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Futebol internacional

Marcus Rashford: “Podemos encher 27 estádios do Wembley com as 2,5 milhões de crianças que não sabem de onde vem a sua próxima refeição”

O avançado do Manchester United conseguiu ao longo do último ano e meio fazer pressão para que o governo britânico não acabasse com o apoio alimentar escolar a crianças mais pobres. Agora, num ensaio para a revista "The Spectator", o jovem de 23 anos fala de como é preciso fazer mais e do porquê de ter de retribuir à comunidade - porque foi a comunidade que também o salvou

Lídia Paralta Gomes

NICK POTTS

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Marcus Rashford não é apenas um jogador de futebol. Cresceu pobre, o mais novo de cinco irmãos. A mãe desdobrava-se em trabalhos, chegava a casa já noite cerrada, mas o encolhido salário que recebia nem sempre dava para colocar comida com fartura para todos na mesa. Foram muitas vezes as famílias dos amigos que encheram a barriga ao avançado do Manchester United, de 23 anos.

O jeito para o futebol encheu-lhe a conta bancária mas, pelo passado que teve, Rashford sempre soube que não se podia limitar a apresentar-se em campo e chutar uma bola. Jogar o desporto mais popular do mundo, e num clube que é uma marca global, deu-lhe uma plataforma e ele usou-a para contribuir para que outras crianças não tenham de passar pelo caminho de cardos que ele próprio teve de percorrer.

Foram as suas pressões que evitaram que o governo britânico adiasse em junho do ano passado o fim do programa de vouchers para refeições escolares, criado devido à crise provocada pela pandemia e que ajudou cerca de 1,3 milhões de crianças a continuar a ter pelo menos uma refeição quente por dia com o fecho das escolas. A Rainha condecorou-o, mas isso não significou na cabeça de Rashford que o trabalho estava feito, longe disso.

Em outubro, quando mais uma vez os deputados britânicos tentaram parar o programa de ajuda alimentar durante as férias escolares, Rashford apontou o dedo aos políticos, colocou mãos à obra e pediu ao primeiro-ministro Boris Johnson uma reunião com o grupo de trabalho que criou, o Child Food Poverty Taskforce. E Johnson telefonou-lhe pessoalmente a dizer que estavam destinados mais 300 milhões de euros para combater a pobreza alimentar infantil até ao natal de 2021.

Agora, na edição da revista “The Spectator” desta semana, num texto apropriadamente titulado de “Porque é que é eu não me fico pelo futebol”, Marcus Rashford fala da sua luta pelo fim da fome entre as crianças britânicas, atirando-nos desde logo à cara uma uma imagem assustadora.

“Podemos encher 27 estádios do Wembley com as 2,5 milhões de crianças no Reino Unido que não sabem de onde vem a sua próxima refeição”, escreve o avançado, colega de Bruno Fernandes e agora de Cristiano Ronaldo no Man. United, lembrando também que o número de famílias com problemas em alimentar os filhos subiu 27% desde o início da pandemia.

No texto, Rashford impele o governo mais uma vez a agir e a expandir as regras de elegibilidade para receber apoio alimentar no âmbito das escolas. O internacional inglês dá o exemplo que lhe foi contado por uma professora primária, que depois de notar que uma das suas alunas frequentemente adormecia nas aulas, percebeu que a menina guardava a comida gratuita a que tinha acesso para partilhar com os irmãos, que estavam fora do programa alimentar. Esses alimentos eram muitas vezes os únicos que essa família levava à boca durante o dia.

O trabalho de retribuir

A “The Spectator” é mais conhecida pela sua ênfase em temas como política ou cultura, mas Marcus Rashford já não é apenas a história de um futebolista. “Pode despontar alguns, mas o conselho de ‘fica-te pelo futebol’ não funciona vindo de onde eu venho”, sublinha o avançado.

“Vejam, quando a minha comunidade não tinha nada que pudesse chamar seu, sempre arranjou maneira, na sua bondade, de me dar algo. Eu sou um produto dessa compaixão”, diz ainda, lembrando que estaria a fazer um “desserviço” à sua família e aos seus próximos se não usasse a plataforma a que tem acesso para falar em nome “das milhões de vozes que não são ouvidas”.