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Futebol internacional

Uma conversa com Tommasi sobre os problemas no futebol: “Os jogadores de topo devem ter a sensibilidade de lutar por maior equidade”

Antigo internacional italiano e figura marcante da história recente da Roma, Damiano Tommasi é um lutador pelos direitos dos atletas. Presidente do sindicato de jogadores italiano entre 2011 e 2020 e membro da direção da FIFPro (entidade que, a nível mundial, representa as associações de futebolistas dos diferentes países), defende, em entrevista à Tribuna Expresso, “uma ideia de desporto na qual os jogadores tenham voz ativa, coordenada e coletiva, que seja tida em consideração pelas federações e organizadores das competições”. E recorda que "o desporto é feito de pessoas, não de máquinas"

Pedro Barata

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A 22 de julho de 2004, Roma e Stoke City encontraram-se na Áustria para um rotineiro amigável de pré-temporada. Durante a partida, Damiano Tommasi, médio experiente e vencedor da Serie A com a equipa da capital em 2000/01, sofreu uma lesão muito grave num joelho. Os médicos do clube disseram que era como se o joelho tivesse “explodido”. “Tudo o que se podia ter partido, partiu-se”, foi a frase utilizada.

Tommasi, internacional italiano que havia disputado o Mundial 2002, enfrentou então um longo período de recuperação. Na época 2004/05, o centrocampista não realizou qualquer jogo pela Roma, cumprindo 31 anos em maio e terminando no final dessa temporada o seu contrato com o clube. Na campanha seguinte, os giallorossi tinham dúvidas em dar novo vínculo a um jogador daquela idade que vinha de tão prolongada baixa. E, então, Tommasi sugeriu assinar um contrato a receber 1500 euros por mês, o salário mínimo para um jogador da Serie A. E, em 2005/06, fez 36 partidas, voltando a sentir-se futebolista.

New Press/Getty

A Tribuna Expresso falou com Tommasi, uma pessoa de respostas longas mas ponderadas, com frases carregadas de conteúdo. Um homem altamente preparado para falar de temas como a sobrecarga do calendário, ordenados em atraso ou a estrutura sindical dos jogadores. Um antigo futebolista que, já como atleta, pensava em alertar para os problemas da sua profissão. E foi, também, por isso que fez à Roma a proposta do salário mínimo.

“Eu tinha 31 anos, não tinha contrato e o meu joelho era uma incógnita. Era normal que houvesse dúvidas no clube sobre dar-me um contrato do nível do que eu tinha”, diz-nos o italiano. “O treinador Spalleti insistiu em ter-me no grupo e eu queria muito voltar a jogar e fazê-lo com a camisola da Roma, onde já estava há 10 temporadas, provando que ainda era capaz de fazer o meu trabalho. Isso era mais importante para mim do que a parte financeira”, comenta Tommasi, que explica qual era o outro objetivo por detrás da situação que foi amplamente noticiada em Itália.

“Aquilo que eu queria mesmo era que as pessoas reparassem que o ordenado mínimo para um jogador da Seria A era muito baixo se pensássemos na dimensão da divisão, no dinheiro que movimenta e nas responsabilidades e riscos existentes de uma carreira curta”, salienta o transalpino, que diz que “o salário mínimo na altura deveria ser mais alto” e que “hoje continua mais ou menos nos mesmos valores”, sendo “importante” que “Itália siga a linha de outros países, que têm valores mínimos de ordenados para futebolistas profissionais bem superiores”.

ANDREAS SOLARO/Getty

Após fazer 350 encontros pela Roma entre 1996 e 2006, somar 25 internacionalizações por Itália e jogar também em Espanha, Inglaterra e na China, Tommasi decidiu dedicar-se a defender as causas para as quais, já como atleta, tentava despertar consciências. Em 2011, tornou-se presidente da “Associazone Italiana Calciatori”, o sindicato dos jogadores de futebol do país. Desde a criação da instituição, em 1968, até à chegada de Damiano, só um homem havia sido presidente do sindicato, exercendo a função durante 43 anos.

Em 2020, concluído o seu terceiro mandato, Tommasi abandonou a presidência devido à limitação de tempo na liderança que ele próprio colocou. “Achei importante colocar um limite de mandatos, porque acredito que isso te obriga a fazer as coisas que queres fazer num certo tempo e evita que as pessoas se eternizem no poder, perdendo motivação”, opina o italiano, agora de 47 anos, que acreditar ter feito um trabalho “muito positivo” num sindicato que vinha de “uma liderança tão longa”, não sendo “fácil entrar para uma organização que era liderada há 43 anos pela mesma pessoa”.

Apesar de já não estar no sindicato, Damiano Tommasi continua a fazer parte da direção da FIFPro, o organismo que representa e junta as associações de jogadores dos diferentes países do mundo. E fá-lo por “estar convicto de que lutar por dar melhores condições aos atletas é muito importante”.

Com Ronaldo, numa gala de atribuição de prémios do futebol italiano

Com Ronaldo, numa gala de atribuição de prémios do futebol italiano

MIGUEL MEDINA/Getty

E a “luta” do italiano “começa” na “promoção de uma ideia de desporto na qual os jogadores tenham voz ativa, coordenada e coletiva, que seja tida em consideração pelas federações e organizadores das competições”, explica à Tribuna Expresso. Para Tommasi, ter este peso dos protagonistas nas decisões “é algo que só faz bem ao desporto”, visto que “se o desporto tiver condições que agradam a quem o pratica, certamente agradará mais ao público”. E dá o exemplo da nadadora Federica Pellegrini, ouro olímpico em Pequim’2008, como uma “atleta disposta a fazer parte desta ideia” [a italiana foi eleita pelos atletas participantes nos Jogos de Tóquio para a comissão de atletas do Comité Olímpico Internacional, juntamente com Pau Gasol, Maja Włoszczowska e Yuki Ota, num mandato que terminará nos Jogos Olímpicos de Los Angeles’2028].

No entanto, o antigo médio lamenta que “muitas vezes, quem decide nem sequer escuta as opiniões dos desportistas, quanto mais tê-las em conta”, e aponta um exemplo como paradigmático: “o da chamada Superliga”, visto que “ninguém ouviu os jogadores para operar uma mudança enorme que os afetava diretamente, mas depois a primeira resposta que se deu contra a Superliga foi propor a suspensão dos atletas que nela participassem”. Para Tommasi, este caso é “altamente ilustrativo”, dado que “nunca se deu voz aos atletas em todo o processo, mas pensou-se logo em puni-los quando se pensou no combate à Superliga”. É em casos como este, argumenta Damiano, que “se nota a falta de uma voz mais bem coordenada dos atletas”, exprimindo a sua opinião numa frase: “Todos devemos fazer mais”.

Em 2018, com Sergio Mattarella, o presidente italiano

Em 2018, com Sergio Mattarella, o presidente italiano

Claudio Villa/Getty

Mas o que leva a que essa voz dos protagonistas não seja mais ouvida? Tommasi é lesto a falar da “falta de predisposição de federações, ligas, organizadores e demais entidades” para terem em consideração a opinião dos jogadores, mas também aponta responsabilidades ao seu grémio. “Organizações como os sindicatos têm a grande responsável de formar e consciencializar os futebolistas, dando-lhes instrumentos para que possam decidir, para que façam escolhas responsáveis”.

O antigo presidente do sindicato de jogadores de Itália fala num “efeito bola de neve”. Como “as principais entidades nunca deram uma voz importante aos atletas”, estes “criaram pouca consciência” sobre a importância de terem peso nas questões que os afetam, e “se essa consciência não é criada, os atletas não se impõem e não são ouvidos”, voltando-se ao início deste problema “complexo”. Tommasi considera que é “como os jovens e a política”, na medida em que “quando os jovens se interessam” por ela, é nos momentos em que a “política dá mais espaço aos jovens”, e a política “dará mais esse espaços se sentir o interesse, capacidade e gosto dos jovens”. No caso dos atletas, “é preciso que estes tenham a paixão de participar e que as instituições lhes forneçam o espaço para que eles participem”.

Outro tema forte da atualidade do futebol mundial é a sobrecarga competitiva do calendário, questão que volta a estar na ordem do dia com a proposta de um Mundial a cada dois anos. Para Tommasi, este é um “tema decisivo”, que tem sido “muito falado” nas reuniões da FIFPro. O italiano considera que “todas as ligas, federações e entidades, numa constante competição umas com as outras, querem sempre organizar mais e mais torneios, porque isso significa mais jogos, logo mais receitas”, mas “o problema é que os jogadores são os mesmos, não se multiplicam”. O antigo centrocampista considera esta “uma questão de saúde” para os jogadores, que foi “agravada na última temporada”, quando “houve uma época a ser disputada em menos tempo que o normal e um Europeu a ser disputada em todo o continente, com imensas viagens”.

Tommasi destaca ainda que, além do “ponto primordial da saúde", há a “parte do espectáculo”, porque se “quer que os clubes apresentem em campo os grandes campeões, mas este calendário leva a lesões e desgaste, e, sem os grandes atores no palco cénico, o espectáculo será pior”. No entender do membro da FIFPro, “um caso exemplar foi o de Franck Kessié. Ele fez 50 jogos pelo Milan em 2020/21 e oito partidas pela seleção da Costa do Marfim, com voos intercontinentais apra disputar esses compromissos. Terminada a época, foi para Tóquio disputar os Jogos Olímpicos. E depois dos Jogos lesionou-se e falhou o começo de época do Milan, que era uns dias depois do final dos Jogos, porque é uma acumulação de competição muito grande”.

Damiano Tommasi expressa a sua "preocupação" de maneira clara: “O desporto é feito de pessoas, não de máquinas. E as pessoas têm tempos próprios que é preciso respeitar e cuidar. Isto nem é bem uma questão sindical, é uma questão de saúde e de melhorar o nosso jogo”.

Disputando um lance com Rui Costa, num duelo entre Roma e Fiorentina

Disputando um lance com Rui Costa, num duelo entre Roma e Fiorentina

Claudio Villa/ Grazia Neri/Getty

Ainda assim, o italiano realça que “tem havido progressos”, como “no que toca aos ordenados em atraso”, dado que, “ainda que todos os anos haja em Itália clubes com incumprimentos”, deu-se “um passo importante” ao “entender que os salários em atraso não são só uma questão de direitos de trabalhadores, mas também um tema de igualdade competitiva”. Isto porque “se um clube promete pagar a jogadores de grande valor cifras que não consegue pagar, mas utiliza esse atleta no campo, está a obter uma vantagem competitiva baseada em algo que não pode pagar”.

Tommasi viveu uma carreira no topo do futebol, com 265 partidas na Serie A, 44 na La Liga ou 63 nas competições europeias. Será que os jogadores de elite têm uma visão solidária em relação a todo o futebol não só o do topo da pirâmide mas também os níveis mais baixos? Tommasi acha que “nos últimos anos, a preocupação da elite para com o resto é menos forte do que no passado”, e tudo porque anteriormente “a grande maioria dos jogadores de seleção tinham passado por divisões inferiores, tendo conhecimento de outra realidade do futebol”.

Ora, de acordo com o já retirado médio, hoje “os jovens recebem muito mais dinheiro desde muito mais cedo e os clubes grandes recrutam todas as promessas dos emblemas mais modestos em idades cada vez mais novas”, levando isto a que “haja uma separação cada vez maior entre o mundo da elite e o mundo das divisões mais modestas”, quando, segundo Tommasi, “são duas realidades que estão conectadas na pirâmide do futebol”. Voltando a pegar no exemplo da Superliga, o italiano entende que propostas como a da criação da competição “são uma grande demonstração de como parte do futebol se sente separado do resto do jogo”.

Com Totti e Pirlo, numa gala de entrega de prémios

Com Totti e Pirlo, numa gala de entrega de prémios

MIGUEL MEDINA/Getty

O italiano lança para cima da mesa uma das suas ideias mais vincadas: a importância de que, no futebol, exista uma mais efetiva redistribuição do dinheiro.

Para isso, entende ser precisa a ação dos atletas. Segundo Tommasi, a “solução para o reequilíbrio do sistema para dos jogadores de elite”, os quais “deve ter uma representatividade maior nos organismos decisores a nível mundial e, sobretudo, devem ter a sensibilidade de lutar por maior equidade e para que os seus clubes contribuam mais para o resto”.

Perante este problema, Damiano pega no exemplo italiano, onde “se está a discutir a reforma dos campeonatos e várias instituições têm lutado por uma redistribuição dos recursos mais justa e efetiva”, algo que “é difícil”, dado que “cada clube só olha para a sua posição” e “no final de contas acaba por ir muito pouco dinheiro para as categorias mais baixas”. Tommasi explica que esta desigualdade também acaba por “tornar os clubes mais modestos mais permeáveis à entrada de pessoas de proveniência duvidosa, que só fazem mal ao futebol” que “é trabalho do sindicato realizar um trabalho de sensibilização para esta necessidade de redistribuição”.

Uma conversa com Tommasi não se mede bem em minutos, mas em densidade de argumentos e encadeamento de ideias próprias e estruturadas. E ele garante que “continuará com esta paixão” que é ocupar a sua vida tentando lutar para melhorar a vida dos outros.