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Ver um cartão vermelho nos primeiros 15 minutos de jogo é meio caminho andado para a derrota? Estatisticamente, sim

Nos 19.985 jogos realizados nas últimas 11 épocas das cinco principais ligas europeias (Premier League, La Liga, Bundesliga, Serie A e Ligue 1), houve pelo menos um cartão vermelho em 3.904, segundo um estudo da RunRepeat

Diogo Pombo

NICK POTTS/Getty

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Aquele pequeno pedaço vermelho de cartão é um despedaçador de planos, se por acaso sai do bolso de quem o tem nos 10 ou 15 minutos iniciais é o ruir de dias (a palavra inicial era “semana”, mas a pandemia riu-se) de preparação e lá se vai o idealizado. Os comportamentos, as dinâmicas, os movimentos e a estratégia são preparados para se jogar um jogo com 11 jogadores, nunca com 10, pelo menos durante a maior parte do tempo.

Por mais que se dedique a trabalhe, à prudência, para os momentos em que a equipa fique com menos um jogador contra esta, aquela ou aqueloutra forma de jogar, este é um berbicacho para qualquer treinador, dos que nem era preciso um número para o atestar, mas este existe - desde 2010, quando houve um cartão vermelho mostrado durante o primeiro quarto de hora de um jogo da Premier League, La Liga, Bundesliga, Serie A ou Ligue 1, só em 17.5% das vezes a vitória acabou por ser da equipa visada.

Por oposição lógica, esse valor sobe para 28.42% quando o cartão vermelho surgiu entre os 76 e os 90 minutos de jogo. Nesse período, registaram-se 2018 cartões vermelhos contra os 152 ocorridos no quarto de hora inicial. Se dividirmos a hora e meia de um jogo em seis parcelas de 15 minutos, o número aumenta à medida que se avança no tempo.

Estas e outras conclusões são da RunRepeat, que se dedicou a examinar 19,985 partidas realizadas nas cinco principais ligas europeias com a lupa posta, apenas, nas expulsões como métrica.

Não esquecendo que se expõe ao próprio coxeio, pois nunca tem em conta o resultado da partida até aparecer um cartão vermelho (por exemplo, se a equipa que o vê já tinha marcado ou sofrido golos, e quantos), o estudo indica que a derrota foi o desfecho para a equipa visada em 55.2% dos jogos. Os que acabaram com vitória ou empate representam 23.6% e 21.1% das partidas analisadas.

NICK POTTS/Getty

Desse total de 19.985 jogos, houve 3.904 em que pelo menos um cartão vermelho a saiu do bolso do homem do apito (4.574 cartões ao todo) e aconteceu mais vezes ser a equipa visitante a recebê-lo (2.066), do que o contrário (1.459).

Reflexo dos tempos de futebol a sério, com estádios cheios de público, barulho e efeitos (pressão) da presença dos adeptos, que podem influenciar a tomada de decisão dos jogadores e árbitros. Tudo terá a ver, também, com a forma de jogar - se assumem a bola ou não, onde pressionam o adversário e agressividade com que o fazem, onde montam a última linha, etc. - das equipas em causa, fatores que o estudo tão pouco tem em conta.

O que encaixota, contudo, são os cartões vermelhos por cada um dos campeonatos analisados e, aí, a Premier League e a Bundesliga são as que menos casos registaram "nos últimos 10 anos" - a Serie A e a La Liga foram a primeira e segunda classificadas neste ranking, na última época, como o eram de forma mais ou menos consistente desde 2010.

Contrapondo estes valores com o número de faltas assinaladas esta época pelos árbitros de cada um dos cinco campeonatos (segundo o site "WhoScored"), as coisas batem certo nos extremos - a Premier League é a liga onde menos se apita (22 faltas em média, por jogo), seguida pela Ligue 1 (25.78), a Bundesliga (26.50), a La Liga (26.91) e, em último, pela Serie A (28.61).

Apesar de não indicar os dados específicos por cada temporada, o estudo da RunRepeat mostra que o número de cartões vermelhos mostrados tem decrescido quase todos os anos durante este período.

E que o VAR pouco ou nada mudou desde a sua introdução nos cinco campeonatos: em França e na Alemanha, os cartões vermelhos reduziram em 8.1% e 16%, mas em Espanha e Inglaterra aumentaram em 5% e 6.3%; em Itália "nada de especial se alterou, com a diferença a manter-se na flutuação vista de época para época".