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Futebol internacional

A senhora é velha, a não concessão de derrota é nova: Juventus ainda acredita "na solidez do projeto" da Superliga Europeia

Depois de nove dos 12 clubes que, no domingo, se apresentaram como fundadores da Superliga Europeia, anunciarem a sua saída, a Juventus reconheceu que "há hipóteses limitadas" de o projeto "ser completado na forma originalmente concebida". Mas o clube de Turim, tido como um dos principais impulsionadores da ideia, "continua convencido da solidez das premissas desportivas, comerciais e legais do projeto". Só Real Madrid e Barcelona ainda não se pronunciaram

Diogo Pombo

Daniele Badolato - Juventus FC

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Andrea Agnelli comanda a Juventus desde 2010, a sua feitura de líder do clube dura há 11 anos, mas o futebol não lhe é novo, ele conhece-o de ginjeira, o apelido que carrega está há mais de um século ligado ao clube de Turim, Andrea é o terceiro homem da família a presidir-lhe e os seus soundbites recentes não fizeram grande coisa se a intenção era advogarem em seu favor.

Houve aquela vez, ainda o ano passado, em que lamentou o "histórico nenhum" da Atalanta que ainda há dias derrotou a sua Juventus, para criticar o que descreveu como "de repente ganharam acesso à maior competição europeia de clubes" só porque "tiveram uma boa época". Este ano, sugeriu que se vendessem pacotes televisivos com a hipótese de subscrição apenas para os últimos 15 minutos dos jogos, alegando que "a capacidade de concentração dos jovens e dos futuros compradores é completamente diferente".

Esta e outras confissões públicas do que vai na sua cabeça fizeram de Andrea Agnelli a cara do vanguardismo agitador de águas no futebol, o símbolo de laivos de mudança que, pelas reações provocadas, muitas alergias causam em quem vê e vai ao futebol. Não em quem apenas o consome.

E o homem que ressuscitou a Juventus de um escândalo de corrupção, que lhe mudou o logótipo, que lhe construiu um estádio novo, que a viu chegar a duas finais da Liga dos Campeões, que lhe comprou um dos dois jogadores mais impactantes deste século e fez enriquecer o clube sem os meios (receitas de direitos televisivos) dos parentes ingleses teve outra ideia - criar uma competição europeia de clubes, a tal Superliga anunciada no domingo.

Andrea Agnelli era presidente da Associação Europeia de Clubes que junta 220 espalhados pelo continente e demitiu-se para empurrar o projeto assinado por apenas 12. Dessa dúzia, apenas Real Madrid e Barcelona se mantinham inamovíveis, silenciosos no seu canto, quando a Juventus emitiu um comunicado, esta quarta-feira, já depois de Manchester City, Liverpool, Chelsea, Manchester United, Arsenal, Tottenham, Atlético de Madrid, Inter e AC Milan divulgarem os seus.

O efeito dominó já fizera todos baquearem perante a maioria da opinião pública, que se insurgiu contra a Superliga Europeia e o conceito proposto, quando o clube de Turim apresentou-se "a par dos pedidos e intenções expressas por certos clubes para se desvincularem do projeto". Os "certos" são nove, portanto dois terços da dúzia original.

MARCO BERTORELLO/Getty

Explica a Juventus que "os procedimentos necessários e visados pelo acordo entre os clubes ainda não foram completados". O que esses nove desistentes fizeram, sugere então o comunicado, é comunicar que pretendem sair da Superliga. A indicação de que ainda não terão realmente saído soa a pé a bater no chão.

Porque a Juventus "continua convencida da solidez das premissas desportivas, comerciais e legais do projeto", reconhecendo que "de momento, há hipóteses limitadas" de a Superliga Europeia "ser completada na forma originalmente concebida". Nunca menciona a opinião pública, nem uma palavra refere para os adeptos.

Finalizou com a certeza de "continuar comprometida em perseguir a criação de valor a longo-prazo para a empresa e toda a indústria do futebol". Não esclareceu, porém, se a Superliga Europeia é ideia para ser retomada em breve, ou se haverá negociações com os clubes ou a UEFA em relação ao que aconteceu nas 48 horas anteriores.

Que foi a investida, a meio da noite de domingo, de 12 clubes ricos para anunciarem uma nova competição fechada, com a pompa de um comunicado pouco esclarecedor, horas antes de a UEFA aprovar um novo formato para Liga dos Campeões a partir de 2024, com alterações requeridas por muitos destes 12 clubes ricos, cuja nova prova separatista tinha já uma linha de crédito disponibilizada pelo JP Morgan, um gigante banco americano.

A revolta e insurgência da opinião pública - leia-se, de adeptos, ex-jogadores, antigos treinadores e depois de futebolistas e técnicos atuais de renome - que se seguiu fê-los recuar, um a um. Andrea Agnelli ouviu Aleksander Ceferin, o padrinho da sua filha e presidente da UEFA, chamar-lhe "cobra" e tê-lo como alguém "que nunca tinha visto a mentir tantas vezes". Esse é outro dos soundbites que ficará desta história.