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Futebol internacional

Pela cabeça morre o Peixe - e o Palmeiras de Abel Ferreira é campeão da Libertadores

Num jogo pobre, mas que acabou cheio de emoção, como qualquer final da Libertadores que se preze, o Palmeiras bateu o Santos com um único golo aos 90'+8, com Abel Ferreira, em pleno Maracanã, a inscrever pela segunda vez consecutiva o nome de Portugal nos vencedores da prova de clubes mais importante da América do Sul

Lídia Paralta Gomes

Ricardo Moraes / POOL/EPA

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Às tantas, ao intervalo, vem uma daquelas imagens de novela de Manoel Carlos. O Maracaña e um pôr-do-sol a começar a esconder por detrás do morro, devagarinho, o mar ao longe, naquele lusco-fusco capaz de inspirar álbuns inteiros de bossa nova, quase que imaginava as notas na minha cabeça.

Talvez tenha dado demasiado importância àquele fresco carioca, o Rio ao longe é lindo, lindo, mas perdoem-me: até aí o que havia de bonito para dizer sobre a final da Libertadores?

Nada havia, as finais às vezes são assim. Duas equipas de São Paulo no mais brasileiro dos estádios, um português no banco de uma das equipas, Abel Ferreira, a tentar repetir o feito de Jorge Jesus, na final de Lima de há um ano. E a tentar repetir Luiz Felipe Scolari, o homem que um dia o chamou à Seleção Nacional, o único treinador a ganhar uma Libertadores pelo Palmeiras, em 1999.

Mas a 1.ª parte foi jogada a medo, ninguém quer perder finais, claro está, ainda para mais entre brasileiros. Houve muita luta, muito chão, muita falta, mas futebol muito pouco. Deu até para olhar bem para aquela t-shirt de Cuca, o treinador do Santos, homem de fé, seguramente, ele quase feito nada com aquela Nossa Senhora a todo o tamanho colada ao corpo. E o Cristo Redentor lá em cima, que se pudesse teria movido um dos braços de betão armado para tapar a cara, que futebol é este que me deram para ver, Eu, o Senhor de todas as coisas visíveis e invisíveis, quase que o ouvia a dizer.

MAURO PIMENTEL

Depois do intervalo e da imagem do anoitecer, uma quiet night of quiet stars no relvado não ficou particularmente mais mexida, o jogo continuou a ser feito de pressão, de dureza defensiva, de marcações implacáveis e não da magia que o futebol brasileiro nos promete (ou então somos nós que ainda vivemos na ilusão).

Mas talvez tenha havido mais Santos, houve uma quase emenda de Lucas Veríssimo aos 59’, no último jogo do central antes de viajar para o Benfica, e aos 77’ mais um quase lance de perigo, o primeiro remate enquadrado do jogo, com Diego Pituca a acordar Weverton, que depois ainda ficou a olhar para a recarga de Felipe Jonatan, que passou por cima.

O futebol sul-americano também é feito de superstições, e ainda bem, já se perdeu muita da inocência por cá, e eu quero acreditar que, num jogo tão pouco futebol, o jogo foi perdido devido ao karma. Depois de Marinho ter tocado na taça na entrada para o relvado, erro número um no regulamento karmático de qualquer final, até um agnóstico sabe disso, nos últimos minutos, como se estivesse a defender um 1-0 sofrido, o Santos resolveu que o jogo deveria ir para prolongamento, trocando a bola demoradamente junto à sua área, o que não deve ter agradado ao Redentor.

Ricardo Moraes / POOL/EPA

A zanga do divino com o Santos começou com a expulsão de Cuca, já nos descontos, e quando a bola voltou a rolar, sem mais, Rony sacou do cruzamento perfeito, Breno fez os cálculos matemáticos mais acertados e cabeceou ao ângulo, um golo aos 90’+8, porque Libertadores, bem ou mal jogada, é emoção, como já tinha sido há um ano com Jesus a ver o seu Flamengo a operar a reviravolta no último fôlego.

Foi à portuguesa também, que nós gostamos de um bom sofrimento. No único remate entre os postes do Palmeiras, naquela cabeçada, morreu o Peixe, viveu o Verdão - Verdão e Vermelhão, já agora.