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Futebol internacional

Superliga Europeia. PSG e Bayern: bons ricos ou apenas contentados com a sua riqueza?

O campeão francês e o homólogo alemão foram finalistas da última Liga dos Campeões, esta época protagonizaram o provável melhor jogo da prova e ambos estão fora do grupo de 12 clubes da nova Superliga Europeia. O Paris Saint-Germain nada disse, o Bayern de Munique já rejeitou a ideia publicamente, mas ambos constam no contrato fundador da nova competição como "propostas para membros fundadores adicionais"

Diogo Pombo

Anthony Dibon/Getty

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França e Alemanha são como muitos dos países europeus onde se dança ao ritmo futebolístico, os pontapés na bola imperam e o povo vibra por eles, as bolas caem das árvores porque toda a gente tem um fraquinho por futebol, mas, nos últimos tempos, são sempre os mesmos a agarrarem no cesto que está debaixo da copa, a apanhar o que cai.

Em 2011, o Paris Saint-Germain ganhou um dono qatari, teve riqueza de um dia para o outro e com os milhões do Qatar só não venceu uma edição (2016/17) do campeonato francês desde então. O Bayern de Munique vai embalado para a conquista do nono título consecutivo, serão nove anos seguidos a ser campeão e a garantir que a sede vai ao pote com constância, sem sobressaltos.

Foram os parisienses e os bávaros a lutarem pela única bola em campo em Lisboa, no verão passado, na decisão da Liga dos Campeões caída para o lado do Bayern. Ali estavam, na final da prova mais relevante de clubes na Europa, as duas equipas que no seu burgo menos mato adversário têm precisado de desbravar, na última década, para acabarem o campeonato doméstico num lugar que lhes dê acesso direto à Champions.

Ambos têm orçamentos escandalosamente superiores ao segundo clube com mais posses do seu país (o PSG fez de Neymar e Mbappé os dois jogadores mais caros da história). Os dois podem gastar quase o dinheiro que for necessário para ter o melhor jogador do mais direto competidor interno. E, como a cada ano alcançam a fase a eliminar da Liga dos Campeões, é sempre quase certo que receberão mais de uma dezena de milhões de euros em prize money (direitos televisivos, prémios de vitória, direitos comerciais, etc.) da UEFA.

O pote é-lhes simpático e o trilho por onde têm de aguentar a sede não tem as mesmas agruras que se erguem diante dos 12 clubes - já nem mesmo à Juventus - que se organizaram quase às escondidas, apesar de os rumores já virem de trás, para, no domingo à noite, anunciarem a criação de uma Superliga Europeia destinada a 20 equipas. O Paris Saint-Germain e o Bayern de Munique não constaram no lote fundador.

Foi natural, olhando para a dúzia de agitadores - Real Madrid, Barcelona, Atlético de Madrid, Manchester City, Liverpool, Chelsea, Arsenal, Manchester United, Tottenham, Juventus, Inter de Milão e AC Milan -, descortinar a falta do campeão francês e do alemão, ambos no top-10 dos clubes que mais receitas geram no futebol europeu, segundo a Money League que a consultora Deloitte calcula anualmente.

Desde o início, porém, que é suposto integrarem a Superliga Europeia. O jornal "Der Spiegel" teve acesso ao contrato da competição, assinado pelos 12 clubes fundadores a 17 de abril, no qual concordaram em "oferecer a possibilidade" ao PSG, ao Bayern de Munique e ao Borussia Dortmund de serem "fundadores adicionais", frisando o "assim que for possível" e colocando prazos - alegadamente, o clube francês teria 14 dias para responder ao convite e os germânicos poderiam fazê-lo em 30 dias.

Anthony Dibon/Getty

É previsível assumir que estes seriam os três clubes em falta para se perfazer o grupo de 15 equipas residentes, número indicado no comunicado conjunto, às quais se juntarão cinco convidadas por quem nunca sairá desta prova-bolha, onde o conceito de promoção e despromoção ficou à porta.

Logo pela manhã de segunda-feira, o Borussia revelou estar alinhado com a "clara postura de rejeição" da Associação Europeia de Clubes (ECA, na sigla inglesa) e Joachim Watzke, CEO do clube, deixou uma pista: "ambos os clubes alemães [da entidade] partilharam a mesma posição durante todas as discussões". O Bayern de Munique confirmaria oficialmente a pista à tarde, quando Karl-Heinz Rummenigge esclareceu que o clube "não esteve envolvido nos planos para criar uma Superliga Europeia".

O mês concedido como tempo de resposta parece que não será necessário para os germânicos. Para os franceses, ainda é uma incógnita.

Até ao início da tarde desta terça-feira, o PSG não se tinha pronunciado oficialmente sobre o endinheirado plano da Superliga Europeia e o facto de o clube não ter integrado a dúzia de clubes fundadores. O "L'Équipe" escreveu que se trata de um "recusa" em participar da parte de Nasser Al-Khelaïfi, o presidente qatari dos parisienses tão visado em anos recentes devido à política gastadora, ou esbanjadora, com que levou jogadores para Paris e desequilibrou a balança competitiva em França.

De entre as várias hipóteses não confirmadas acerca do que a UEFA poderá fazer, em reação à atitude tomada pelos 12 separatistas, surgiu o da possível exclusão, já esta época, do Real Madrid, Manchester City e Chelsea da Liga dos Campeões como uma espécie de retaliação. O que faria sobrar o Paris Saint-Germain nos semi-finalistas da competição e, em teoria, o ficaria com o título.

É um rumor que terá de aguardar até sexta-feira para ser confirmado - nesse dia, há reunião extraordinária do comité executivo da UEFA. Possível é que o PSG esteja a aguardar pelo o que saia desse encontro, ou, recusando o projeto da Superliga, entretanto tornará pública essa rejeição.

Porque a condição interna do Paris Saint-Germain é semelhante à do Bayern de Munique na Alemanha e ambos a têm diferente à dos 12 abanadores do atual formato competitivo do futebol europeu.

Retornando ao início, os parisienses e bávaros gozam da base já desequilibrada à partida nos seus países, o dinheiro é a escusa alegada pela dúzia de ricos que criaram a Superliga e é o dinheiro também que dá vantagem aos crónicos campeões franceses e alemães para acederem aos euros que existem na Liga dos Campeões. O Bayern e o PSG já são clubes ricos. E de momento estão a recusar serem ricos de outra forma.