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Era uma vez um falso jogador que quase chegou à Liga dos Campeões na convocatória do PSG e recebeu uma proposta do CSKA Sófia

Gregoire Akcelrod era um dos piores jogadores de um clube amador, foi proibido de jogar futebol pelo pai, por ser tão mau, e criou um site com o qual convencia os clubes de que era uma estrela. Dessa forma, conseguiu treinar à experiência no Swindon, no Norwich e no Bournemouth e chegar mesmo a receber uma proposta dos búlgaros do CSKA Sófia

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FRANCK FIFE

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Há quem queira à força toda tornar-se futebolista profissional. E há quem faça qualquer coisa para que isso aconteça, mesmo que seja tudo mentira. Gregoire Akcelrod enganou a elite do futebol europeu com um currículo falso, algumas fotografias com a camisola do PSG e um site que fazia dele uma estrela.

Aos 10 anos, o francês era um sonhador como qualquer criança. O único problema era o facto de ser tão mau a jogar futebol que o pai o proibiu de fazê-lo. Akcelrod recorda: “Joguei o meu primeiro jogo com o meu pai a ver-me aos 10 anos. Quando estávamos no carro, de regresso a casa, ele disse-me que estava preocupado por eu ser tão mau e preguiçoso”.

Até aos 18 anos, Akcelrod respeitou a vontade do progenitor e nunca mais deu pontapés numa bola, a não ser no quintal de casa. O sonho permanecia intacto, com uma missão extra: provar que o pai estava errado. Um dia, na escola, o francês teve uma ideia e criou um site com informação falsa. Dizia que era jogador profissional nas reservas do PSG. Copiava e colava notícias do jornal “L’Équipe” e trocava o nome do avançado principal – como Nicolas Anelka – e colocava o seu.

Nem tudo era falso. Akcelrod jogava pelo PSG, mas pela equipa amadora do clube, na última divisão de França. “Podes ser o Cristiano Ronaldo na quinta equipa e ninguém te vê,” explica o francês, agora com 38 anos.

Aos 19 anos, Akcelrod podia ser um homem muito rico, uma vez que a sua avó herdou uma fortuna do ator Maurice Chevalier, com quem foi casada durante 15 anos. Em vez disso, o jovem trabalhava no McDonald’s e vivia num pequeno apartamento. Tudo fazia parte da fachada. Uma vez, Akcelrod conseguiu entrar no campo de treinos do PSG e tirar fotografias “oficiais” com o equipamento da equipa parisiense.

Então, a suposta “vedeta” enviou o seu CV e o endereço do seu site para clubes como o Chelsea, o Manchester City ou o Arsenal, que não caíram na esparrela. Já o Swindon, da segunda divisão, deu-lhe a oportunidade de se mostrar no verão de 2003. “No primeiro dia do treino à experiência, eu estava tão em baixo de forma e em termos táticos andava perdido,” lembra. Obviamente, não ficou.

O Bournemouth, muito antes de chegar à Premier League, vivia tempos financeiramente conturbados. Akcelrod teve a sua segunda oportunidade e chegou mesmo a marcar um golo pelos Cherries num jogo amigável. Ainda assim, não ficou. Surpreendentemente, o Swindon abriu-lhe a porta novamente. O francês marcou dois golos num jogo-treino e os adeptos pediram ao treinador que o contratasse. Em vão.

As câmaras da Sky Sports mostraram os seus dois golos, o que levou o Norwich a querer vê-lo ao vivo. Mas uma exibição paupérrima destruiu as ilusões de Akcelrod. Foi então que a grande surpresa aconteceu.

Estávamos no verão de 2009 quando o persistente Gregoire recebeu um convite para treinar na Bulgária e logo num grande, o CSKA de Sófia, que tinha acabado de se qualificar para a Liga dos Campeões. Convencidos de que ele era jogador das reservas do PSG, os búlgaros ofereceram-lhe um contrato por três anos. Desta vez foram os adeptos a não ficar convencidos e o negócio não se concretizou.

Depois de mais algumas tentativas, incluindo um ano a jogar no campeonato canadiano, o sonhador cedeu e retirou-se dos relvados, mesmo daqueles onde nunca esteve. Hoje em dia, o francês continua ligado ao futebol mas como agente de jogadores jovens que querem chegar às academias dos clubes. Tudo sem recorrer às táticas do passado.

O francês escreveu uma autobiografia chamada “Pro at all costs” (“Profissional a todo o custo”). O livro conta a estranha história da sua vida enquanto jogador de futebol. Akselrod admite ter-se arrependido de algumas coisas mas insiste que nunca enganou os clubes na missão de se tornar futebolista profissional.