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Futebol internacional

"Amarei sempre este clube": afogado em lágrimas, Messi despediu-se do Barcelona

“Bom, bom dia. Não sei o que dizer aqui. Nos últimos dias estive a pensar no que ia dizer, no que podia dizer. A verdade é que não consigo pensar em nada. É muito difícil para mim, depois de tantos anos, de fazer toda a minha vida aqui. Não estava preparado para isto", admitiu o futebolista que chegou à Catalunha com 13 anos

Hugo Tavares da Silva

Eric Alonso

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Ainda antes de começar a falar, naquela caminhada para o púlpito num qualquer auditório do Camp Nou, Messi já ia atordoado. As lágrimas caíam-lhe da cara como lhe saem das botas os passes e os golos geniais. Antonella, a mulher de sempre, esticou o braço e deu-lhe um lenço. Ele virou-se de costas, limpou a agonia que lhe corre nas veias e tentou ganhar coragem.

Mas as coisas não melhoraram.

Que estaria a sentir, naquele exato momento, a maior figura da história de um clube? Do clube que ele não queria abandonar. Agora, com os filhos na fila da frente e os craques, os colegas, lá atrás, alguns com os olhos sovados já, chorados, doídos, tinha de arranjar palavras para explicar um adeus que não estava nos planos.

Muitas vezes olhou-se Lionel Messi como alguém apático, desapaixonado, não compreendendo que eram os pés e o pensamento que tratavam de inflamar a paixão, a dele e dos outros. Nunca foi de gritaria ou revolta, algo que o afastou do povo argentino e que agora mudou um bocadinho, não só depois de um processo de argentinização como ajudou a conquista da Copa América tantos anos depois.

“Bom, bom dia. Não sei o que dizer aqui”, começou por dizer o futebolista. “Nos últimos dias estive a pensar no que ia dizer, no que podia dizer. A verdade é que não consigo pensar em nada. É muito difícil para mim, depois de tantos anos, de fazer toda a minha vida aqui. Não estava preparado para isto.”

O ano passado estava convicto do que queria dizer, do que queria fazer, admitiu. A saída parecia inevitável. Desta vez foi diferente. “Eu e a minha família estávamos convencidos de que íamos ficar em casa, foi sempre o que quisemos. Sempre colocámos em primeiro lugar o nosso bem-estar, estar em casa, desfrutando da nossa vida em Barcelona, que é maravilhosa, tanto desportivamente como no cotidiano. Toca-me despedir-me disto. São muitíssimos anos. Cheguei com 13 anos, muito miudinho. Depois de 21 anos, vou embora com a minha mulher e com três catalães argentinos”, ia dizendo, numa referência aos filhos, Thiago, Mateo e Ciro.

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O Barcelona é um lugar intrigante, parece que as maiores lendas do clube saem sempre de uma forma menos digna. Foi assim com Diego Maradona, Michael Laudrup, Ronaldo Fenómeno e outros. Desta vez, mesmo sem um estádio cheio para lhe dizer adeus, há qualquer coisa, uma explicação ou pelo menos uma declaração que permite aos incrédulos acreditarem. É a sério. Não vale a pena sonhar com uma solução miraculosa.

E cá estamos. Messi não se emociona, emociona os outros. Messi não chora, faz chorar. Messi não fala, joga futebol como nenhum outro. Messi não abana, faz abanar. Messi não costuma ser como cada um de nós. Mas hoje, neste 8 de agosto, foi tudo ao contrário. Perante todos nós estava um homem triste, derrotado, com a dor a assar-lhe a alma.

“Não posso estar mais orgulhoso do que fiz e vivi nesta cidade, à qual voltarei quando terminar de jogar fora, porque é a nossa casa e assim prometi aos meus filhos também”, continuou. “Agradeço a todos os que nos ajudaram. Cresci com os valores desta casa, de atuar com humildade e com respeito. Assim o fiz com toda a gente desta casa e espero que isso fique, para além de tudo o que ganhámos. Passámos coisas más, mas isso fez-nos crescer. Dei tudo sempre por este clube, por esta camisola. Desde o primeiro dia ao último. Queria agradecer o carinho das pessoas desde sempre. Gostava de me ter despedido de outra maneira. Nunca imaginei a minha despedida, mas não imaginaria assim. Gostava que tivesse sido no campo, escutando uma última ovação.”

À medida que as palavras lhe saem da boca, já com mais conforto e menos desamparo, torna-se cada vez mais verdade o que estamos a viver. É o adeus de Lionel Messi ao Barcelona. Foram 778 jogos, 672 golos, 268 assistências e 35 troféus conquistados, entre eles 10 campeonatos, sete Taças de Espanha e quatro medalhas da Liga dos Campeões.

“Amarei sempre este clube. Oxalá possa voltar a ser parte deste clube em algum momento. Oxalá possa aportar algo para que continue a ser o melhor clube do mundo. É certo que me estou a esquecer de muitas coisas, mas é o que posso dizer agora, não estou em condições de pensar e que me saiam as palavras”, admitiu.

Sobre a eventual transferência para o PSG, Messi admitiu que é uma possibilidade. “Quando saiu o comunicado [do Barcelona], tive muitas chamadas. Há vários clubes interessados. Não tenho nada fechado”, garantiu.

O argentino disse então que fez tudo para ficar no clube, aceitando até cortar 50% do salário, havia acordo, tal como havia anunciado na véspera Joan Laporta, o presidente. Por outro lado, garantiu que do lado do Barcelona não lhe foi pedido qualquer outro sacrifício, o que levou o editor de uma secção de desporto de um importante jornal espanhol a admitir que foi “empurrado” para fora do clube.

Chega ao fim a etapa de Lionel Messi no Barcelona. Os números, gordos e fartos, nunca serão capazes de explicar tudo. O argentino foi mudando de estilo ao longo da carreira, mas nunca deixou de respeitar a bola de futebol. Em tantos domingos, ele foi o futebol.