explicar o que terá dado origem ao erro do diário britânico: “Há jogadores magníficos que carregam a maldição de terem aparecido no sítio certo e na altura errada, à sombra de um génio maior. Por exemplo: Juan Román Riquelme, que parecia ter nascido com a 10 do Boca Juniors e da Argentina nas costas, nunca sorria em campo, talvez pelo peso da herança. E por isso ficou para sempre conhecido como um Maradona triste. Outro exemplo óbvio é Robbie Rensenbrink: fisicamente, poderia ser o irmão em espelho de Johan Cruijff, apenas dois meses mais velho que ele. Ambos invulgarmente magros, narigudos, um com tanto talento no pé esquerdo como o outro no direito. Ágil, elegantíssimo, inteligente e finalizador implacável, Robbie, tal como Johan, foi a grande referência de uma das melhores equipas europeias do seu tempo, e de uma seleção que ficou a centímetros do título mundial. Tinha, por isso, quase tudo para marcar a história do futebol como Cruijff marcou entre 70 e 95”.

A crónica da final nas páginas do "Diário de Lisboa" arranca com o remate ao poste de Rensenbrink

A crónica da final nas páginas do "Diário de Lisboa" arranca com o remate ao poste de Rensenbrink

(1978), "DIÁRIO DE LISBOA", Nº 19688, ANO 58, SEGUNDA, 26 DE JUNHO DE 1978, FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES / DRR

E conclui: “Faltava-lhe porém a arrogância desmesurada, a convicção absoluta da sua superioridade, a autoridade, natural e treinada, em atitudes, declarações e gestos. Cruijff tinha nascido para ganhar e para ter razão em todas as discussões em todos os momentos da sua vida. Rensenbrink, um dos maiores jogadores da década de 70, só se destacava pelo que fazia em campo. E por isso ficará sempre preso ao rótulo redutor: foi um Cruijff com um ego normal”.

Ruud Krol, uma das figuras daquela seleção holandesa dos anos 70, reagiu assim à morte do compatriota: “O Rob era um jogador brilhante, mas também um colega agradável. Eu fiz-lhe o passe quando ele chutou ao poste na final de 78. O Rob devia ser lembrado por muito mais do que esse remate. A forma como se movia, ele podia mesmo fazer as coisas acontecerem. Havia qualquer coisa mágica na forma como ele jogava”. Johnny Rep, outra lenda desses 70s, também recordou o ex-colega: “Eu passava sempre tempo com ele quando jogávamos na seleção nacional. Havia ligação entre nós. Era muito reservado, até um pouco tímido. Mas que grande jogador era ele. Fez um grande torneio em 78”.

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Norton de Matos concorda: “Era um jogador reservado. Só o conhecia dentro de campo. Era uma referência da equipa, personalidade enorme. Com a bola nos pés, então, não era tímido. Tinha aquela personalidade de ir no um contra um, tinha sempre soluções fabulosas. Num bocadinho de terreno saía no meio de dois jogadores com uma facilidade enorme. Uma das características dele era o primeiro toque fantástico. Era sempre imprevisível. Tinha uma criatividade fora do comum. O Cruijff era o grande açambarcador [de atenção] do futebol holandês, o Rensenbrink era pacato e disciplinado dentro do campo. Dava gosto ver. Ficávamos boquiabertos. Marcou-me bastante. A minha referência durante muitos anos era o Cruijff, mas quando joguei contra o Rensenbrink senti que era outro grande talento”.

Falta dizer que o futebol belga na altura pagava muito bem, ainda por cima os mercados à volta estavam fechados para estrangeiros. E mesmo quando abriram a concorrência era brutal, espalhando o talento pela Europa, explica Miguel Pereira. Era cómodo também estar perto de casa. “A liga belga dos anos 70 era uma das melhores do futebol mundial”, garante o escritor, que lembra ainda que este Anderlecht vergou os todos poderosos Liverpool e Bayern Munique na Supertaça Europeia, com Rensenbrink em grande nível. A seleção belga ia demonstrando estar pronta para viver grandes momentos com a sua geração dourada. A Bélgica foi finalista e terminou no terceiro lugar nas edições de 80 e 72 do Campeonato da Europa.

Apesar de ter sido figura onde andou, de escapar de adversários como os mortais evitam poças de água, de ter vivido momentos como as duas finais do Campeonato do Mundo e umas quantas finais de Taça das Taças e Supertaças Europeias, Rensenbrink parece nunca ter encaixado no mundo dos futebolistas superstar. E pior: ou não ficou guardado na lembrança dos futeboleiros e adeptos deste desporto ou raramente é chamado a uma discussão. Rensenbrink jogou 46 vezes pela seleção holandesa e marcou 14 golos. No CV tem jogatanas com a camisola do FC DWS, Club Brugge, Anderlecht, Portland Timbers e Toulouse.

A alcunha era serpente ou cobra, pela maneira como driblava e escapava daqueles que lhe queriam roubar a bola, no entanto o único veneno que lhe invadiu as entranhas escorreu daquele poste maldito naquele fim de tarde de 78, no Monumental de Núñez, em Buenos Aires. Rensenbrink foi subestimado e sentiu desamor no seu país. Hoje, 12 meses depois da morte do genial canhoto, é o esquecimento que vai ao poste.

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