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Futebol internacional

“Não há milagres” na vida sem estabilidade entre Koeman e o Barça

Esta quarta-feira, o treinador neerlandês apareceu numa suposta conferência de imprensa de antevisão ao jogo contra o Cádiz só para ler uma curta declaração, sem direito a perguntas, defendendo que "o processo" no qual se encontra a equipa do Barcelona "merece ser incondicionalmente apoiado". Foi mais um episódio no turbilhão do caos que se acelerou ainda mais sobre o Barça desde a saída de Lionel Messi, no verão, piorado pela ruína financeira do clube e pelas candeias às avessas em que andam o treinador e o presidente

Diogo Pombo

Soccrates Images

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Não é de agora que uma conferência de imprensa de antevisão a um jogo de futebol é deturpada, muitas vezes, no seu propósito original, que é o de falar sobre a partida que aí vem, o adversário, as estratégias, os jogadores, enfim, falar acerca do jogo e apenas do jogo. Mas, com decrescente acesso a futebolistas e treinadores, esse momento foi sendo aproveitado por jornalistas para perguntarem aos intervenientes, diante de toda a gente, o que não se tem hipótese de questionar diretamente.

Para esta quarta-feira, em Barcelona, estava marcada mais uma conferência de imprensa para o treinador, Ronald Koeman, antever o que será o próximo encontro da La Liga, contra o Cádiz, e responder ao que os jornalistas teriam para lhe lançar.

Tendo em conta os episódios recentes da vida do clube — derrota por 0-3 com o Bayern de Munique (sem acertar um remate na baliza), para a Liga dos Campeões, empate a um golo com o Granada (com 54 cruzamentos feitos, qual anti-tese do que há décadas é a forma de jogar do Barça), também em Camp Nou, e as francas declarações ditas depois pelo holandês —, talvez as interrogações não fossem as mais confortáveis.

Mas o que seria uma conferência de imprensa virou uma declaração à imprensa de Ronald Koeman.

Apareceu na sala, sentou-se, colocou uns óculos para ajudarem os olhos a focar as frases que trazia escritas numa folha de papel. O técnico limitou-se a ler a espécie de comunicado que trazia na cábula:

"O clube está comigo numa situação de reconstrução. A situação económica está ligada à desportiva. Nós, enquanto plantel, temos de reconstruir uma equipa sem fazer grandes contratações e isso precisa de tempo. Os talentos podem ser estrelas mundiais num par de anos. Os jovens terão oportunidades, como as tiveram Xavi e Iniesta, mas pede-se paciência.

Depois disso, acabar lá em cima da classificação seria um êxito. O futebol europeu é uma boa escola para esses grandes talentos e na Liga dos Campeões não se podem esperar milagres. A derrota contra o Bayern de Munique, na semana passada, deve ser encarada nessa perspetiva. O processo em que nos encontramos merece ser incondicionalmente apoiado, em palavras e ações. Apoiem a política técnica e o processo que estamos a fazer, sei que a imprensa reconhece isso, não é a primeira vez na história do Barcelona que isto acontece.

Contamos com o vosso apoio nestes tempos difíceis. Nós, enquanto plantel e jogadores, estamos muito, muito contentes com o grande apoio dos adeptos, como o que tivemos no dia do jogo em casa, contra o Granada. Visca el Barça e muito obrigado por terem vindo".

Ronald Koeman tirou os óculos, levantou-se, a folha de papel numa mão, apressando-se a sair da sala de imprensa com os calções e a t-shirt que tinha vestidos.

A imagem de um treinador a ser cercado pelas prestações assim-assim de uma equipa, vindas já da época passada e acentuadas nesta ressaca que está a suportar da inebriação de ter tido Lionel Messi durante tanto tempo, a melhor das máscaras para disfarçar falências técnicas e táticas que parecia ser para sempre.

A isto, foram-se juntando os resultados aquém, as finanças do clube, os recados meio que a depositar culpas nos jogadores, as finanças em cacos e a relação instável com o novo, mas velho presidente, eleito em março. Joan Laporte herdou as caótico fundações de barro de Josep Bartomeu, o seu predecessor, uma delas o próprio Ronald Koeman, assim descrito a partir do momento em que se tornou claro que não era o treinador desejado pela nova direção.

Foi escrito por todo o lado que, após ser eleito, Laporta se reuniu com o holandês, pedindo-lhe 14 dias para pensar se continuaria a ser o homem encarregue de liderar o rejuvenescimento possível da equipa do Barça. "Imaginem: quero casar contigo, mas tenho as minhas dúvidas, dá-me duas semanas para encontrar alguém melhor. Se não descobrir a pessoa certa, casamos de qualquer forma", descreveu Rob Jansen, o empresário do holandês, ao jornalista catalão Guillem Balague, que escreveu sobre os tempos recentes do clube na "BBC".

Uma das heranças com que todos têm de lidar é o contrato rubricado e assinado por Ronald Koeman e Bartomeu, em agosto de 2020. O treinador estava na seleção dos Países Baixos, o clube não tinha liquidez para suportar os 6 milhões de euros da sua rescisão, então o neerlandês pagou esse valor, mas no vínculo com o Barça ficou a garantia de que seria restituído nesse dinheiro caso não tenha uma terceira época a treinar o clube.

Koeman vai na segunda, porque assinou um contrato de duas épocas com Bartomeu — quando, porventura e dados os sintomas de instabilidade já visíveis na altura, o prudente tivesse sido apenas uma —, que foi renovado ainda por esse ex-presidente. Foi quase colocar preto no branco uma garantia de futuros imbróglios para o Barcelona, que agora os parece estar a viver.