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Futebol internacional

Durante anos, Higuaín sentiu-se julgado “por estar gordo e careca”. Agora está feliz, “normal” e quer ser recordado “como uma boa pessoa”

Jogou nos melhores clubes de Madrid, Nápoles, Turim, Milão e Londres, mas hoje está aliviado em Miami, no clube que é de Beckham e num lugar onde é bem tratado

Diogo Pombo

Um retrato de Higuaín para o Mundial de 2014, até quando, segundo o próprio, foi "considerado o melhor avançado do mundo e depois acabou-se tudo"

Ryan Pierse - FIFA

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Aquela barriga, está a ficar gordo. Olha a cabeça, já não se livra de ser careca. Para quê a barba e o cabelo rapado?, parece não sei o quê. A idade, que ganha a corrida a toda a gente, chegou-se à frente no encalço de Gonzalo Higuaín quando o argentino se aproximou das redondezas dos trinta. Aí "todos te julgam" e "já não é futebolisticamente", o que importa é "se estás gordo, se estás magro, se estás careca" para "te converteres em notícia", mas "ninguém pergunta como estarás futebolisticamente".

Higuaín está sentado e surge calvo e de barbas longas diante da entrevista à distância, concedida ao "La Nación", para se acercar do coração que abriu, sem pudores, ao jornal argentino. Agora que está com 33 anos e decidido a fixar no Inter Miami, dos EUA, as épocas que lhe restam no depósito, o avançado decidiu falar sobre a carreira que pareceu ter terminado em 2014.

Estava no Maracanã, com o 9 nas costas da Argentina a dar pontapés na bola e na pressão exacerbada de 40 milhões de almas "que te podem fazer sentir que a sua felicidade depende de ti"; muitas seleções têm carga desmesurada às costas e a que um dia rejubilou atrelada à glória de um Diego exige desde então que alguém, de alguma forma, os devolva a esse êxtase - e nunca estiveram tão perto como na final do Mundial do Brasil2014.

Higuaín marcou um golo que não valeu e faltou-lhe valia no momento em que surgiu a única outra oportunidade para marcar. Acontece. "[Mas] até 2014 fui o melhor 9 do mundo e depois [do jogo] da Alemanha acabou-se tudo", resume, com uma frase, quando lhe perguntam por conselhos a dar a Lautaro Martínez, o avançado-maravilha a seguir as pisadas, suas e de Sergio Agüero, na seleção.

A resposta que dá serve tanto para aconselhá-lo como para o próprio Gonzalo se confessar: "Ao Lautaro diria para estar tranquilo, porque agora é tudo cor de rosa, mas pode chegar o momento, talvez num Mundial ou numa Copa América, em que lhe toca a desgraça de errar um golo-chave e aí Lautaro já não é mais o Lautaro. Não serve mais e isto e aquilo. Dir-lhe-ia que não acreditar que é o melhor, nem o pior".

Ira L. Black - Corbis

A sina do finalista vencido em 2014 perseguiu Higuaín e os restantes que lá estiveram; as finais perdidas da Copa América que se seguiram em 2015 e 2016 acorrentaram-lhes essa sombra e esse rasto pesou ao avançado no resto do tempo que passou na Europa.

"No outro dia", contou ao "La Nación", apanhou-se a pensar nos anos de "exigências, de responsabilidades, de mudanças de país" e do "preço muito alto" a pagar por qualquer jogador que pretenda jogar onde o argentino jogou. Ele jogou nas melhores equipas de Madrid, de Nápoles, de Londres, de Milão e de Turim e hoje o que sente é alívio - "consegui o que queria, que era sair dessa bolha de pressões, de exigências, da comunicação social falar de mim a todo o momento e do assédio dos adeptos".

O argentino inclusive se antecipou, foi a tempo de esperar a entrada do socialmente instintivo que é ripostar "do que se queixa, se tem tanto dinheiro?" e de apresentar o seu drible, a sua finta. "O dinheiro não me caiu do céu, ganhei-o, dia a dia, com suor. O dinheiro ajuda, mas não faz a felicidade. Podes ter todo o dinheiro do mundo, mas se és má pessoa, com quem o desfrutas? Ficas sozinho. E sim, o preço a pagar é alto, porque só vês os teus amigos para a vida e familiares de vez em quando e tens de comer os maus tratos da imprensa. Toda a gente te julga", defendeu, com a sua sinceridade.

Higuaín revela-se feliz da vida em Miami, lá "a gente não te julga se erraste ou não marcaste um golo", nem "te julga se foste substituído ou não". O argentino tem o que procurava, vive "tranquilo" e voltou "a ser uma pessoa normal", que "sai de casa como qualquer um". Sobretudo, está contente - "porque sou feliz com a decisão que tomei".

Está a entrar na segunda época das três que assinou com o Inter Miami, onde o patrão é o David Beckham com quem jogou nos primeiros tempos de Real Madrid e espera ser campeão da Major League League. Acabaria a carreira com títulos ganhos em todos os clubes que representou, mesmo que isso não seja o que realmente importa para Gonzalo Higuaín.

Porque "podes ter ganhando cinco Champions, mas se foste uma má pessoa, o clube não vai permitir que voltes a entrar". A quem lhe pergunte pelo que é mais importante no futebol, "ser boa pessoa ou ganhar tudo?", o argentino tem a resposta na ponta da chuteira:

"Os valores, para mim, valem mais do que os títulos. Sempre me importei mais em que me recordasse como boa pessoa."