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Futebol internacional

Ronaldo, um fenómeno intermitentemente imparável

Ronaldo Luís Nazário de Lima nasceu há 45 anos, em Bento Ribeiro, no Rio de Janeiro. Esta é uma parte da sua história, com exibições memoráveis, golos, dribles e desabafos de testemunhas. Porque Ronaldo foi um conceito, um estilo, uma marca e uma revolução

Hugo Tavares da Silva

Christian Liewig - Corbis

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Se o vento quisesse ser gente como a gente, teria escolhido ser Ronaldo, "o Fenómeno”. Como a mudança nem sempre é fácil de tragar, assim não ficaria tão surpreendido quando lhe tocasse conviver com aquelas arrancadas que mais pareciam rajadas sem memória e inconscientes, também desenhadas pela natureza nos entretantos da calmaria, para depois se levantar mais uma ventania e sacudir quem ousa tentar parar o que é inevitável. Os homens não sabem parar o vento.

Há não muito tempo, Jorge Valdano escreveu no “El País” sobre o maior futebolista brasileiro de todos os tempos. Refletia sobre como se define o melhor, mas num ápice deixou as certezas morrerem de fome, e declarou: “O que sei é que ver jogar Pelé era instalar-se no assombro”. É injusto para ninguém roubar esta ideia para a vestir na carapaça de Ronaldo Nazário, que um dia Bobby Robson comparou com um pugilista de peso médio, com “bons ombros, bons bícepes, bom corpo e pernas fantásticas”.

O “Fenómeno” jogava como qualquer miúdo gostaria de jogar na escola ou em qualquer lugar do mundo: pegava na bola e o caminho, fatal e saboroso, era a baliza. Sempre. Às vezes fintava um, dois ou três paradores de vento, as mangas da camisola dançavam, agitadas, sinalizando o calibre do movimento; deixava os guarda-redes para trás para experimentar o gozo de um golo numa baliza deserta, inventava dribles e a pancada que levava denunciava o gigante, semeava todas as formas de burburinho na garganta de quem o mirava e, como uma feitiçaria, fazia com que homens que já sabiam que não eram como ele levassem as mãos à cabeça.

O “Fenómeno” jogava como qualquer miúdo gostaria de jogar na escola ou em qualquer lugar do mundo e gozava de um detalhe: ninguém lhe cobrava os dribles falhados, as perdas de bola e a vertigem, os riscos.

Era futebol, engano, malandrice e gol. Diversão.

Era, por não anular a criança que levava debaixo da pele, a verdade mais verdadeira de todas. As fotografias onde aparece a beijar a bola atestam o lado mais puro da história.

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E se não podia ser a alma das mais belas ventanias, temporais, furacões e tempestades, preferia quedar-se algures, desfrutando da paisagem, destapando a utilidade numa qualquer nesga. Ronaldo não era daqueles futebolistas que precisam de estar constantemente a tocar na bola, sentindo-se parte do jogo, pelo menos nos primeiros anos da carreira. Movimentava-se, sim, assustava pela presença e pela ausência, pois estaria certamente a magicar algo importante. Ele queria ser chamado para ser herói e, graças à supersónica velocidade, já manipulava e explorava as linhas defensivas como poucos.

O felino avançado aguardava pacientemente, parecia até jogar um jogo só dele, alheava-se, cansado de saber que a bola já lhe manifestara amor eterno e que regressaria. Talvez seja o melhor encaixe para aquele trecho de Eduardo Galeano: “Não sou mais do que um mendigo do bom futebol. Vou pelo mundo, com o sombrero na mão e nos estádios suplico por uma linda jogadita, por amor de Deus. E quando o bom futebol acontece, agradeço o milagre”.

"R9" desaparecia por alguns minutos e, de repente, ali estava, a linda jogada a sobressaltar o coração dos maiores crentes do domingo santo, que deliravam na mais nobre e generosa das febres. O futebol de Ronaldo era intermitente talvez para os homens vulgares aguentarem e poderem, vagarosamente, testemunhar tal edificação do que é extraordinário.

O rapaz, hoje dono do Valladolid (e que celebra 45 anos), estreou-se com 16 anos no Cruzeiro. Com 17, se alguém cometera antes essa heresia, já ninguém duvidava, sobretudo depois de algumas exibições especiais, como aqueles cinco golos num 6-0 ao Bahia e uma arrancada frente ao Boca Juniors, que marcaria um estilo, em que deixou três defesas e um guarda-redes pelo caminho. Depois de algumas mensagens, a Tribuna Expresso chegou finalmente a um adepto do Bahia e tentou resgatar-lhe algo das pradarias da lembrança desse jogo de novembro de 1993. A resposta foi um tratado: “Como bom tricolor, aqueles [golos] já deletei da memória… Pesquisa pela imprensa…”.

As reticências parecem lanças afiadas.

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Em Belo Horizonte, o camisa 9 marcou 57 golos em 59 jogos e recebeu um carro das mãos do presidente, mas que não o conduzia porque não tinha carta. Era Dida, guarda-redes e vizinho, que levava o carro do menino e com o menino todos os dias para o treino.

Tostão, avançado refinado daquele Brasil de 1970 e uma das maiores figuras do Cruzeiro, garantiu que Ronaldo, tal como Romário, lhe roubaria um lugar no melhor 11 brasileiro da história: “Não há nenhuma dúvida de que ele foi um dos maiores da história do futebol. Talvez tenha sido o maior centroavante de todos os tempos”.

Depois de galgados campos secos, de relva alta e nem sempre planos com uma eloquência incomum para tão imberbe pessoa, campos que, tal como os paradores de vento, não souberam travar o garoto, seguiu-se o PSV. Ali, indiferente à sombra de Romário, também encontrou espaço para correr e ser quem é, muito prazer, sou o Ronaldo da alegre e irresistível inconsciência nos pés.

Na temporada 1996/1997, já depois de marcar a Portugal no jogo para a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Atlanta, virou Barcelona do avesso. Era imparável, intermitentemente imparável. “Acho que foi o melhor ano da vida do Ronaldo”, chegou a dizer José Mourinho, na altura adjunto de Robson. “[O Bobby] foi como um pai para ele, percebia a personalidade de um miúdo brasileiro e, ao mesmo tempo, dava-lhe a liberdade para ser Ronaldo no relvado.”

Christian Liewig - Corbis

O futebol jamais esquecerá aqueles hat-tricks no 5-4 contra o Atlético Madrid para a Copa do Rei (0-3 ao intervalo e a cabeça de Robson na guilhotina, com Van Gaal na bancada) e num 3-2 ao Valência, com um golo que ombreou com o fenomenal marcado ao Santiago Compostela, o tal em que Bobby Robson levou as mãos à cabeça. Tanto tempo depois, ainda é arrepiante ver. “Eu dizia ‘passa a bola’, não passou, ‘passa a bola’, não passou... Então ele fez o golo e eu disse: ‘OK, está certo, não passes a bola. Ele é perfeito”, contou em tempos Pep Guardiola, que jogava no meio-campo do clube catalão.

Foram muitas jogadas bonitas, tantas delas depois de tentativas frustradas, mas ele funcionava como se não tivesse memória, não ficava afetado, olhava para a frente, literal e metaforicamente. Cada passe dos colegas, cada receção, tudo podia ser uma esquina para o fugaz infinito. Uma das razões para estar tão bem chamava-se Bobby Robson. “Ele passava-me tranquilidade, mantinha-me sempre com os pés no chão”, diria, muitos anos depois, numa entrevista.

Sovando de desgosto a carcaça dos catalães, convertidos em suspiradores profissionais, mudou-se para Itália, para jogar no Inter de Milão.

Já não vestia a 9, como no Cruzeiro, PSV e Barcelona, agora era o 10, um acaso que lhe fazia justiça, embora ele quisesse sempre o 9, o letal 9, o senhor dos destinos e sortes de tribos inteiras (acabaria por ter o seu 9). Também ali foi especial, único, diferenciado e quem sabe a razão da existência de muita gente. Os problemas também começaram ali, com as lesões no joelho. Ele, com os olhos cheios de carinho e os pés cheios de perdão, como quase cantava Vinicius, voltaria sempre. E enchia de esperança os que se levantavam da cama pela fresca, até o mais cínico dos cínicos.

Entre 1993 e 2002, marcou 205 golos em quatro clubes. Os dribles nem valia a pena contabilizar, os suspiros idem. O seu jogo ia mudando, já não era bem como o vento jogaria se pudesse jogar futebol como os homens, o corpo mudara, a velocidade também, por isso passou a fazer o que não apreciava assim tanto: jogar de costas, ser referência, facilitar o jogo da equipa.

Andreas Rentz

Em Madrid, já depois de ser campeão do mundo com um pentado à Cascão da "Turma da Mônica" (para que não lhe perguntassem sobre o joelho), tal como fora em 1994 sem jogar (finalista em 1998), a sua técnica e definição encaixaram tal como os melhores versos dos melhores poemas dos melhores poetas. Com Figo, Zidane, Guti, Raúl, Beckham e Roberto Carlos por perto, como não? Claro que não faltam vídeos e momentos individuais inolvidáveis. Como esquecer, apesar da derrota (4-3), aqueles três golos em Old Trafford? Os galáticos ofereceram-nos grandes noites.

Na capital espanhola, onde celebrou 104 golos em 177 partidas, foi campeão nacional pela primeira vez. A Liga dos Campeões, essa musa que coloca os banais no sótão junto dos deuses, nunca chegaria. Em Barcelona, ainda assim, já ganhara a Taça das Taças — marcou o golo da vitória de penálti contra o PSG — e, em Milão, conquistou a Taça UEFA, em 1998, regalando aquele golaço em que deixou completamente desamparado Luca Marchegiani, o guarda-redes da Lazio. Finalmente, ainda na categoria de troféus internacionais, conquistou o Mundial de Clubes na primeira época no Real Madrid.

Mark Leech/Offside

A carreira, com menos mel furioso e as virtudes do que era impossível-mas-afinal-não-era, com o corpo cada vez mais castigado e pesado, prosseguiu no AC Milan e depois, fechando tudo e pendurando as botas, no Corinthians.

Mas, e esquecendo o aborrecimento dos números e das conquistas, Ronaldo foi um conceito.

Era um estilo, uma marca, uma revolução. “Romário e Ronaldo mudaram o jogo para o número 9, era como eu queria jogar quando era miúdo”, confirmou em tempos Thierry Henry. Não deixa de ser surpreendente ou, vá, satisfatório, observar como verdadeiras lendas deste jogo falam em “R9”, que recebeu a Bola de Ouro em 1997 e 2002.

Zlatan Ibrahimovic dizia que ficava “uau” com tudo o que o brasileiro fazia. “Como driblava, como corria, como marcava golos. Era o verdadeiro fenómeno. O que ele fazia ninguém fez, era natural, não foi construído, era o que era”, admitiu o sueco, numa entrevista. Já Clarence Seedorf mencionava alguém “de outra espécie”.

Que não saibamos os números e troféus que conquistou, que sejam os dribles e a festa do golo o norte deste lero-lero, engrandece a ideia de que o futebol foi e ainda é emoção, engordando aquela certeza reconfortante de que o futebolista emociona, produz arte. Ronaldo era um artista. Era um assombro vê-lo.

Que a bola raramente lhe desobedecesse, quando a transportava a uma velocidade arrebatadora e impetuosa, é a prova cabal da vigência de um regime ditatorial imerso no talento imenso. Que o seu jogo tenha mudado e o futebol continuasse agradecido, embora nostálgico, pressente-se aí um homem inteligente e bem resolvido, letal no debate com as inevitabilidades. Foi um número 9 na vida, um dos maiores num campo de futebol.