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Futebol internacional

O United de Solskjaer volta a despistar-se na montanha-russa de Leicester

Em nova exibição pobre dos "red devils", a equipa do técnico norueguês perdeu (4-2) contra um Leicester a recordar os melhores tempos sob a liderança de Brendan Rodgers. Com apenas duas vitórias nos últimos sete jogos e tendo Liverpool, Tottenham e City como próximos adversários na Premier League, a pressão sobre o lugar de Solskjaer voltará a subir nos próximos tempos

Pedro Barata

Mike Egerton - PA Images/Getty

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Corria o minuto 82 no King Power Stadium. Marcus Rashford acabara de fazer o 2-2 para o Manchester United, podendo dar à equipa visitante o embalo para atacar um triunfo precioso nos minutos finais do duelo. Mas a estabilidade do atual United abala com um sopro e, segundos depois do 2-2, De Gea estava, de novo, a ir buscar a bola à sua baliza, num gesto que ainda repetiria outra vez antes do apito final.

A derrota, por 4-2, dos "red devils" em Leicester acentuou o mau momento da equipa de Solskjaer, que nas últimas sete partidas só conseguiu vencer duas (e ambas com enorme sofrimento, frente a West Ham e Villarreal). Pior do que a crua estatística do resultado, só mesmo a sensação de que o tempo passa - o norueguês fará em dezembro três anos no cargo - e pouco ou nada melhora no conjunto de Manchester, apesar de um plantel que vai sendo, constantemente, reforçado. Mais do que nunca, Solskjaer sai de Leicester com a sensação de que o seu tempo pode estar contado.

Mike Egerton - PA Images/Getty

Se do lado do United está um treinador questionado, do lado do Leicester está um técnico desejado. Brendan Rodgers é, há muito, um dos mais cotados treinadores britânicos, o que o leva a ser, frequentemente, associado a outros bancos. Nos últimos dias, foi noticiado o interesse do Newcastle, o novo milionário do futebol inglês, no timoneiro do Leicester. Mas este foi lesto a dizer que "ama" estar nos "foxes", descartando uma saída.

O começo de temporada até nem tem sido feliz para o Leicester, com apenas dois triunfos nas sete jornadas inaugurais da Premier League. Mas no clube, um exemplo de gestão e crescimento, ninguém se atreve a questionar Rodgers, que hoje viu a sua equipa fazer uma exibição ao nível do melhor que já se lhe viu. Actuando com três centrais, a precisão, velocidade e agressividade da equipa da casa superou um United que vive dos rasgos individuais das suas estrelas ofensivas.

Numa tarde em que Ronaldo e Bruno Fernandes não estiveram felizes, e na qual Sancho voltou a estar ausente, foi Mason Greenwood, o jovem atacante do United, a dar o primeiro safanão no encontro. A equipa de Solskjaer nem apresentava grandes recursos para se aproximar de Schmeichel, mas, ao minuto 19, Greenwood mostrou que tem a capacidade de, com o seu talento, levar o jogo para caminhos diferentes aos que parecem estar a ser escritos no seu guião. O inglês recebeu perto da área, ajeitou e disparou com força e precisão, sem hipóteses para Schmeichel.

Ash Donelon/Getty

O talento individual do United pode fazer com que a equipa esteja sempre relativamente perto de marcar, mas a pobreza colectiva faz com que viva sempre num sobressalto. Pouco depois do 1-0, Ricardo Pereira, sempre fulgurante a subir pela direita, roçou o empate, o qual chegaria mesmo pouco depois.

Harry Maguire jogou, entre 2017 e 2019, no Leicester, saindo do clube rumo a Old Trafford numa transferência milionária, daquelas que têm feito com que os "foxes" encham os cofres e consigam continuar o seu crescimento. E o central, muito assobiado pelo público, teve um regresso para esquecer ao King Power Stadium.

Ao minuto 31, Maguire foi desarmado, à entrada da sua área, por Ihenacho, que assistiu Tielemans. O belga, médio de classe e remate fácil - foi um tiro seu que deu a FA Cup 2020/21 ao Leicester, picou, de primeira, a bola sobre De Gea, batendo o guardião espanhol num gesto de intuição, classe e técnica.

Mike Egerton - PA Images/Getty

A segunda parte trouxe um Leicester superior, com um futebol de fluidez contrastante com o marasmo do seu oponente, sempre dependente de iniciativas individuais. Mason Greenwood, num desses momentos, esteve perto do bis, mas Schmeichel evitou o golo com uma defesa que orgulhará o seu pai (ainda que tendo evitado um tento do clube pelo qual Peter fez história).

Com o passar dos minutos, a diferença entre um United apático e um Leicester ambicioso e personalizado foi ficando cada vez maior. David de Gea ia evitando o 2-1, mas aos 78 minutos, após defender um primeiro remate de Daka, nada pôde fazer para impedir que os locais obtivessem uma vantagem natural.

Entretanto, já Solskjaer tinha lançado no jogo Marcus Rashford que, devido a lesão, ainda não havia somado qualquer minuto na presente temporada. O atacante inglês não jogava desde a final do Euro 2020, há mais de três meses, mas precisou de menos de 20 minutos para marcar. Aos 82', foi mais rápido do que toda a defesa rival e empatou o duelo. Solsjkaer disse que Rashford precisava "de colocar o futebol como prioridade", mas Marcus mostrou, uma vez mais, que lutar contra o racismo ou a pobreza infantil é compatível com marcar golos.

Matthew Peters/Getty

Mas a tarde, definitivamente, não estava feita para o United. Num final digno da emoção que todos associamos à Premier League, segundos depois do 2-2, Ayoze Pérez ganhou espaço pela esquerda e serviu Vardy que, com todo o tempo para rematar dentro da área, bateu De Gea e levou o King Power Stadium à loucura com os seus carismáticos festejos. E, até final, Patson Daka ainda agravaria o pesadelo do United, tornando-se o primeiro jogador da história da Zâmbia a marcar na Premier League e fixando o 4-2 final.

O United até vinha de 30 jogos sem perder fora de casa na Premier League, mas o que se viu em Leicester foi a repetição de um cenário demasiadas vezes visto. Uma equipa de processos coletivos frágeis, sem mecanismos que façam com que o conjunto não se resuma a rasgos produzidos pelo seu enorme talento individual. Com Liverpool, Tottenham e City como próximos adversários na Premier League, tendo dupla jornada com a Atalanta na Liga dos Campeões pelo meio, as próximas semanas serão um teste de fogo a um Solskjaer que, uma vez mais, volta a ter o seu lugar muito questionado.