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Futebol internacional

A UEFA está “desiludida” com a FIFA pela proposta do Mundial a dois anos e alerta para os “perigos reais” da ideia

O máximo organismo do futebol europeu respondeu à ideia da entidade liderada por Infantino, num comunicado em tom duro em que expressa "sérias preocupações" perante a forma como a FIFA tem liderado o processo, acusando-a de estar a fazer "campanhas promocionais" para defender reformas que ainda não foram objeto de "consulta e debate"

Pedro Barata

DeFodi Images

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Há muito que FIFA e UEFA têm relações conturbadas. O clima de disputa entre ambas as organizações intercala momentos de confronto público e notório, com outras alturas em que o antagonismo não é tão ruidoso, mas há algum tempo que entre Zurique (onde está sediada a FIFA) e Nyon (base da UEFA) não há propriamente amizade e sorrisos.

As organizações lideradas por Gianni Infantino e Alexander Ceferin têm agora novo motivo de discórdia: a proposta da FIFA de realizar um Mundial a cada dois anos. Ceferin já havia dito, sobre a ideia defendida por Wenger, que “mais nem sempre é melhor” e que “a joia do Campeonato do Mundo é precisamente a sua raridade”, mas a UEFA, em comunicado oficial, foi mais longe.

Paul Murphy - UEFA/Getty

A entidade começa por recordar que, em maio de 2021, o congresso da FIFA mandatou a administração da entidade para que “conduzisse um estudo sobre a viabilidade de Mundiais masculino e feminino a cada dois anos”, escrevendo a UEFA que, no seu entender, “viabilidade engloba todos os efeitos e consequências” em relação a uma série de questões, desde o “calendário, formatos e qualificação” até ao “impacto na saúde física e mental dos jogadores”, passando pelas “consequências para as competições de clubes”, “desejo dos adeptos de ver torneios com maior frequência” ou “impacto no valor do Mundial como evento e marca”.

A UEFA, que diz “esperar por saber os resultados detalhados” do referido estudo, critica a maneira como o processo de reestruturação do calendário internacional tem sido conduzido pela FIFA, dizendo-se “desapontada”, visto que “a metodologia adotada” tem levado a que “reformas radicais sejam comunicadas e abertamente promovidas” pela FIFA sem que tenha havido a oportunidade para que “partes interessadas” possam “participar em qualquer reunião de consulta”.

Recorde-se que a FIFA realizou, no começo do mês, uma reunião em Doha com a presença de vários antigos jogadores para discutir a hipótese de o Mundial passar a ser disputado a cada dois anos. Após esse encontro, as vozes de figuras de peso do futebol começaram a ser ouvidas em apoio à proposta, como foram os casos de Ronaldo “Fenómeno” ou Peter Schmeichel.

A UEFA critica este tipo de promoção que a FIFA tem realizado (praticamente ao mesmo tempo que era emitido o comunicado da UEFA, a FIFA publicava mais um vídeo de um antigo futebolista, no caso Pablo Zabaleta, a defender as reformas preconizadas por Wenger).

Mike Hewitt - FIFA/Getty

A UEFA entende que "o futuro do calendário internacional" deve ser motivo de "genuína consulta e debate entre a FIFA, as confederações e outras partes interessadas", começando essa discussão com "um debate aberto sobre os problemas" existentes e "considerando um leque de soluções" que surgissem ao longo do diálogo, "tendo em consideração o interesse do futebol e os pontos de vista legítimos das diferentes partes".

A organização liderada por Ceferin acrescenta que, "nesta fase", o "respeito pelo processo de consulta com as partes interessadas" deveria levar à "abstenção de campanhas promocionais de conceitos pré-determinados" decididos de "maneira unilateral", os quais não "foram vistos em detalhe por ninguém" e que possuem "efeitos muito abrangentes, e muitas vezes inesperados".

A UEFA elenca os "perigos reais" do "plano" da FIFA: "diluição do valor do principal evento do futebol mundial, cuja periodicidade dá-lhe uma mística com a qual gerações de fãs cresceram"; "erosão de oportunidades desportivas para as seleções mais fracas, devido às substituições de jogos regulares por fases finais de torneios"; "o risco para a sustentabilidade os jogadores"; "o risco para o futuro das competições femininas, privadas de espaços de calendário exclusivos e ofuscadas pela proximidade de grandes eventos masculinos".

O organismo máximo do futebol europeu considera haver "sérias preocupações" levantadas pela ideia da FIFA, que não podem ser "dispersadas simplesmente com frases promocionais sem substância".

A UEFA remata dizendo que, a 14 de setembro, pediu, em conjunto com as suas 55 federações-membro, uma "reunião especial" com a FIFA para que fosse possível expressar "as preocupações sobre o impacto" das propostas da organização liderada por Infantino. No entanto, a entidade liderada por Ceferin refere que "até à data" ainda não "recebeu uma resposta" ao pedido.