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Futebol internacional

A lenda eterna Greaves, a lenda viva Ronaldo, a lenda triste Noble: uma tarde no London Stadium, novo ponto do mapa goleador de CR7

O português fez o 4.º golo em 3 jogos na sua nova era em Inglaterra, marcando pela primeira vez no Olímpico de Londres, mas o triunfo (2-1) do United contra o West Ham também teve como heróis Lingard, autor de um grande golo ao minuto 89, e De Gea, que defendeu um penalti de Mark Noble, que tinha acabado de entrar, no quinto minuto de compensação da segunda parte

Pedro Barata

Julian Finney/Getty

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As bolinhas de sabão voadoras são o comité de boas-vindas dos jogos do West Ham em casa. Uma tradição que vem de Boleyn Ground (normalmente conhecido por Upton Park), o reduto que foi, até 2016, casa dos hammers, e que se mantém no London Stadium, o Olímpico da capital que é o recinto no qual o West Ham joga como visitado.

Pois bem, quando Cristiano Ronaldo abandonou o futebol inglês, em 2009, ainda o conjunto londrino actuava no seu icónico estádio. 12 anos volvidos, a primeira visita de Ronaldo ao London Stadium enquanto casa do West Ham começou com o luso a entrar em campo a fintar bolas de sabão e foi um encontro com toques épicos e trágicos, dramáticos e inglórios, numa vitória por 2-1 do Manchester United que coloca a equipa de Solskjaer com 13 pontos, partilhando a liderança da Premier League com o Liverpool (e à espera do que faça o Chelsea contra o Tottenham).

Matthew Peters/Getty

Como lenda viva que é, Cristiano estará habituado a ver como os registos históricos de outras lendas do desporto vão sendo batidos por si. Até 2016/2017, os 366 golos que Jimmy Greaves marcou em ligas do grupo das big-5 (Inglaterra, Espanha, Inglaterra, Itália e França) eram um recorde absoluto. Até que veio Ronaldo e pulverizou essa marca, somando 478 tentos quando Greaves deu o seu último suspiro de vida (e 479 pouco depois disso, mas já lá vamos).

Antes da bola rolar, o público e ambas as equipas homenagearam Jimmy Greaves, falecido horas antes e um dos maiores mitos da história do futebol britânico. Uma referência da arte do golo que também jogou no West Ham, clube que se enfrentava a outro artista de dita especialidade.

Justin Setterfield/Getty

A partida foi difícil para o conjunto que viajara de Manchester e que teve Diogo Dalot durante todo o desafio no banco de suplentes. David Moyes pode ter falhado na árdua tarefa de suceder a Alex Ferguson como treinador do United, mas o escocês montou um West Ham altamente competitivo, uma formação muito difícil de bater e com qualidade individual altamente relevante em nomes como Zouma, Rice ou Soucek.

E os londrinos chegaram à vantagem ao minuto 30, num remate de Benrahma que foi desviado por Varane e traiu David de Gea. Pouco depois do 1-0, Ronaldo teve uma boa situação para empatar, mas o luso atrapalhou-se e o lance perdeu-se.

Só que há algum tempo que "Cristiano" se tornou prelúdio racional de "golo" e, portanto, pouco há a fazer para evitar tão estreita relação. Ao minuto 35, Bruno Fernandes voltou a descobrir Ronaldo com uma grande assistência para que o capitão da seleção nacional, na recarga, apontasse o seu quarto tento em três partidas neste regresso a Old Trafford.

O London Stadium, na primeira vez que CR7 o visitava enquanto casa do West Ham, tornava-se assim no 66.º estádio diferente no qual o português marcou golos em jogos de uma das cinco principais ligas da Europa. Mais um ponto do infindável mapa goleador de Ronaldo, o qual se vai assemelhando, a passos largos, a um daqueles atlas com o nome de todos os países e das principais cidades.

Justin Setterfield/Getty

Após o 1-1, Cristiano foi tentando a reviravolta, mas as tentativas do português, sempre bem assistido por Bruno Fernandes ou pelo talentoso Greenwood, esbarraram na competência do guardião polaco Fabianski. E, no segundo tempo, voltaram a levantar-se dúvidas recorrentes em torno deste Manchester United.

A equipa de Solskjaer teve dificuldades para dominar o seu adversário em ataque organizado, com um futebol algo descontínuo, sofrendo perante a agressividade, entusiasmo e organização rivais. Ao minuto 73, o técnico norueguês socorreu-se do seu luxuoso banco de suplentes para colocar Jadon Sancho e Jesse Lingard em campo, e as alterações revelar-se-iam decisivas.

No passado mês de janeiro, Lingard vivia o momento mais delicado da sua carreira profissional. Internacional inglês com presença no Mundial 2018, o jogador tinha desaparecido das opções de Solskjaer, não tendo realizado qualquer partida na Premier League até à reabertura do mercado de transferências, momento no qual foi cedido ao West Ham.

Em Londres, Lingard reencontrou-se como jogador, com nove golos e quatro assistências em 16 partidas, o regresso à seleção e a prova de que ali ainda vivia um futebolista de muito bom nível. Como gratidão pelos serviços prestados, o público do West Ham aplaudiu-o quando Lingard entrou para a partida. E, 16 minutos depois, Jesse "agradeceu-lhes" com um grande golo, colocado a bola no ângulo superior esquerdo da baliza dos londrinos ao minuto 89.

Julian Finney/Getty

Era legítimo pensar que se acabaria ali, naquele festejo contido de Lingard, a história da partida na qual Ronaldo pediu, por três vezes na segunda parte, penalti. Mas nesta tarde de mitos ainda havia tempo e espaço para mais um.

Nos descontos do segundo tempo, Luke Shaw abordou mal um cruzamento de Yarmolenko, detendo-o com o braço e marcando Atkinson penalti. Perante o entusiasmo dos adeptos do West Ham e desespero dos jogadores do United, Moyes virou-se para o banco e viu uma lenda.

Mark Noble já realizou 530 partidas pelos hammers. O capitão, de 34 anos, acaba contrato no final da presente temporada e já anunciou que não continuará no clube, pelo que vive os últimos meses com a camisola do emblema dos seus amores. E, após ser assinalado o penalti, Moyes chamou Noble para entrar. E para marcar o castigo máximo.

Noble foi diretamente do banco para o ponto de penalti. Correu para a bola, rematou, mas David de Gea defendeu. Desde abril de 2016 que o espanhol não parava um penalti, tendo encaixado 40 castigos máximos consecutivos. Desta feita, o guardião evitou o golo, para desespero de Noble.

Justin Setterfield/Getty

A partida terminou pouco depois, com De Gea, habitual foco de críticas dos adeptos do United, a festejar uma tarde na qual terminou como herói. E Ronaldo reconheceu-o, correndo para abraçar o guardião entoando um "vamos" com acento castelhano. Mark Noble ia andando cabisbaixo pelo campo, lamentando-se por não ter conseguido marcar. Em tarde de homenagem a Greaves, Cristiano não faltou ao seu tributo ao golo.