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Futebol internacional

A liga “mais difícil onde podes jogar” está de volta. E a Serie A traz o balão de oxigénio de um “verão estranho”

A liga italiana começa este fim de semana com uma temporada cheia de mudanças, desde o desfalcado campeão Inter até à ambiciosa Roma de Mourinho, passando pelas dúvidas em torno de Cristiano e da Juventus. A Tribuna Expresso falou com Simone Perrotta, Damiano Tommasi e Nicola Amoruso para lançar a Serie A, que arranca 2021/22 depois de muitos sucessos postos na bagagem do desporto italiano. Com o balão de oxigénio de "um verão estranho", a Serie A volta cheia de incerteza

Pedro Barata

Silvia Lore/Getty

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O desporto não é a coisa mais importante da vida, mas ajuda a que muitas pessoas tenham vidas mais felizes. Ora, em 2021 o desporto tem sido, para os italianos, uma fonte de intensas alegrias. O país transalpino venceu o Europeu de futebol, brilhou como nunca nos Jogos Olímpicos – incluindo a proeza de ter o homem mais rápido do mundo – e até viu Matteo Berrettini tornar-se no primeiro italiano a chegar à final de Wimbledon, o torneio que é uma espécie de santuário espiritual do ténis.

É neste contexto de lua de mel desportiva que hoje começa uma nova Serie A. E “nova” parece mesmo a melhor expressão para classificar esta edição, tais foram as mudanças nos principais clubes.

Desde logo, o campeão Inter, após ter terminado com a hegemonia da Juventus, viu-se obrigado, devido a problemas financeiros, a vender Lukaku e Achraf Hakimi, tendo também Conte abandonado o comando técnico e sido substituído por Simone Inzaghi. A Juventus trouxe de volta Allegri e vive envolta em incertezas sobre o futuro de Cristiano; o Milan perdeu Donnarumma. A Roma contratou Mourinho e, com o português, parece ter expetativas elevadas. E também houve trocas de treinador na Lazio (Sarri substituiu Inzaghi) e Nápoles (Spalletti sucedeu a Gattuso), sendo que a Atalanta já havia perdido Papu Gómez em janeiro e o Sassuolo viu sair De Zerbi, outro dos porta-estandartes do bom futebol em Itália, para o Shakhtar.

Tantas alterações justificam que procuremos algum auxílio para nos guiar pelos caminhos da nova temporada. Assim, a Tribuna Expresso falou com três antigos jogadores, todos com mais de 250 partidas na Serie A, para projetar o campeonato que se avizinha: Simone Perrotta, lenda da Roma e campeão do mundo por Itália em 2006; Damiano Tommasi, também antiga referência da equipa da capital, com a qual venceu o Scudetto em 2000/01, e até ao ano passado presidente do sindicato de jogadores de futebol italianos; e Nicola Amoruso, avançado que foi tricampeão na Juventus, onde jogou ao lado de Zidane, Del Piero, Vieiri, Inzaghi, Trezeguet, Nedved, Thuram ou Buffon, tendo também atuado na Atalanta, Torino, Parma ou Sampdoria.

Simone Perrotta, 48 vezes internacional A por Itália, deseja que os recentes êxitos desportivos ajudem a animar as pessoas depois das agruras causadas pelo vírus que se espalhou pelo mundo: “Esperamos que o entusiasmo desportivo possa ajudar a alavancar o recomeço do país depois desta pandemia que nos fez sofrer tanto, foram meses muito duros. E, para mim, o mais bonito de tudo é que foi um verão inesperado: Itália venceu o Europeu quatro anos depois de nem se qualificar para o Mundial, nos Jogos Olímpicos vencemos medalhas em provas onde nem costumávamos chegar às finais e temos o homem mais rápido do mundo, que é algo que nos habituássemos que fosse um jamaicano ou americano, e em Wimbledon o Berrettini conseguiu um feito inédito. Foram meses inesperados e molto belli”, salienta o antigo médio.

A esperança de Perrotta é partilhada por Nicola Amoruso.

É outro italiano que provou o sabor de conquistas ao lado de nomes com peso no futebol italiano. Foi campeão da Europa sub-21 em 1996 ao lado de Fabio Cannavaro, Nesta ou Totti. “Foi um ano duro para todos em Itália e as pessoas conseguiram encontrar no desporto um motivo para se voltaram a entusiasmar. Entre o Euro, os Jogos Olímpicos e Berrettini aconteceram tantas coisas positivas que funcionaram como um balão de oxigénio para o país depois de sofrermos muito com a pandemia”, descreve o antigo avançado.

Daniele Badolato - Juventus FC

O “verão estranho” de Ronaldo numa Juventus “de regresso ao passado”

Na época passada, a Juventus não se sagrou campeã pela primeira vez desde 201/11. A aposta em Pirlo correu mal e, para tentar reconquistar o título, a vecchia signora contratou Massimiliano Allegri, que entre 2014 e 2019 foi pentacampeão ao serviço do clube de Turim e chegou a duas finais da Liga dos Campeões. A Juventus contratou Manuel Locatelli, um dos heróis do título europeu de Itália, mas tem sido o futuro de Cristiano Ronaldo a dominar o defeso, com especulação constante sobre a possível saída do português após três temporadas em Itália.

“Eu creio que, se surgir uma boa oportunidade para ambas as partes, Cristiano Ronaldo sairá da Juventus”, opina Nicola Amoroso, autor de 29 golos em 105 encontros pelos bianconeri, acrescentando: “Tem havido muita especulação, mas a verdade é que Ronaldo ainda não veio dizer claramente ‘eu quero estar na Juventus e o meu futuro será na Juventus’”.

Simone Perrotta vai pelas inusitadas peripécias que se viram do clube nesta estação. “É difícil falar da Juventus e de Cristiano, tem sido um verão estranho, porque tem havido muitos rumores sobre se fica ou se sai. Ainda no outro dia ele fez aquela publicação nas redes sociais...”, refere Perrotta, referindo-se ao que o português escreveu sobre as recentes especulações que o têm ligado a destinos tão variados como o PSG, o Manchester United, o City ou o Real Madrid.

Desde 2018 na Juve, CR7 marcou 101 golos em 133 jogos, vencendo cinco títulos, entre eles a Serie A em duas ocasiões. Mas o principal objetivo, segundo Amoruso, não foi cumprido: “Esperava-se que, com Cristiano, a Juventus vencesse a Champions e isso não aconteceu. Mas claro que ele é um jogador extraordinário, que marcou muitos golos pela Juventus e os adeptos têm medo que um jogador como ele saia do clube”, diz o antigo atacante, que continua a achar que o português, caso fique, pode fazer a diferença. “O Ronaldo é o líder ideal para todas as grandes equipas, porque é um profissional de excelência, um exemplo para todos e um jogador com uma mentalidade fantástica, com muita fome de vitória. Eu acredito que ele continua a ter condições para ser um grande líder para a Juventus”.

Se em torno de Ronaldo há um ponto de interrogação, o regresso de Allegri parece trazer de volta à Juve algumas das velhas virtudes, como explica Perrotta, que também alinhou na vecchia signora: “Com o regresso de Allegri, a Juve volta ao passado. Com Sarri e Pirlo, a Juve tentou mudar a filosofia e agora regressou àquilo que é seguro para ela. Jogará de maneira diferente, mas será uma equipa objetiva. E a Juve habitou-nos a ser competitiva, pode falhar um ano, mas depois volta sempre às vitórias”. A opinião é partilhada por Damiano Tommasi — “com Allegri, a Juventus terá muita ambição e poderá recuperar o scudetto”.

Especialmente otimista com as hipóteses da sua antiga equipa é Amoruso, sobretudo devido aos problemas do Inter. “Allegri trará mentalidade vencedora. Ele conhece muito bem a Juventus e o ambiente em torno do clube. Sabe como, mesmo nos momentos difíceis, levar os três pontos para casa, ser capaz de vencer não jogando bem. Creio que trará alguma tranquilidade e, com a sua simplicidade, acredito que devolva o título à Juve. Acho que a favorita é a Juventus, visto que o Inter desmantelou um pouco a sua equipa, o que deixou o espaço para que a Juve volte a ser a equipa mais forte”, salienta o avançado, acreditando no aparecimento de outros protagonistas além de Ronaldo, que já moram na equipa: “Dybala é um jogador que precisa de confiança e pode beneficiar muito de Allegri, que o conhece bem. Ele precisa de sentir-se no centro do projeto e o novo treinador pode ajudá-lo nisso. E há Chiesa, que creio que será o próximo líder e um dos capitães da Juventus. Não só pela sua qualidade, mas também pela mentalidade que tem. E agora o Europeu deu-lhe ainda mais confiança e segurança em si mesmo”.

Anadolu Agency

Mourinho, um “líder para dar força” a um “clube atípico”

A Roma surpreendeu o mundo do futebol quando anunciou a contratação de José Mourinho. Após terminar em 5.º e em 7.º em duas campanhas com Paulo Fonseca, o diretor-geral dos giallorossi, o português Tiago Pinto, apostou no regresso do special one a um país onde, entre 2008 e 2010, acumulou êxitos atrás de êxitos no Inter.

A formação da capital viu sair Dzeko, a referência goleadora dos últimos anos, para o Inter, mas contratou Rui Patrício para a baliza, o lateral Matías Viña e os avançados Tammy Abraham e Shomurodov. Mourinho foi recebido em Roma quase como um herói, com muitos adeptos a cantarem o seu nome, mas o técnico português já tratou de baixar um pouco as expectativas: “Pela lesão grave de Spinazzola e a saída de Dzeko, fizemos um mercado reativo, não um mercado planeado, e falta-nos qualquer coisa. Nesta época iremos empatar muitas vezes e perder algumas vezes, mas entraremos em cada partida sabendo que, pela maneira como treinamos, podemos vencer”, disse Mourinho depois da vitória, por 2-1, frente ao Trabzonspor no play-off da Liga Conferência Europa.

Damiano Tommasi e Simone Perrotta somam, entre si, 674 partidas pela Roma e traçam-nos o retrato de um emblema que, apesar de só ter sido três vezes campeão de Itália, é vivido com uma paixão e uma exigência quase sufocantes.

Tommasi, membro da última equipa da Roma a ser campeã, explica-nos o contexto especial do clube. “É um dos conjuntos mais importantes de Itália, ainda que a nível de títulos não ganhe tão regularmente como outros. É uma equipa de uma cidade conhecida em todo o mundo e com algo muito particular: não ganhou muito ao longo da sua história, mas o entusiasmo, a conexão das pessoas com o clube e as expectativas são sempre altíssimas. Para um jogador, ter a possibilidade de vencer pela Roma vale mais do que ganhar noutros clubes", enquadra o antigo médio italiano, acrescentando que teve "a felicidade de conquistar um campeonato com a Roma" e, ao fazê-lo, de entrar "numa história muito particular".

Porque ganhar com a Roma, detalha Tommasi, "significa ter uma vitória de vida que te glorifica como atleta, é uma concentração de emoções desportivas muito fortes" — pode ser equiparado "a uma medalha olímpica, porque é o prémio a muitos esforços e sacrifícios que geram muitas emoções.”

Perrotta partilha a visão do seu antigo colega: “A Roma, como clube, é atípica, pela paixão com que os adeptos a vivem. É algo extremamente apaixonado, quase obsessivo”.

O treinador português, que terá o desafio de potenciar ao máximo Zaniolo, grande talento italiano de 22 anos que tem sido atormentado pelas lesões, pode tentar gerir as expectativas, mas Tommasi acredita que Mou pode gerar, na capital, uma relação quase de culto com os adeptos: “A expectativa com Mourinho é enorme. Sabemos que ele não irá desiludir na sua abordagem, nas provocações, fazendo-se líder de uma fé futebolística. Em todos os clubes em que ele esteve houve essa relação emotiva. Acredito que pode casar bem com a Roma, porque a Roma vive numa dimensão que não é feita de troféus, mas de pessoas, e Mourinho é alguém que estima os jogadores, os conduz e dá credibilidade a um balneário”.

Uma figura como José Mourinho, prossegue o campeão mundial pela Itália, em 2006, "pode fazer com que a equipa acredite em si mesma, tenha confiança, e era disso que a equipa precisava. Mourinho é um catalisador da imagem do clube que treina”.

E que objetivos é que os exigentes tiffosi do clube pedirão à equipa? Perrotta, que recorda ter tido Mourinho "como adversário no Inter e ele ganhar sempre”, assegura que “os adeptos querem que a equipa seja competitiva", apesar de a Roma não ser "um clube que tenha ganhado, ao longo da sua história, com uma regularidade condizente com a exigência existente, mas a cidade nunca baixa essa fasquia". Quanto a resultados, explica que os adeptos "pedem que a equipa consiga, pelo menos, entrar na Champions League, ou seja, terminar entre os quatro primeiros". Perrotta acredita que a Roma "possa fazer uma época muito positiva, porque tem uma equipa jovem, mas com uma boa mistura de experiência com Smalling, Cristante ou Pellegrini".

Até ao ano passado presidente do sindicato de jogadores italianos, Tommasi considera que Mourinho pode preencher o vazio deixado por figuras míticas do clube que, nos últimos anos, deixaram a capital: “O clube tentou procurar um líder como Mourinho para dar força à Roma. É indiscutível que a passagem de Mourinho será marcante. Nomes como De Rossi ou Totti são parte da história e saíram, mas Mourinho poderá também escrever história através dos resultados em campo”.

Mattia Ozbot - Inter

Um campeão forçado a renovar-se

“Não posso mentir aos adeptos. Será uma temporada complicada”. As palavras são de Javier Zanetti, lenda do Inter e atual vice-presidente do clube. A equipa de Milão conseguiu, na temporada passada, a proeza de tirar o scudetto à Juventus, mas a necessidade de equilibrar as contas levou às transferências de Lukaku, a grande estrela, para o Chelsea, e de Achraf para o PSG, juntando-se à saída de Antonio Conte, um dos melhores treinadores do mundo. Para tentar reter o título, os nerazzurri foram buscar Simone Inzaghi à Lazio para o comando técnico e contrataram Dzeko à Roma, garantiram Çalhanoğlu, em final de contrato com o rival Milan, e incorporaram Dumfries, lateral dos Países Baixos que foi um dos melhores jogadores da primeira fase do Europeu.

Apesar de todas as mexidas, Perrotta acredita que os campeões em título são os favoritos: “Creio que o Inter parte ligeiramente em vantagem. Saiu o Lukaku, mas entrou o Dzeko, saiu o Conte, mas chegou o Simone Inzaghi, que tem uma abordagem semelhante, portanto a filosofia da equipa não deve mudar muito”. Também Tommasi rejeita a ideia de um Inter enfraquecido: “É verdade que perdeu excelentes jogadores, mas tem algo que não tinha na temporada passada, que é o facto de já ter ganhado, o que não é de pouca importância porque vencer dá-te uma confiança totalmente diferente, é algo que não se compra nem se treina. O hábito de vitória é decisivo e só se adquire ganhando. O Inter agora tem isso. Simone Inzaghi demonstrou a sua competência na Lazio e certamente que apresentará em campo um conjunto muito ambicioso e capaz de discutir a vitória.”

Sem Lukaku, Inzaghi desejará que Lautaro Martínez, companheiro de ataque de Messi na frente de ataque da Argentina e autor de 40 golos no conjunto das duas últimas campanhas, não abandone Milão e se assuma como líder da equipa.

A Serie A pode já não ter “seis ou sete reais candidatos ao título”, como Amoruso diz que havia nos anos 90, mas a luta por terminar nos primeiros lugares promete ser acesa. O Milan viu sair Donnarumma, em final de contrato, para o PSG — “Itália já não tem capacidade para competir financeiramente com os emblemas mais ricos do mundo”, assinala Perrotta —, mas mantém Zlatan Ibrahimovic como grande líder e esperará que Rafael Leão dê um salto no seu rendimento, sendo mais consistente. A equipa de Pioli regressará, após sete épocas de ausência, à Liga dos Campeões, e o grande objetivo para o clube será estar, em 2022/23, novamente na competição, visto que o Milan muito precisa do dinheiro para ganhar alguma saúde financeira.

O Nápoles de Marío Rui “pode fazer uma excelente época”, diz Perrotta. “Contratou Spalletti, que foi meu treinador na Roma e tem ideias muito claras, sabe transmiti-las à equipa e isso vê-se no campo. O Gattuso fez um grande trabalho, mas tenho muita curiosidade para ver este Nápoles, que manteve os jogadores do ano anterior”, confessa o antigo médio italiano. Já a Lazio contratou o antigo treinador dos napolitanos, Maurizio Sarri, que regressa ao trabalho para tentar voltar a mostrar o futebol sedutor e ofensivo que encantou a Europa quando dirigia a turma do San Paolo.

E, por falar em encantar, a Atalanta continuará a procurar intrometer-se entre os grandes com o selo do bom futebol de Gian Piero Gasperini. Já não há Papu Gómez nem o defesa Christian Romero, mas Muriel, Zapata, Malinovskyi e companhia são garantia de espetáculo.

Quanto a outros portugueses, Miguel Veloso será o capitão e líder do Hellas Verona (que perdeu o técnico Juric para o Torino), preparando-se para a sua oitava temporada na Serie A. Já Adrien Silva, da Sampdoria, entrará na sua segunda época em Itália, isto após ter feito 26 encontros com o clube de Génova em 2020/21.

A Serie A pode já não ser a liga mais poderosa do mundo, como nos anos 80 e 90, mas continua a ser uma liga de desafios particulares, como explica Perrotta: “A nossa Serie A é sempre atrativa para os grandes jogadores. Na minha opinião, se não passas pela Serie A e não defrontas a tática italiana perdes a oportunidade de demonstrar o teu valor na liga mais difícil onde podes jogar”. Que arranque o calcio.