Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Futebol internacional

Oito anos depois, o "tigre" Falcao voltou a marcar na La Liga. E fê-lo em nome do pai

O colombiano demorou 10 minutos para fazer um golo na sua estreia pelo Rayo Vallecano, no triunfo (3-0) frente ao Getafe. Com o número 3, que era do seu pai, às costas, o avançado fez o gosto ao pé no campeonato espanhol, algo que não acontecia há 3051 dias

Pedro Barata

Quality Sport Images/Getty

Partilhar

Vallecas é um sítio especial. Bairro obreiro de Madrid, foi construindo uma identidade muito própria, muito sua, numa espécie de maneira de viver a vida sem a altivez que, ali, acusam as gentes do centro da capital de ter. E, claro, o Rayo Vallecano é um grande espelho desta identidade.

Um clube teoricamente pequeno, sem grandes condições económicas, com infra-estruturas precárias e uma base de apoio que está longe de ser multitudinária, o Rayo vai conseguindo ser presença regular entre a elite do futebol espanhol, num feito que, por lá, costumam descrever como "um milagre". Ora, já dissemos que Vallecas é um sítio especial, e nos sítios especiais acontecem coisas especiais.

Quality Sport Images/Getty

A tarde era de sol em Vallecas, com o bom tempo a abençoar um Rayo Vallecano-Getafe, embate entre dois conjuntos que, pertencendo à área metropolitana de Madrid, representam zonas com identidades bem diferentes, as quais se manifestam pelo diferente sentir de cada um dos emblemas. Mais frio (mas capaz de obter resultados bem melhores recentemente, apesar do péssimo início da atual temporada) o Getafe, mais rebelde - mas a tender para o caótico - o Rayo. E, na tarde de sol, a grande atração começou no banco.

A contratação de Radamel Falcao, nas últimas horas do mercado, foi recebida com enorme entusiasmo pelas gentes de Vallecas. A apresentação do jogador levou ao estádio muitas pessoas, boa parte delas com camisolas da seleção colombiana, ou não fosse o jogador um ícone do país sul-americano e Madrid uma cidade onde vivem muitos "cafeteros". Após rescindir contrato com o Galatasaray, emblema no qual alinhou durante duas temporadas, Falcao estava de regresso à La Liga, de onde havia saído em 2013 como um dos melhores números 9 do mundo.

Só que o retorno de Falcao não se fez com o número 9.

Em janeiro de 2019, Radamel García King, pai de Radamel Falcao, morreu após desmaiar enquanto jogava ténis. Radamel García também havia sido jogador de futebol, nunca escondendo Falcao a importância que o seu progenitor teve na sua carreira. E, neste regresso a Espanha, o filhos quis homenagear o pai. "Usarei o número 3 em homenagem ao meu pai que já não está connosco", disse Falcao, que assim estampou na sua camisola do Rayo o número que o seu progenitor utilizou durante a maior parte da carreira.

O pai de Falcao, em 2018, a apontar para uma fotografia em que posa com o seu filho

O pai de Falcao, em 2018, a apontar para uma fotografia em que posa com o seu filho

JUAN RESTREPO/Getty

Falcao começou o jogo contra o Getafe no banco, vendo desde essa posição o primeiro golo da sua equipa (que contou com o português Bebé a titular, enquanto outro luso, Kevin Rodrigues, foi suplente durante todo o embate). Na segunda parte, já com Florentino Luís em campo do lado do Getafe, as gentes de Vallecas agitaram-se ao minuto 71.

Aí estava ele. Na linha lateral, de camisola branca com risca diagonal vermelha vestida, numa indumentária semelhante à do River Plate onde um jovem Falcao saltou para a ribalta antes de cruzar o Oceano e vir marcar golos atrás de golos de dragão ao peito. De camisola 3 nas costas, Falcao entrou ao minuto 71 debaixo de muitos aplausos das bancadas, onde até estava uma pessoa disfarçada de tigre. "El tigre" regressava à La Liga.

Europa Press Sports/Getty

E bastaram 10 minutos para que o colombiano provasse que o olfato pelo golo não estava perdido, que a arte de dar alegrias a multidões através da colocação de uma bola dentro de uma baliza permanece inalterada.

Já com 2-0 no marcador, ao minuto 81 Falcao segurou a bola à entrada da área, aguentando as investidas dos rivais para manter a posse de bola. O lance viajou para trás, para o centro do terreno, e o matador escondeu-se entre o lateral e o central rivais, na zona que Guardiola diz ser "impossível de defender". E, quando recebeu a bola, tratou de fazer o que para ele é rotineiro: recebeu, olhou e disparou cruzado, para contentamento da gente Vallecana.

Denis Doyle/Getty

Pelo sistema sonoro do estádio ecoava "The Final Countdown", dos Europe, enquanto Falcao se desfazia em abraços aos colegas, saudações às pancadas e cara a transbordar de felicidade. O último golo do colombiano na La Liga datava de 12 de maio de 2013, há 3051 dias.

Nestes mais de oito anos, Falcao passou por França, Inglaterra e Turquia, viveu um calvário de lesões, teve de reerguer-se uma e outra vez. E perdeu o seu pai. Agora, no regresso a Espanha, marcou para provar que ainda é "El Tigre". E para homenagear o seu pai, claro. Um Radamel com o número 3 às costas voltou a fazer golos.