Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

Agora sim, Arjen Robben vai deixar de ir para dentro e rematar

O holandês que se especializou no truque mais esperado dos truques retirou-se, pela segunda vez, do futebol. Aos 37 anos e após uma época de regresso só com sete jogos feitos pelo Groningen, o coração queria continuar, mas Arjen Robben tomou "a decisão justa e realista" de se reformar de vez

Diogo Pombo

ANP Sport

Partilhar

Chamem os anciãos da linguagem, está para ser inventada uma palavra que se use quando se trata do pior dos segredos mal guardados, tão mal ocultado que dispensa a previsão, toda a gente sabe, simplesmente, o que vem aí e, mesmo assim, ninguém está capacitado para impedir que aconteça.

Há termos ou expressões que roçam esse propósito, beliscam-no, mas não se trata bem de uma inevitabilidade, nem de uma tragédia anunciada, tão pouco encaixa na história do golpe inadiável e por isso é uma carambola das tarefas achar uma palavra que sirva ao significava ver Arjen Robben encostado à direita de um campo de futebol, com a bola no pé.

O holandês cravou no futebol uma descarada incapacidade em guardar segredos. Nele, nos adversários que o encararam e em quem os via a jogar, sempre se notou a léguas que este futebolista ia tentar arranjar forma de driblar corpos em direção ao centro do campo, até se abeirar da área e simular, ameaçar e enganar e fazer crer uma última vez antes de rematar a bola em arco, com um efeito de aba para a fazer entrar perto do poste direito da baliza.

Era constante ver Robben a fazer um Robben e o holandês fez a carreira assim, notabilizando-se a fazê-lo no Chelsea, no Real Madrid e sobretudo no Bayern de Munique, onde contou 10 anos a ser dos melhores futebolistas capazes de, sozinhos, desequilibrar um jogo se a bola lhes chegasse aos pés.

Mas, no verão de 2019, os estilhaços de tantos cristais partidos acumularam-se-lhe no corpo e o holandês, então com 35 anos, cedeu às mazelas que ciclicamente o paravam e retirou-se do futebol. As lesões são coisas que arranjam forma de ser maiores do que o talento.

Mesmo condenado a ser traído pelo próprio corpo, Robben aguentaria quieto apenas um ano. No verão seguinte, com pompa se anunciou que estava de regresso à companhia da bola no Groningen, clube no qual começara a carreira. Virava mais um futebolista a recusar ceder ao tempo.

ANP Sport

E o tempo e a bagagem particular que tem com o holandês relembrou-o disso mesmo logo ao primeiro jogo, Arjen Robben sairia lesionado, a pedir para ser substituído, agastado com uma cara de quem não foi permitido zarpar numa diagonal de fora para dentro.

A época de 2020/21 acabaria por lhe dar apenas sete jogos feitos pelo Groningen, o último a contar para o play-off que lhe garantiria provas europeias nesta temporada. Mas o corpo, as lesões, os músculos que o puxam à realidade, fizeram-no chegar "a uma conclusão honesta" e pensar como "a cabeça e o coração estavam a puxar em direções opostas".

Agora, com 37 anos, o mais previsível dos holandeses sendo o mais imparável vai deixar de executar o seu truque. "O coração queria continuar, mas a decisão de parar é justa e realista", lamentou, esta quinta-feira, o senhor vai-para-dentro-e-chuta que ainda recordou como tinha "embarcado nesta aventura com grande energia e entusiasmo".

O tempo e as lesões de que Arjen Robben fugia acabariam por apanhá-lo. O holandês fez por as fintar o máximo que pôde, da maneira que mais gostava, da única forma que qualquer adepto de futebol esperaria dele.