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Abel: "Conquistei muita coisa cá, mas vocês nem sabem quantas vezes eu me deitei no travesseiro a chorar sozinho, de saudades"

Numa emotiva conferência de imprensa após a vitória do Palmeiras na Libertadores, Abel Ferreira falou do futebol brasileiro, dos seus problemas e virtudes, do seu grupo de trabalho, das dificuldades que sentiu no início no Brasil e das saudades que sente da família, que deixou em Portugal para abraçar a aventura brasileira. Acabou em lágrimas

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MAURO PIMENTEL

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Agradecimento

“Sinceramente a palavra que mais me passa pela cabeça é obrigada. Um obrigada a todos os jogadores que eu treinei e de forma muito especial e carinhosa a todos os jogadores do Palmeiras. Não há bons treinadores sem bons jogadores, sem bons homens. A caminhada quem a começou foi o Vanderlei Luxemburgo e há trabalho dele aqui. Quando eu pego na equipa, o Palmeiras estava em todas as competições. Há um trabalho dele, não é só meu. Um obrigada à estrutura do Palmeiras que me contratou. É verdade que eu não tinha títulos no futebol profissional, mas há coisas que valem mais do que títulos. A minha maior alegria hoje não foi levantar a taça, foi ver os meus jogadores felizes, toda a gente que trabalha na academia feliz, perceber que todos eles vão receber um salário extra. E não posso deixar de dar uma palavra ao Santos, ao seu treinador e aos jogadores, que também mereciam, fizeram um trabalho espectacular na Libertadores”

Final

“Fomos a equipa que acreditou mais, num jogo duro, difícil, emocional, com muito calor e graças à competência do Breno. Eu gosto muito de apostar em jogadores que vêm de baixo, eu sei que eles vão dar a vida por uma oportunidade”

Diferença Portugal/Brasil

“Eu sei que vocês gostam de comparar, mas a grande diferença é que nós treinadores da escola portuguesa partilhamos conhecimento, vamos a colóquios, telefonamos uns aos outros, mas cada um faz o seu caminho. Jorge Jesus com uma forma de ser e estar completamente diferente da minha, uma forma diferente de jogar, com uma equipa diferente, teve sucesso. Quando chegámos percebemos que havia aqui matéria prima e acima de tudo homens. De uma forma muito humilde e simples eles foram agarrando a ideia, uma forma de jogar coletiva. Hoje não foi uma final brilhante, por causa do calor, é só um jogo e sabíamos que a equipa que fizesse o primeiro golo estaria em vantagem. Nós estávamos preparados para tudo. Isto é fruto do trabalho de muita gente e em particular dos meus jogadores”

Lágrimas e Marcelo

“Não foram poucas, foram muitas! Tenho de agradecer ao Brasil, ao Palmeiras e a toda a família do Palmeiras. Para toda a regra há uma exceção e vou permitir essa regra de celebrar só em 24 horas. Mas ainda há aí muita coisa este ano para trilhar, subimos a montanha, estamos a saborear a paisagem e é bom sentir esta emoção. Mas temos de a descer para não nos distrairmos com a paisagem. O Presidente da República de Portugal ligou-me, para mim é orgulho tremendo, receber uma chamada dele. Vocês apanharam-me numa foto muito bonita, estava uma luz do sol muito bonita e eu fechei os olhos e imaginei-me a receber a taça. Conseguimos a glória eterna”

Dificudades no Brasil

“Deixem-me dizer isto, era uma coisa que eu gostava que vocês mudassem. Quando eu cheguei aqui, queriam mandar o Abel Braga embora, porque tinha perdido a taça e tinha sido eliminado da Libertadores e se tudo correr de forma natural, vai ser campeão. E com muito mérito, porque é muito difícil competir aqui. O Renato tem um grande trabalho no Grémio, vocês devem valorizar o que é vosso. Nós portugueses também somos assim, só valorizamos quando se vai embora. Vocês tem um país com recursos naturais que não há em mais lado nenhum. Vocês têm de ter mais paciência, porque é preciso tempo para fazer um trabalho. Eu hoje estou a ganhar mas amanhã se tiver a perder vão mandar-me embora, é a lei da vida. Os dirigentes têm de ter a mesma coragem que os treinadores têm quando as coisas correm mal”

Saudades da família

“No futebol ninguém ganha sozinho. Os jogadores falam comigo, falam com os psicólogos, com os fisioterapeutas, com a senhora da cozinha, com o presidente. Quando eu aqui cheguei fiquei a viver na academia e era a minha família. Eu hoje sou muito melhor treinador, mas sou pior pai, pior filho, pior tio, pior irmão, porque deixei a minha família lá. Eu conquistei muita coisa cá mas vocês nem sabem quantas vezes eu deitei-me no meu travesseiro a chorar sozinho, de saudades. Eu chorei muito no final, saí do campo para não me verem a chorar. Eu sou uma pessoa de família, adoro a minha família e a minha esposa. Mas sou muito melhor treinador hoje do que há três meses. Infelizmente há sempre coisas que temos de sacrificar”