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Futebol internacional

O futebol está a ganhar a Neymar: “Encaro o próximo Mundial como o meu último. Não sei se terei condição na cabeça para aguentar mais”

O, porventura, jogador mais habilidoso desta geração e quem, pela forma como escolheu jogar, mais encurta a galáxia de distância que há entre uma peladinha entre amigos despreocupados na rua e o teto competitivo no futebol, desvendou que pode não aguentar mais naquilo que o desporto mói a quem o pretende escalar até lá acima: na cabeça. Neymar tem 29 anos e, no Catar, jogará o seu terceiro Mundial com o Brasil

Diogo Pombo

Buda Mendes/Getty

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Em cada fornada geracional de futebol há um, dois, porventura três tipos, que personificam a ginga da rua e o infinito engenho para brincar com a bola, a seguir a Diego Maradona terá vindo o Fenomenal Ronaldo, depois de ambos o Ronaldinho sempre equipado com aquele sorriso e nisto não entra só a habilidade, que muitos a têm; nem o ser o melhor jogador ou não, isso varia. Trata-se do que representam.

Na presente geração, esse tipo é Neymar. Não quer dizer que seja o excelso máximo ou melhor do que fulano e catrano, mas, do Santos ao Barça e do PSG à seleção do Brasil, vê-lo a interagir com uma bola em campo equivale a algo parecido do que era ver o argentino que jogou com o coração na ponta da chuteira e os outros brasileiros que romperam com um certo protótipo de futebolista.

É assistir a um malabarista nato que aprendeu a driblar antes de saber jogar e dá material de sonho à criançada que procura inspiração na bola.

Neymar será muito coisa e certamente é uma catrefada de julgamentos consoante a queda que dê no goto de cada pessoa que veja futebol nestes tempos, de redes sociais e camuflagem fácil atrás de ecrãs para se insultar, ofender ou mandar abaixo como quem coça um olho. E banalizou-se que Neymar é o tal que simula dores, protesta contra pancada e finge lesões para ir ao carnaval, enquanto carrega, há anos, a expetativa de fintar tudo até à conquista de um Mundial para o Brasil, que todos os brasileiros acham ter como um dever a vitória em qualquer Copa do Mundo, como lhe chamam.

Porque Neymar, acham-se as considerações que se acharem sobre ele, é factualmente um jogador do mais talentoso que já existiu, farto está de o provar e em 2014 (Brasil) e 2018 (Rússia) tentou levar a seleção ao cume que os brasileiros exigem, ciclicamente, que se alcance. Em 2022, poderá ser a derradeira tentativa.

A ginga em pessoa de futebolista admitiu que depois da edição do Catar poderá não voltar a jogar um Mundial. "Acho que é a minha última Copa do Mundo, encaro como a minha última", confessou, a um documentário da "DAZN". Fê-lo com cara séria, cerrada na gravidade do tema, o vídeo escurecido e sem contraste para acrescentar peso ao anúncio.

Pool

O que Neymar admitiu, logo de seguida, num par de frases, pode ser a consequência de anos e anos a aguentar com o que é intangível, mas do que mais sentível que pode haver para qualquer desportista — a pressão.

"Não sei se terei mais condição de cabeça de aguentar mais futebol. Então, não sei. Vou fazer de tudo para chegar muito bem, ganhar com o meu país e realizar o meu sonho maior desde pequeno", explicou o brasileiro, que terá 30 anos quando o primeiro Mundial da história se jogar entre novembro e dezembro.

O, porventura, jogador mais habilidoso desta geração e quem, pela forma como escolheu jogar, mais encurta a galáxia de distância que há entre uma peladinha entre amigos despreocupados na rua, com pedras a demarcarem as balizas, e o teto competitivo (Liga dos Campeões, Mundiais, etc.) que há no futebol, desvendou que pode não suportar mais o que o desporto mói a quem o pretende escalar até lá acima.

A cabeça, a mente e a sanidade. O futebol parece estar a ganhar a Neymar — ou, se calhar, ele está a perder para tudo aquilo que o futebol viveria bem sem.