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Futebol internacional

Alguma pesquisa, um bot e fantasy football: há uma conta de Twitter que anda a irritar treinadores da Premier League

Desde o início de fevereiro que uma conta de Twitter se dedica a investigar os movimentos de certas equipas da fantasy da Premier League que pertencem a jogadores e staff. Cada vez que estes transferem algum colega na vida real, soam os alarmes. Antes do jogo com o Leicester, vários elementos do Aston Villa retiraram Jack Grealish das suas equipas e Brendan Rodgers soube antes do tempo que provavelmente iria enfrentar um Aston Villa sem o seu melhor jogador. Dean Smith, técnico da equipa de Birmingham, irritou-se. Outros clubes da Premier League também e há quem queira impedir que jogadores possam fazem parte deste passatempo que junta milhões de aficionados

Lídia Paralta Gomes

SOPA Images/Getty

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As equipas virtuais de futebol podem ser tão ou mais viciantes que o próprio futebol. A cada início de época milhões de adeptos começam as suas pesquisas. Que guarda-redes vão manter a sua baliza fechada com maior frequência? Quem serão os defesas que vão permitir menos golos ao adversário? Que jogadores farão mais assistências e que avançados estarão com o faro mais apurado para o golo? E como juntar onze titulares mais quatro suplentes sem ultrapassar um orçamento fixo?

De todo o universo da fantasy football, a Premier League é a liga que mais jogadores virtuais junta: são mais de oito milhões de pessoas que mantém equipas na fantasy da liga inglesa, que é gerida pela própria Premier League. E nesses oito milhões de pessoas há de tudo, desde os mais anónimos dos anónimos até jogadores da própria liga e funcionários dos clubes.

E é aqui que começam os problemas.

Tudo porque a tecnologia anda sempre à frente de qualquer boa intenção e para ganhar pontos vale um bocadinho de tudo. Começa assim a história da conta de Twitter FPL Insider, que está a expor jogadores e membros do staff e a irritar treinadores da Premier League.

A conta, gerida por um norueguês de 32 anos que responde pelo nome de Henning, foi criada no primeiro dia de fevereiro e desde aí que tem revelado algumas trocas que vários jogadores e staff de equipas da Premier League têm feito nas suas equipas da fantasy, especificamente quando transferem colegas de equipa na vida real. Uma informação privilegiada que tem tornado públicos, por exemplo, alguns casos de lesões.

A conta passou a estar no radar dos treinadores da Premier League quando a 19 de fevereiro revelou que três jogadores e dois membros do staff do Aston Villa tinham retirado Jack Grealish, a grande estrela da equipa de Birmingham, das suas equipas da fantasy. Dois dias depois, Grealish não jogou contra o Leicester e o treinador dos foxes, Brendan Rodgers admitiu que conhecia os rumores de que o melhor jogador do rival muito provavelmente não estaria disponível. O Aston Villa perdeu esse jogo por 2-1.

De acordo com o “Daily Mail”, Dean Smith, treinador do Aston Villa, irritou-se com a fuga de informação e proibiu os jogadores de participarem na Fantasy da Premier League. O diário britânico revelou ainda que vários clubes da liga inglesa estão a pedir aos jogadores e staff para que pelo menos não utilizem jogadores da sua própria equipa, para assim evitar que informações confidenciais escapem por este meio aparentemente tão prosaico, dando vantagem aos rivais. Essa decisão terá levado, revelou ainda o “Daily Mail”, vários funcionários de clubes a contactar diretamente o dono da conta FPL Insider para que esta não revelasse os seus nomes, evitando assim as repercussões.

De maneira mais pública, o próprio Pep Guardiola já tinha mostrado preocupação com o tema, chamando de “pouco ético” e “pouco profissional” que jogadores e staff participem na Fantasy Premier League durante a conferência de imprensa antes do jogo da Champions com o Borussia Monchengladbach.

A ajuda das tecnologias

Em pouco mais de um mês, a conta FPL Insider conseguiu juntar quase 50 mil seguidores, tudo graças ao engenho de um jovem de 32 anos vindo da Noruega. País que parece ter queda para este tipo de jogos: a estrela mundial do xadrez Magnus Carlsen chegou a ser líder da fantasy da Premier League na última época, entre milhões e milhões de utilizadores.

Em conversa com a BBC, Henning, que não revela mais do que o seu primeiro nome, explicou como conseguiu reunir várias equipas de jogadores e staff ligado aos clubes de Premier League e assim ter acesso a informação interna, algo que diz ter sido “surpreendentemente fácil”.

“No início era tudo manual e muito entediante. Passei horas no Google, Linkedin e no Football Manager para encontrar nomes de membros do staff e até de jogadores das camadas jovens dos clubes”, começou por revelar o nórdico, que entretanto foi encontrando também ligas em que os jogadores se juntavam em mini-campeonatos.

Dean Smith viu informações sobre o seu capitão, Jack Grealish, tornadas públicas antes do tempo. A culpa é da fantasy

Dean Smith viu informações sobre o seu capitão, Jack Grealish, tornadas públicas antes do tempo. A culpa é da fantasy

Mike Egerton - PA Images/Getty

“O Wolverhampton tem uma liga onde basicamente estão todos os jogadores da primeira equipa”, disse à BBC, onde explicou também que no Everton os jogadores usam alcunhas e que “é preciso ser inteligente para saber quem são”.

O português Diogo Jota, do Liverpool, é um dos nomes que aparece recorrentemente no feed da página FPL Insider, ainda que nem sempre as mudanças que o jogador faz se reflitam no onze dos reds no jogo seguinte. No dia 26 de fevereiro, por exemplo, Jota retirou Salah da sua fantasy mas o egípcio foi titular dois dias depois, contra o Sheffield.

Após a pesquisa, entrou a tecnologia. Depois de identificar várias equipas de jogadores e staff, Henning criou um algoritmo e um bot que além de alertarem cada vez que um jogador transfere um colega de equipa, postam imediatamente essa alteração no Twitter.

À BBC, Henning, que é adepto do Aston Villa, diz lamentar que a sua conta tenha causado problemas precisamente à equipa que apoia, mas está certo que apenas torna públicas informações que muitos clubes da Premier League já investigavam.

“As equipas sabem que os futebolistas das equipas adversárias têm equipas na fantasy e posso imaginar que as principais equipas tenham analistas com acesso a esses dados”, sublinha Henning, que tem ele próprio uma equipa na fantasy da Premier League, estando neste momento, segundo o próprio, perto de chegar às 100 mil melhores na tabela a nível global.