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Futebol internacional

Não tem de ser possível tirar a bola à Espanha para se ganhar

Na ditatorial forma de jogar com que os espanhóis subjugam, pela bola, qualquer seleção, a França não precisou de discutir a propriedade do objeto que o adversário jamais quer perder. Quando, ali a partir da hora de jogo, a final se começou a partir, os franceses aproveitaram a fortuna de terem Pogba, Griezmann, Benzema e Mbappé para ficarem com a Liga das Nações e deixarem a bola para a Espanha

Diogo Pombo

Tullio Puglia - UEFA

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Matreiro quem inventou o jogo e lhe deu uma bola, só uma, e ao imbróglio de sermos bípedes e termos de aprender a tocá-la com os pés juntou-se a redundância de vinte e dois quererem o objetivo de exemplar único, que pertence apenas a uma equipa de cada vez. Desde que o ideário cruyffista impregnado em Barcelona nos anos 90, elevado ao apogeu por Guardiola e, em paralelo, por Aragonés e Del Bosque na seleção, a Espanha fidelizou-se a uma regência, agora e outra vez, tornada basilar por Luis Enrique.

Como se ainda fosse preciso fazê-lo, o selecionador vincou — “vamos tentar ter a bola, porque só há uma e se a tivermos, eles não a têm” — como os espanhóis, definitiva e dogmaticamente, se iam agarrar à pelota por idealizados estarem, há muito, para jogarem tendo-a e tocando-a, buscando abrir espaços passando-a como chamariz para deslocar os outros, neste caso os franceses. Em Milão, não era um encontro de seleções com ideias opostas, mas de intenções onde a oposição está na sua génese.

É diferente querer a bola sempre por se estar, pelo menos, há duas gerações a formatar selecionados para uma ditadura com ela, e querê-la a toda a hora por, à cabeça, se ter a fortuna de reunir tantos muitíssimos bons jogadores com mais do que aptidão para a terem. Cedo o guarda da arca de Noé da bola que é Busquets (35 anos) ordena o carrossel passador no qual Gavi (17 anos), o rapazola que nem 400 minutos de sénior tem no Barça, é quem mais a passa, e a Espanha coloca a França a perseguir sombras e a correr atrás da bola.

No quarto de hora inicial, a propriedade de tanto jeito dos franceses ainda divide esta quase regra. Conseguem deixar, várias vezes, Pogba com bola, de frente para a baliza e com Griezmann na sua mutação de deambulador entre linhas que assume na seleção, enquanto Mbappé assustava espanhóis a desmarcar-se e Benzema distribuía os seus toques de algodão para dar andamento a jogadas. É o avança gerador de jogo quem corre para a maior ameaça (6’), quando finta Unai Simón sem que, depois, encontre alguém na área; e volta a tentar rematar (24’) na área.

Aliviada aos poucos pelo ácido lático nas pernas e quiçá a frustração de os espanhóis, fosse por dentro (passe vertical para usar um dos três avançados como apoio frontal) ou por fora (soltar no engodo do guarda-redes ou de Busquets para atrair uma pressão intempestiva e soltar logo para um dos laterais), jamais terem uma saída da área bloqueada, os franceses vão deixando de tentar tirar a bola perto da área de quem joga para não a perder.

Mas, para tanto usufruto abusador da bola, sempre arranjador de solução para chegar aos últimos 30 metros de relva até à baliza de Lloris, aos espanhóis foi faltando mais do que deixar Sarabia, Oyarzabal e Ferran a tentarem magicar algo entre os três. Muitas vezes, os dois primeiros rasgavam corridas de fora para dentro, atacando o espaço entre centrais para vagarem relva ao último, dono do perfil com mais armas que o livrem de problemas sem necessitar de gente perto para combinar. Fora uma mão-cheia de cruzamentos rasteiros e tensos na área, a que quase alguém chegou, a Espanha pouco criava para finalizar.

FEP

A final da Liga das Nações manteve-se assim, com sombras a manusearem a bola e onze caçadores a persegui-las, até à mágica hora de ação, quando nem por isso a forte pressão pós-perda de bola da Espanha se estava a esburacar, só que, por uma vez, tudo saiu a cada um dos franceses que teve de resistir à pressão, de Tchouameni a rodar sobre um adversário, a Pogba se levantar após ser rasteirado e Mbappé respeitar a corrida de Benzema para o avançado cruzar rasteiro e Théo Hernandéz rematar a bola à barra. Quase do nada, a França inventava esta vertigem.

Logo na jogada que surgiu da ressaca desta, uma seleção talvez azamboada pela oportunidade acertada num ferro não teve ninguém a cerca Busquets: o médio que dribla corpos enganando com o seu corpo e sem, factualmente, fintar, levantou um passe longo para Oyarzabal discutir a bola com o hesitante Upamecano, a reclamar e a disparar (64’) baliza dentro, ao sprint. A Espanha a marcar num momento que não jogou como mais joga.

O golo pareceu ter soltado a trela à final, ficou pendurada no ar, à espera de quem a agarrasse e não foram os espanhóis a recolocarem-na no trinco da coleira que tinha apertada ao pescoço do adversário. Numa jogada quase fotocópia, lá foi Pogba a cavalgar numa transição rápida em que Benzema estava à espera pela entrega da bola na quina esquerda da área. Quando a recebeu, não mais olhou para a baliza, ajeitou-se para dentro e curvou a bola num arco que sobrevoou Unai Simón. Um golaço (66’) de quem é excelso ao mínimo espaço dado.

E, a partir daqui, o relvado de San Siro pareceu ficar alcatroado e planado, a final virou uma autoestrada de vaivéns repartidos e ficou à mercê de outras coisas serem mais decisivas num jogo de futebol do que a pausa, a frieza de chamar, fixar e soltar e a afinidade dos jogadores para tocarem a bola no pé; havendo mais espaço, em média, entre cada homem em campo, a final piscou o olho à França.

Jonathan Moscrop

Sentido as coisas a ficarem mais a jeito, os franceses acicataram-se nas disputas de bola, arriscaram mais nas ações em que iam roubar a bola e as perdas para os espanhóis sucederam-se. Lá foram os franceses, a gozarem do privilégio de poderem preencher os três atacantes com Benzema, Griezmann e Mbappé, e como o futuro de uma seleção está em Mbappé, que antes de sentar o guarda-redes com uma pedalada frenética sobre a bola e lhe fixar os apoios para o 2-1 (80’) já tinha tentado fazer-lhe um chapéu. Depois, ainda lhe remataria a bola às mãos no desfecho de outra jogada rápida ligada com a fluidez de conecta os talentosos.

A bola, a que Didier Deschamps disse “ser impossível tirar à Espanha”, continuou a estar nos mesmos pés durante mais de 60% do tempo, mas esteve mais falível, com mais solavancos e sem uma tríade de qualidade na frente que a França tem. Quando a final se partiu e sacudiu os chocalhos da coesão da posse espanhola, os franceses forçaram que tudo se precipitasse para um ritmo que lhes convinha. Não precisaram de discutir a quem pertencia a bola, com que a seleção de Luis Enrique acabou a marrar para a área, com três cruzamentos seguidos e Unai Simón lá a saltar.

A Liga das Nações é da seleção que, no planeta, talvez seja a que hoje tem a maior fortuna quando tem de restringir a lista de jogadores e definir quem são os melhores que tem. Continua a muito dificilmente ser possível tirar a bola à seleção de Espanha que subjuga qualquer outra à sua vontade, mesmo com tantos jogadores ausentes (não teve os avançados do Europeu, nem Pedri, por exemplo), mas a França não precisou de ter a bola para aproveitar o melhor que tem.