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Futebol internacional

Oito jogos, oito vitórias, zero golos sofridos. A Dinamarca está no Mundial, mas quer alertar para a situação humanitária no Catar

A equipa de Kasper Hjulmand está a dar sequência ao que fez no Euro 2020, tornando-se na terceira seleção com presença assegurada no Mundial graças a uma qualificação perfeita. Sem nenhuma grande estrela, mas com um grupo sólido, a Dinamarca quer continuar a surpreender na maior competição global, mas o seu treinador não esquece os problemas humanitários relativos à organização da prova e pede que "outras federações" se juntem à dinamarquesa: "terem uma voz mais forte" para abordar a questão dos direitos humanos no Catar

Pedro Barata

Lars Ronbog/Getty

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O cenário parece-nos familiar: a Dinamarca a ganhar, as bancadas em festa, os jogadores a atirarem cerveja para cima uns dos outros e festejando com Kasper Hjulmand, o seu treinador. Os momentos de celebração dinamarquesa foram uma das imagens de marca do Euro 2020 e estão agora de volta: após vencer, por 1-0, a Áustria, a seleção garantiu a presença no Mundial 2022.

O triunfo frente aos austríacos foi o oitavo em oito jornadas de qualificação, nas quais os dinamarqueses marcaram 27 golos e não sofreram nenhum. "Este é o tipo de coisas com as quais sonhas. É incrível", disse Pierre-Emile Hojberg, uma das principais figuras da equipa, após o triunfo em Copenhaga que selou a presença da equipa no Catar.

A comunhão entre jogadores, treinador e adeptos é evidente, resultando num "grande momento para a equipa, o futebol dinamarquês e a Dinamarca", como diz Hojberg. Após chegar às meias-finais do Euro 2020, a seleção da Escandinávia estará na sexta fase final de um Mundial da sua história com o objetivo de superar os quartos-de-final conseguidos em 1998.

Lars Ronbog/Getty

"Devemos estar orgulhosos desta equipa", diz Kasper Hjulmand, o técnico que já foi descrito pelo jornal dinamarquês "BT" como "o líder do ano" no país. O treinador conseguiu reerguer a equipa após o drama vivido com Eriksen, na primeira jornada do Euro 2020, passando a Dinamarca de perder as duas primeiras partidas para, com um futebol entusiasmante e virado para a frente, bater Rússia, País de Gales e República Checa e chegar às meias-finais, onde só caiu no prolongamento frente à Inglaterra.

Apesar do excelente Euro e da qualificação sem sobressaltos, Hjulmand opina que "a equipa pode jogar ainda melhor", o que é "uma grande motivação". Para o selecionador, estes resultados são fruto "de anos de trabalho árduo de antigos treinadores e do desenvolvimento de talentos" na Dinamarca.

Sem uma grande estrela internacional, a equipa tem como sólidos pilares o guardião Kasper Schmeichel, digno sucessor do pai, o capitão Simon Kjaer ou o já referido Hojberg. Quanto aos golos, esses tendem a ser repartidos entre vários jogadores, como se viu nesta qualificação: os 27 tentos apontados foram da autoria de 17 jogadores diferentes, não havendo nenhum futebolista que tenha feito a bola beijar as redes adversárias mais do que quatro vezes — número de golos de Andreas Skov Olsen e de Joakim Maelhe, o homem que garantiu o triunfo contra a Áustria.

Lars Ronbog/Getty

Thomas Delaney, médio do Sevilha, expressa a confiança reinante no coletivo: "Neste momento, acreditamos que não podemos ser derrotados. Temos uma seleção incrivelmente talentosa, que não tem parado de aumentar o nível. Quando Kasper Hjulmand chegou, ele disse que a seleção deveria unir e inspirar o país, e é isso que temos feito".

No entanto, a euforia em redor da seleção não tem feito esquecer que o Mundial se disputará no Catar, num cenário sobre o qual se colocam muitas interrogações no que toca ao respeito pelos direitos humanos. Nos cálculos feitos pelo "The Guardian", morreram cerca de 6.500 trabalhadores migrantes desde 2010 no Catar, quando se soube que lá seria o palco do próximo Campeonato do Mundo, um dos eventos desportivos mais rentáveis do planeta (o "New York Times" estimou que a edição de 2018 renderia €6,1 mil milhões em lucros para a FIFA).

A 31 de março, no duelo de qualificação para o Mundial disputado na Áustria, os jogadores da seleção da Dinamarca utilizaram camisolas a dizer "o futebol apoia a mudança", numa mensagem a favor de melhores direitos para os trabalhadores do Catar.

Na última partida em casa, a qual selou a qualificação, a Amnistia Internacional levou para o estádio Parken, em Copenhaga, uma tarja com a inscrição "Direitos Humanos para Trabalhadores Migrantes". Uma outra mensagem, na qual se lia "boicote ao Catar 2022" foi levada para dentro do estádio, mas foi ordenada a sua remoção — o porta-voz da Federação da Dinamarca disse que, ao ser uma "mensagem política", as regras da FIFA obrigavam a que fosse retirada, sob pena de castigo à seleção.

NurPhoto/Getty

Nos últimos dias, e à medida que a qualificação da seleção para o Mundial se afigurava como uma questão de tempo, o tema das direitos humanos no Catar foi muito debatido no país, com bastante destaque nas edições online de vários meios de comunicação de referência. A Amnistia Internacional na Dinamarca tem, segundo declarações de uma sua representante ao jornal "BT", "mantido um diálogo estreito" com a federação de futebol sobre o que fazer até à fase final da competição e durante o certame a realizar no Catar.

Segundo a Amnistia Internacional dinamarquesa, a seleção tem de "estar preparada para chegar a um país que fará tudo o que estiver ao seu alcance para lavar a sua imagem durante o Mundial, para fazer com que tudo pareça fantástico", devendo os jogadores e o público entender que "há um reverso da medalha". Para a organização, o Mundial assentará em "infraestruturas feitas por trabalhadores migrantes em condições miseráveis" e é importante "informar os participantes disso".

A questão sobre a relação da Dinamarca com a organização do Mundial chegou mesmo ao parlamento. Numa sessão com a Ministra da Cultura, este foi questionado sobre como é que a seleção lidaria com as acusações que são feitas sobre os direitos humanos dos trabalhadores no Catar, tendo Ane Halsboe-Jorgensen, a ministra, descartado qualquer "boicote" ao torneio. "Claro que a seleção estará no Mundial", disse, considerando ser "exemplar" que a Dinamarca tenha "uma seleção que se interessa pelo enquadramento da competição", mas que não se deve "tomar os jogadores como politicamente responsáveis em temas de relações internacionais".

Após o triunfo contra a Áustria, que garantiu a presença no Mundial, o selecionador Kasper Hjulmand confessou que a Federação da Dinamarca gostaria que "outras federações" se juntassem ao debate sobre os direitos humanos no Catar, para que houvesse "uma voz mais forte" sobre o tema, lamentando o técnico que "isso não pareça ser do interesse de algumas pessoas além de nós, neste momento".

Ainda assim, o técnico concordou com a ministra da Cultura, ao dizer que "não são os jogadores nem os treinadores que falam diretamente com os políticos", e que não se deve fazer dos atletas "reféns" neste tipo de situações. Hjulmand deixou a promessa de nos próximos meses "informar-se realmente" sobre o tema, para depois "opinar sobre ele".

UEFA/Getty

Entre a felicidade pelos resultados da sua equipa nacional e o debate sobre o que fazer perante um Mundial alicerçado em ofensas à dignidade humana, a Dinamarca vai vivendo uma espécie de lua de mel com os homens liderados por Hjulmand.

E Simon Kjaer, o capitão de equipa, a falar após a vitória contra a Áustria, recordou Eriksen como motivo para desfrutar do momento: "Jogar pela seleção é uma experiência para a vida, a qual deves aproveitar sempre que aqui estiveres. Nunca sabes quando será a última vez que o vais fazer e nós vivemos o melhor exemplo disso mesmo".

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