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Futebol internacional

Um Mundial a cada dois anos? Nuno Gomes esteve no Catar e apoia a ideia criticada por muitos: “O argumento do ‘sempre foi assim’ não chega”

A UEFA, a associação das ligas europeias e a Conmebol já se opuseram e criticaram a ideia, dizem que vai destruir o futebol, mas, na última semana, Arsène Wenger e a FIFA reuniram com dezenas de ex-jogadores e treinadores em Doha, no Catar, onde todos terão concordado com a proposta de reestruturar o calendário internacional, incluindo a frequência do Campeonato do Mundo e a concentração dos jogos das seleções em apenas um, ou dois períodos, durante a época. Nuno Gomes esteve lá e, à Tribuna Expresso, diz que "a opinião generalizada é que esta mudança será positiva para o futebol"

Diogo Pombo

Gareth Cattermole - FIFA

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Pensando no Catar com lunetas futebolísticas e cingindo o fluxo de pensamentos a dados mais recentes, provavelmente virá logo à cabeça o calor tórrido que por lá se sente no verão, que forçou a FIFA agendar um inédito Mundial durante o inverno do hemisfério norte (novembro e dezembro). Com isso vieram as trocas e baldrocas no calendário do futebol devido à própria entidade ter concedido, inicialmente, a organização do torneio a um país onde já se sabia estar um forno que desconvida à prática do futebol durante os meses em que a prova, por norma, se realiza.

E para Doha, capital do país, viajaram quase 20 treinadores e ex-jogadores na última semana, convidados pela FIFA para uma reunião especial encabeçada por Arsène Wenger, um dos senhores do futebol por estatuto, pelo que representa e pelo rasto glorioso que deixou enquanto técnico, especialmente, com os 21 anos acumulados no Arsenal. Entre antigos vencedores de Mundiais, Europeus, Ligas dos Campeões ou Premier Leagues, muitas foram as caras com nome de peso no jogo a acederem à cortesia da FIFA.

O objetivo da reunião a que Ronaldo (o Fenómeno), Peter Schmeichel, Roberto Carlos, Sami Khedira, David Trezeguet, Marco Materazzi ou Tim Cahill foi público: discutir a hipótese de o Campeonato do Mundo, desde sempre realizado a cada quatro anos, passe a acontecer de dois em dois e, alavancado nessa mudança, que o calendário competitivo internacional seja também reestruturado. Feita a ocasião, as vozes de vários antigos futebolistas com história cravada no futebol começaram a ser citadas, todos como apoiantes da proposta.

Ronaldo elogiou-a e Schmeichel garantiu que “todos concordaram” com o plano apresentado por Wenger. Meses antes, já Javier Mascherano, Yaya Touré ou Michael Owen se tinham revelado apoiantes da ideia. No grupo de ex-jogadores que a FIFA convidou para o Technical Advisory Group reunido em Doha, de quem a entidade destacou “as mais de 3.000 internacionalizações e 300 jogos em Mundiais”, estava um antigo avançado português — que também saiu do Catar como um defensor da proposta de reestruturar o calendário internacional de competições.

Nuno Gomes diz que, como está hoje, “não agrada a ninguém”. O antigo avançado deu como exemplo as recentes críticas “de muitos selecionadores nacionais, incluindo Fernando Santos”, ao atual formato do calendário — antes do clássico de sábado, também Rúben Amorim e Sérgio Conceição, treinadores de Sporting e FC Porto, criticaram o regresso tardio de jogadores das suas seleções. “Eu percebo que uma ideia destas possa gerar controvérsia, mas, para mim, o argumento do ‘sempre foi assim’ não chega. Por ter sido sempre assim, não quer dizer que tenha que ser sempre assim. O Mundial tem um ciclo de quatro anos há quase 100 anos. Hoje o mundo é completamente diferente”, argumentou, à Tribuna Expresso, o ex-jogador da seleção nacional.

Mas, afinal, o que mudaria?

O que tem captado o maior raio de luz dos holofotes da proposta é o Campeonato do Mundo passar a acontecer a cada dois anos, mas o idealizado por Arsène Wenger não se limita a isso, nem germinou por inteiro da cabeça do francês. Em maio, findo o seu mais recente congresso, 166 membros da FIFA votaram a favor e 22 contra (no total, são 222) de ser estudada uma proposta apresenstada pela Federação de Futebol da Arábia Saudita, para que os Mundiais masculinos e femininos sejam realizados de dois em dois anos.

O plano matutado por Wenger vem daí.

O treinador, agora com funções de Chefe do Desenvolvido Global do Futebol na entidade, propõe que, após o ciclo de competições que terminará em 2024, todo o calendário que hoje tem cinco períodos de jogos internacionais seja reformulado para, ou concentrar tudo numa janela de mês e meio (entre outubro e novembro) só dedicada a partidas de seleções, ou dividir esses deveres em dois momentos na temporada (outubro/novembro, e março). E que, todos os anos, haja uma data de férias obrigatória para os futebolistas.

Estas mudanças vagariam datas, todos os verões, para serem ocupadas por um torneio internacional e daí a ideia de mexer com a frequência do Campeonato do Mundo.

Nuno Gomes defende que tal implicaria “uma redução muito grande no número de viagens e passa por haver menos jogos amigáveis e menos jogos de qualificação, que muitas vezes não são decisivos”. Tudo isto, diz o ex-avançado, seria “favorável para os jogadores”, pois teriam “menos fadiga e mais clareza e foco ao haver uma clara separação entre os períodos de seleções e os períodos de clubes, em vez de haver este pára-arranca ao longo de vários meses, como assistimos agora”. Na ideia de Arsène Wenger, deixariam de existir partidas de seleções em setembro, outubro, novembro, março/abril e junho.

As críticas e a aversão à mudança

O futebol e, sobretudo, quem o vê e consome, é avesso a mudanças deste tipo, que sugerem mexer em hábitos com barbas de décadas e já várias entidades se opuseram à ideia. “Boa sorte a organizarem um Mundial assim, acho que nunca vai acontecer por ser tão contra os princípios básicos do futebol. Jogar todos os anos, no verão, um torneio de um mês, vai matar os jogadores e se for a cada dois anos, vai colidir com o Mundial feminino ou o torneio olímpico”, criticou Aleksander Ceferin, presidente da UEFA, em entrevista ao “The Times” britânico, deixando até uma espécie de ameaça: “Podemos decidir não jogar”.

A UEFA reúne 55 países europeus e a estes juntaram-se os 10 sul-americanos da Conmebol, em tempos até apoiante da ideia que, agora, critica devido ao risco de “desnaturalizar o Mundial” e de gerar “uma sobrecarga praticamente impossível de gerir no calendário”.

Também a Associação de Ligas Europeias que junta 13 campeonatos na Europa (incluindo os cinco maiores e o português) revelou que “se opõe firme e unanimemente a quaisquer propostas” para um Mundial de dois em dois anos, garantindo: “Não vamos deixar que se tomem decisões unilaterais que prejudiquem o futebol”.

Nuno Gomes integra o programa FIFA Legends

Nuno Gomes integra o programa FIFA Legends

Gareth Cattermole - FIFA

A FIFA, pela voz de Gianni Infantino, ouvida num vídeo montado no encontro que aconteceu no Catar, disse e repetiu que decorre “um processo de consulta global” e “a voz dos adeptos é crucial”, que o objetivo é haver “uma ideia simples e clara para todos” para acabar com “os demasiados jogos sem sentido” entre seleções que existem. À Tribuna Expresso, Nuno Gomes assegura que “todos” tiveram “oportunidade de dar opinião de forma aberta” sobre o que acham do estado das coisas do futebol, que hoje avalia como “completamente diferente”.

O antigo avançado do Benfica e da seleção nacional analisa que “vivemos a uma velocidade estonteante e se o futebol de clubes se adaptou, de alguma forma, o futebol de seleções nem por isso”, centrando-se na questão do quão especial é uma competição quanto mais raro, ou difícil, for vê-la a acontecer ou jogá-la, dando o exemplo da Liga dos Campeões — “joga-se todos os anos e é especial, tem enorme prestígio e desde que isso proteja os jogadores, não vejo problema”.

Muita gente ainda vê muitos berbicachos nesta ideia.

O que se fará com o Mundial feminino, que ainda tenta apanhar mais do que migalhas da atenção que sobra da que é monopolizada pelo futebol masculino, por exemplo? Fazer coincidir um Europeu e uma Copa América, como aconteceu este verão, não encolherá o interesse extracontinental em cada uma das provas? Porque haverá de votar uma federação das Caraíbas ou das Ilhas do Pacífico numa eventual proposta que terá repercussões, principalmente, nas provas europeias de clubes?

Nos últimos meses, a hipótese de um Mundial bienal e as ideias de Arsène Wenger tornaram-se mais badaladas no futebol que, por tradição, fica comichoso quando se discutem alterações às suas coisas mais típicas, à sua forma tradicional de se organizar. Assim o foi com o VAR, e antes com o fim da regra que permitia ao guarda-redes agarrar com as mãos uma bola que lhe era passada com os pés. No final, Nuno Gomes crê que “a grande maioria da pessoas do futebol estará de acordo”.