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Futebol internacional

Liga das Nações. Quem vai suceder a Portugal? “Ainda me lembro da alegria de Ronaldo e companhia quando venceram”

A final four da segunda edição da competição decorre até domingo, em Milão e Turim. Entalada entre as fases finais do Europeu e do Mundial, a Nations League tenta conquistar o seu espaço e importância no calendário internacional, agora com Itália, Espanha, Bélgica e França. A Tribuna Expresso falou com um jornalista de cada uma das quatro seleções ainda em prova para tentar perceber o que esperar destes duelos

Pedro Barata

Tullio Puglia - UEFA/Getty

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Não há como negar: a (curta) história da Liga das Nações está intimamente ligada a Portugal. Foi um português, Tiago Craveiro, o grande ideólogo da competição; disputou-se em solo nacional a primeira final four da competição; e a equipa de Fernando Santos foi a primeira vencedora do torneio. No Dragão, em 2019, a seleção bateu os Países Baixos por 1-0, com um golo de Gonçalo Guedes que levou Cristiano Ronaldo a ser o primeiro capitão a tocar no novíssimo troféu.

Mike Egerton - PA Images/Getty

Dois anos volvidos, está de volta o formato desenhado pela UEFA para a decisão da competição, com a concentração das duas meias-finais, do jogo pelo 3.º lugar e da final em poucos dias na mesma zona geográfica. Desta feita sem Portugal (a equipa de Fernando Santos ficou atrás da França na fase de grupos, com uma derrota por 1-0, na Luz, em novembro de 2020, a revelar-se fatal), serão as seleções de Itália, Espanha, Bélgica e França a discutir quem sucederá à seleção portuguesa.

Esta quarta-feira, Espanha e Itália medem forças no Guiseppe Meazza, em Milão, enfrentando-se franceses e belgas no dia seguinte, em Turim. No domingo, dar-se-á o desfecho da competição, com o encontro para definir o 3.º e o 4.º lugares em Turim e a final em Milão.

Com as atuais campeãs do Mundo e da Europa em prova, bem como a Bélgica de uma geração de ouro que continua a correr atrás de um título e a renovada Espanha de Luís Enrique, as atenções do futebol estarão, nos próximos dias, centradas no norte de Itália. Para antever estes encontros, a Tribuna Expresso falou com Mirko Calemne, jornalista italiano que é correspondente do jornal espanhol "AS" no país, Miguel Angel Lara, da "Marca", Arnaud Hermant, jornalista francês do L'Équipe, e Guillaume Gautier, belga da "Sport/Foot Magazine".

Chris Ricco - UEFA/Getty

Se há equipa que chega a esta final four num grande momento, essa é, sem margem para dúvidas, a Itália.

O trauma da ausência do Mundial 2018 parece coisa de um muito distante passado, visto que a squadra azzurra respira confiança, embalada pelo título europeu conquistado em julho, em Wembley, e por uma série de 37 jogos sem conhecer o sabor da derrota. A última vez que a equipa de Roberto Mancini perdeu foi em Portugal, a 10 de setembro de 2018, em duelo a contar para a edição inaugural da Liga das Nações.

"Os rivais são difíceis, mas seria absurdo dizer que Itália, campeã da Europa, que não perde há mais de três anos, não é a favorita", diz-nos Mirko Calemne, numa visão partilhada por Arnaud Hermant, que destaca que os transalpinos "bateram a Bélgica e a Espanha rumo à final do Euro", triunfos que podem ser um bom prenúncio para a equipa de Mancini.

Itália reencontra, nas meias-finais, a Espanha que bateu nos penáltis na mesma fase do campeonato da Europa. Os embates entre as duas seleções são um clássico continental, tendo ocorrido nos últimos quatro europeus, com vitória espanhola em 2008 e 2012 e italiana em 2016 e 2020.

Mancini e Bonucci, após a vitória na final do Euro 2020

Mancini e Bonucci, após a vitória na final do Euro 2020

UEFA/Getty

Calemne acredita numa "Itália semelhante à do Europeu", com a técnica e inteligência de Jorginho — que tentará conquistar um quarto título internacional em 2021 e reforçar a candidatura à Bola de Ouro — e Verratti a procurar dar domínio nas partidas aos homens de Mancini. Privado dos avançados Immobile e Belotti, ambos lesionados, Calemne acredita em "Bernardeschi ou Insigne como falsos números 9", mas frisa que "a filosofia da equipa será a mesma".

O belga Guillaume Gautier avisa para a "imagem de poderio e força que os italianos transmitem neste momento". E essas são características que Federico Chiesa possui. Será que, aos 23 anos, esta final four pode ser o momento para que o elétrico jogador da Juventus se assuma como o líder de Itália? Calemne "não duvida" que Chiesa será "o líder técnico" da seleção, mas avisa que o atacante "ainda é jovem e deve crescer como jogador e pessoa". "Já é um jogador muito importante, mas acho que, para já, esse peso não recai sobre os seus ombros", opina o correspondente do "AS".

O remate com que Chiesa marcou à Espanha no Euro

O remate com que Chiesa marcou à Espanha no Euro

A tentar derrotar Itália pela primeira vez nos últimos 37 meses estará a Espanha.

A boa prestação no Europeu parecia dissipar o debate nacional em torno de Luis Enrique, mas a derrota na Suécia, em setembro, baralhou as contas do apuramento para o Mundial. "Parece mentira que, depois do Euro, o crédito ganho pela seleção se tenha esgotado tão rapidamente", refere Miguel Ángel Lara, jornalista que há muitos anos acompanha a la roja.

A relação de Luis Enrique com a imprensa continua a ser conturbada, voltando o selecionador a deixar, na antevisão do embate contra Itália, uma frase ao seu estilo: "Não leio a imprensa porque sei mais de futebol que a maioria e tenho mais informação que vocês. Não há uma opinião que possa ler que me possa interessar", disse o técnico, que voltou a dar uma lista de convocados muito polémica.

Condicionado por muitas ausências, como Jordi Alba, Gayà, Carvajal, Pedri, Gérard Moreno, Dani Olmo ou Morata, Luis Enrique surpreendeu com a chamada de Gavi, jovem de 17 anos do Barcelona que só fez três partidas como titular nos catalães. Miguel Ángel Lara explica que "Luis Enrique tende a não repetir convocatórias e a arriscar nos nomes, o que gera muito ruído e debate", referindo que Gavi "é uma aposta de risco", que se baseia na "crença que o selecionador tem no jogador, acreditando que ele possa chegar ao Mundial como um futebolista importante e consolidado".

Emilio Andreoli - UEFA/Getty

Devido aos lesionados e às mudanças que Enrique vai promovendo, veremos uma Espanha com alguns protagonistas diferentes aos do Europeu, mas Lara avisa que "há uma continuidade na ideia", na medida em que "a seleção de Luis Enrique já mostrou que se apoia numa ideia de jogo, não em jogadores". O jornalista da "Marca" alerta, ainda assim, que "tudo depende do que acontecer em novembro", referindo-se à classificação para o Mundial do próximo ano. Espanha lidera o grupo B com mais quatro pontos que a Suécia e mais sete que a Grécia, mas tem mais dois encontros realizados que os nórdicos e os helénicos, pelo que Lara diz que "mesmo se Espanha vencer agora a Liga das Nações, mas daqui a um mês ficar fora do Mundial ou tiver de ir ao play-off, o debate em torno de Luis Enrique será sempre enorme".

No plantel dos espanhóis constam dois jogadores do Sporting, aos quais, segundo Lara, devem estar reservados papéis diferentes. Pablo Sarabia "tornou-se um jogador muito importante" na seleção, após ter chegado ao Euro "sem que ninguém contasse com ele". Com dois golos apontados na fase final do torneio disputado no verão, bem como um tento marcado à Geórgia, em setembro, o canhoto "acrescenta golo" a um ataque que, de acordo com o jornalista espanhol, deverá ser formado por Sarabia, Ferran Torres e Oyarzabal, com Pablo Fornals à espreita. Já Pedro Porro, diz Lara, "não deve ter muitas opções de ser titular" devido à concorrência de Azpilicueta, mas "Luis Enrique já mostrou acreditar no lateral", que fez estrear em março.

DeFodi Images/Getty

Na quinta-feira, Turim será o palco de um duelo recheado de estrelas. No Bélgica-França, craques como De Bruyne, Lukaku ou Hazard, de um lado, e Griezmann, Mbappé e Benzema, de outro, serão protagonistas de "um jogo simbólico, pela rivalidade existente entre ambos os países", como frisa o belga Guillaume Gautier, que acha que o antagonismo entre os dois países "é um pouco como a rivalidade do Barcelona e do Espanhol, só que neste momento o Espanhol tem uma equipa ao nível da do Barça". O jornalista do "Sport/Foot Magazine" refere-se, naturalmente, ao peso que a Bélgica ganhou nos últimos anos, graças à "geração de ouro" que tem colocado o país, constantemente, nas rondas finais dos principais torneios.

Depois de ser eliminada nos quartos-de-final do Mundial 2014, Euro 2016 e Euro 2020 e de ter sido 3.ª classificada no Mundial 2018, Gautier diz que "cada competição que passa é mais uma oportunidade para que esta grande geração vença algo". E explica-nos que "há um debate nacional centrado em saber se, caso esta geração não conquiste nenhum título, isso será um fracasso ou não".

Roberto Martínez já avisou que este ainda é o momento para a "velha geração" ter protagonismo e, portanto, "não é de esperar muito espaço para nomes novos como Saelemaekers, Vanaken ou De Ketelaere", diz-nos Gautier. A quebra de rendimento de Hazard nos últimos anos "gera preocupação", reconhece o jornalista belga, mas o jogador do Real Madrid "esteve muito bem na última paragem de seleções e há esperanças de vermos um grande Hazard nesta final four".

John Berry/Getty

Após uma grande desilusão no Europeu, ao qual chegou com o rótulo de favorita mas foi eliminada pela Suíça nos penáltis, a França, campeã mundial, tentará "vencer a Nations League para compensar o fracasso do campeonato da Europa", explica Arnaud Hermant, do "L'Équipe". O jornalista acredita não haver "pressão acrescida sobre Deschamps", mas que o selecionador deve "endireitar os resultados recentes da equipa", numa referência não só ao Euro, mas também à fase de qualificação para o Mundial, na qual já somou três empates em seis partidas, com exibições "decepcionantes", diz Hermant.

Após uma longa fase a jogar numa espécie de 4-2-3-1, os últimos tempos têm trazido mudanças táticas nos gauleses. Deschamps tem apostado, várias vezes, numa linha de três centrais, como sucedeu na partida contra a Suíça que ditou a eliminação do Euro. Arnaud Hermant acredita que o selecionador "voltará a repetir a aposta" por essa linha de três centrais, em busca de "recuperar a solidez defensiva que lhe permitiu ser campeão do Mundo", isto numa Liga das Nações no qual não contará com Kanté, que testou positivo à Covid-19 na semana passada.

Mas as atenções na seleção francesa concentram-se, de maneira natural, na luxuosa frente de ataque da equipa, com Mbappé, Benzema e Griezmann. O jornalista avisa que "boa parte do êxito da seleção dependerá do bom entendimento entre os três", e logo numa fase em que os rumores sobre o futuro de Mbappé não cessam e Griezmann continua à procura da melhor forma neste regresso ao Atlético de Madrid. Por outro lado, Benzema vive um dos melhores momentos da sua carreira, com 10 golos e sete assistências esta temporada no Real.

A tentar travar as estrelas francesas estará Jan Vertonghen, o central do Benfica que soma 132 internacionalizações pela Bélgica. Guillaume Gautier alerta para as "preocupações" que há no país pela "falta de renovação na defesa", onde "Vertonghen, de 34 anos, e Alderweireld, de 32 e a jogar no Catar, continuam a ser as melhores opções, sendo que Vermaelen só não está na Liga das Nações por problemas na vinda do Japão, onde joga desde 2019". Gautier acredita que estes defesas "podem não estar num nível tão bom como no passado" e que "a sua veterania levou Martínez a adaptar um pouco o futebol da seleção, baixando o bloco devido à falta de velocidade dos centrais", mas que "a experiência e inteligência de Vertonghen ainda são armas muito importantes".

Matthias Hangst/Getty

França, Itália e Espanha já foram ou são campeãs do Mundo e da Europa e sonham com serem a primeira seleção da história a somar a Liga dos Nações a esses dois títulos, ao passo que a Bélgica deseja colocar um primeiro troféu nos braços da sua geração dourada.

Mas que importância está a ser dada, em cada um dos países, a esta final four?

Os quatro jornalistas são unânimes ao considerar que, não tendo o torneio o peso das mais importantes competições internacionais, este é já um título cobiçado. "Lembro-me bem da alegria de Ronaldo e companhia quando venceram o título no Porto", diz-nos Arnaud Hermant. Já Miguel Ángel Lara opina que "a Liga das Nações tem sido um êxito, por ter tirado jogos amigáveis do calendário e promover grandes embates entre as melhores seleções do mundo, ao mesmo tempo que permite a conjuntos como a Macedónia do Norte estarem no Europeu", recorda o jornalista da "Marca", numa referência ao play-off resultante da primeira edição do torneio e que permitiu que a seleção de Pandev competisse no campeonato da Europa.

Emilio Andreoli - UEFA/Getty

Guillaume Gautier concorda que se trata de um "título importante" e dá a Bélgica como exemplo da "dificuldade" para o vencer: "Se a equipa de Roberto Martínez ganhar, fá-lo-á tendo derrotado a Dinamarca e a Inglaterra, semi-finalistas do Euro, na fase de grupos, a França, campeã do Mundo, nas meias-finais, e a Itália na final". Arnaud Hermant também destaca o "nível muito elevado" do torneio, que inicialmente foi visto em França como "uma competição menor", mas que se tem tornado "valioso".

Mirko Calemne alerta, ainda assim, para a "sobrecarga de partidas no calendário", que "cansam o público e os jogadores", e opina que "muita gente não entende bem o formato da fase inicial da Liga das Nações", ainda que, chegada a esta fase, o "título se torne aliciante". Miguel Ángel Lara recorda que "quando o Europeu foi criado, poucos acreditavam nele, mas foi ganhando peso e tornou-se num grande torneio. Com o passar do tempo, as seleções levarão a Liga das Nações mais a sério, até porque a componente financeira será reforçada".

Para a Bélgica, vencer o título pode ser uma "libertação mental a um ano do Mundial", diz Gautier, em referência à pressão existente sobre esta geração, enquanto Hermant avisa que um triunfo pode "devolver a confiança na seleção francesa". Lara adverte que "se Espanha vencer, não haverá uma grande festa, mas claro que se desfrutaria do êxito", ao passo que para Itália, diz Calemne, "ganhar a Liga das Nações seria a cereja no topo de um bolo que já é enorme e bonito, dadas as muitas alegrias que o país teve em 2021, com o Europeu, as medalhas nos Jogos Olímpicos, os triunfos no ciclismo e até na Eurovisão".

Em pleno debate sobre o futuro do futebol de seleções, com a proposta do Mundial a cada dois anos e as divergências entre FIFA e UEFA bem presentes, a Liga das Nações assume-se como tentativa do organismo máximo do futebol europeu em ter um outro momento de grande protagonismo e mediatismo. Que role a bola.